Rogério Severo: José Paulo Paes, Thoreau e o direito à desinformação

Rogério Severo: José Paulo Paes, Thoreau e o direito à desinformação
Foto: Frank Sautter, 2024

Com um sorriso nos lábios, releio uma entrevista antiga do poeta José Paulo Paes à Folha de São Paulo, publicada em 12 de novembro de 1995. Não sei se existe propriamente um direito à desinformação, mas entendo o que ele quis dizer. O assunto não é jurídico nem social, mas ético. Diz respeito às prioridades da vida de uma pessoa, à vida que vale a pena ser vivida.  Indagado acerca da qualidade dos textos jornalísticos da sua época, respondeu: 

…não leio jornais há uns dez anos. Houve um tempo em que eu andava nervoso, preocupado, com insônia, e eu descobri que era por causa dos jornais. Todo dia eu devorava aquela coisa, de modo obsessivo, e isso me fazia mal. Porque, para o jornal, a boa notícia é a má notícia. O jornal é o repositório da má notícia, e ele te dá do mundo a pior imagem possível. Eu perdia muito tempo lendo jornal, e hoje eu aproveito melhor esse tempo. Por que, por exemplo, perder tempo lendo sobre a guerra do Golfo se eu posso ler a Ilíada? Guerra por guerra... (risos). Acho que o indivíduo hoje tem que poder defender seu direito à desinformação, porque ele é bombardeado por uma quantidade espantosa de informações, e 99% delas são totalmente irrelevantes. 

Na sua singeleza e aparente ingenuidade, essas palavras têm a marca de uma sabedoria bem rara, sobretudo em jornais. Há uma atitude e um chamamento ético no que ele diz, que merece ser explicitado e reafirmado. A sabedoria é a capacidade de ser sensível às particularidades de cada situação e de encontrar a medida e a intensidade certa para cada palavra e ação. Não está no cumprimento de deveres independentemente das consequências, nem na busca dos melhores resultados à revelia de qualquer princípio. O sábio reconhece os seus limites e é sensível às peculiaridades do contexto em que se encontra, o que cada situação demanda dele. Sabe que o mundo sempre excede qualquer princípio, dever ou cálculo. E é por isso que há esse tantinho de sabedoria nas palavras desse poeta. Reconhecer um excesso de informações irrelevantes é também reconhecer os próprios limites e o que esta situação particular demanda dele, o que é prioritário em sua vida particular e única. O que é relevante para uns pode não ser para outros. Por isso, a medida das prioridades na vida de cada um nem sempre acompanha a lógica do interesse público. Mas nem sempre é fácil agir em conformidade com esse fato, pois há um grande impulso em todos (quase todos) os seres humanos à conformidade social, ao “pensamento de grupo”. Esse impulso, que é parte da natureza humana, permite a vida social e a cooperação, mas ao nível individual pode também produzir uma pasteurização e um achatamento das personalidades.

Os filósofos antigos muito escreveram sobre a sabedoria, mas nada sabiam da imprensa ou do excesso de informações. Viviam num mundo em que a informação era mais rara. Por certo, conheceram outros excessos, mas não esse, típico da nossa época. Nas três décadas desde a entrevista de José Paulo Paes, o que já era excessivo se exacerbou. A entrevista é de uma época em que os jornais ainda eram impressos, não havia smartphones e inteligência artificial só funcionava bem na ficção científica. Hoje não é assim e ninguém entende direito as implicações desse admirável mundo novo. Some-se a isso a quase completa tribalização da imprensa e das redes sociais, e temos um problema grave de bolhas informacionais, ausência de critérios comuns e dificuldade de discernir não apenas o que é relevante mas também o que é verdadeiro. 

Podemos, é claro, discutir os problemas da sociedade contemporânea e da tecnologia da informação. São problemas difíceis e técnicos, e as análises são em boa medida especulativas. Mas há um outro aspecto desse mesmo fenômeno que é muito antigo e muito básico. A esse respeito muitos filósofos ilustres já se manifestaram, trazendo à atenção o que às vezes é descrito como um “chamado”, o chamado da alma, ou da consciência. Trata-se daquilo que em cada um de nós pede para ser vivido individualmente, à revelia ou mesmo contrariamente aos olhares e expectativas dos outros. Esse foi o chamado de Sócrates, na Apologia, escrita por Platão. Foi também o chamado de Kant, “sapere aude” [ouse saber], no ensaio O que é o esclarecimento. E não é esse o chamado de todo adolescente, para que cresça? Ou do adulto, para que amadureça? E do velho, à sabedoria? São chamados individuais, que cada um escuta solitariamente, pois diz respeito apenas a si mesmo, ao que a própria alma quer e precisa. 

Não se trata de cultivar a ignorância ou o isolamento, mas de escolher o que é mais importante, ou, parafraseando os evangelhos, de não se distrair em ganhar o mundo e perder a própria alma. Em termos muito próximos aos de José Paulo Paes, o escritor e filósofo americano Henry David Thoreau chamou a atenção (no século XIX, vejam só!) para o risco de perder a vida nas distrações do noticiário e da falação pública. Em “A vida sem princípios”, escreveu: 

Não é sem um leve estremecimento que, com frequência, percebo o quão perto estive do perigo de admitir em minha mente os detalhes triviais de um assunto qualquer — o noticiário das ruas; e me surpreendo ao observar o quanto as pessoas estão dispostas a assoberbar suas mentes com esse lixo —, permitir que rumores e acontecimentos inúteis do tipo mais insignificante se intrometam em um território que deveria ser consagrado ao pensamento. Será que a mente é uma arena pública em que principalmente se discutem os assuntos da rua e as fofocas da mesa de chá? Ou será que é um recanto do próprio Céu — um templo hipetro [de teto aberto], consagrado ao serviço dos deuses? Acho tão difícil lidar com os poucos fatos que para mim são significativos, que hesito em sobrecarregar minha atenção com os insignificantes, que apenas uma mente divina poderia abarcar. Assim são, no mais das vezes, as notícias nos jornais e nas conversas. A esse respeito, é importante preservar a castidade da mente.

Pode soar ingênua a preservação da pureza em um mundo impuro. Mas há uma ingenuidade cultivada que pode ser adquirida pela sabedoria, a ingenuidade de uma segunda infância, na velhice: a reaquisição da sensibilidade dos pensamentos únicos, os que são tidos pela primeira vez, do maravilhamento com as coisas simples e próximas, da incapacidade de condenar, do gosto pela brincadeira e pelo fluir dos acontecimentos. É disso, eu acho, que esses escritores estão falando. 

Não se trata de exortar o isolamento e a ignorância, mas de trazer à consciência o que é mais importante e evitar a distração fútil da falação dos noticiários. Trata-se de viver a vida única que cada um tem e não a vida embotada da consciência social média. Há um argumento que embasa as atitudes de Thoreau e José Paulo Paes: consiste no reconhecimento de que a capacidade de pensar e agir de cada um é bastante limitada e que, portanto, a pessoa se desvia e se distrai do que é mais importante para ela quando sua atenção fica consumida pelo que está além do seu alcance e do seu entendimento. Qualquer um pode ler a respeito de guerras, doenças e problemas mundiais. Mas, a rigor, o número de pessoas que efetivamente conhece e pode opinar com sabedoria nesses assuntos é bem reduzido. E o número dos que estão em condições de agir de modo a ter algum impacto nessas situações é ainda menor. Para esses poucos, pode ser importante e até necessário envolver-se nelas. Para os demais, há o direito à desinformação, o direito de dedicar-se ao que é mais importante no contexto de sua própria vida, de dedicar-se àquilo que sua alma lhe pede, à revelia dos olhares do público e do estrato bem fino em que os eventos do noticiário acontecem — “mais finos”, escreveu Thoreau, “do que as folhas de jornal em que são impressos”. 

Referências

Paes, José Paulo. “José Paulo Paes defende o ‘direito à desinformação’”. Entrevista concedida a José Geraldo Couto. Folha de São Paulo. São Paulo, 12 de novembro de 1995. 

Thoreau, Henry David. “Life without principle”. In: Brooks Atkinson (ed.), Walden and other writings of Henry David Thoreau. New York: Modern Library, 1992. [Internet Archive], [Amzn]


Rogério P. Severo é professor no Departamento de Filosofia da UFRGS.


Arquipélago Filosófico, Vol. 2, No. 19 (2026), e-019
ISSN 3086-1136

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