Frank Thomas Sautter, O sofrimento humano, segundo Tchekhov
Arquipélago
Frank Thomas Sautter é professor titular de Filosofia na Universidade Federal de Santa Maria. Este é o terceiro artigo de uma sequência que está escrevendo para o Arquipélago. Os anteriores podem ser encontrados aqui e aqui.
O sofrimento humano, segundo Tchekhov
Frank Thomas Sautter
A novela "Enfermaria no 6", de Anton Pavlovitch Tchekhov, foi publicada em 1892 na revista O pensamento russo (Tchekhov, 1995, p. 284). Nela, o médico Andriéi Iefímitch Ráguin e um paciente da Enfermaria no.6 – uma ala para doentes mentais –, Ivan Dmítritch Gromov têm longas conversas sobre o sofrimento humano, a imortalidade e o niilismo. Em carta destinada a Aleksei Suvórin, datada de 31 de março de 1892, Tchekhov caracteriza "Enfermaria no.6" como uma novela em que há muita argumentação, mas na qual falta o elemento do amor (Tchekhov, 1995, p. 284). Construirei a rede dialética de um "discurso" inicial do médico sobre os méritos do sofrimento humano e sobre como devemos suportá-lo, e, depois, a rede dialética de um "debate" entre médico e paciente acerca deste mesmo tema.
A Figura 1 e o Quadro 1 apresentam os argumentos iniciais de Ráguin, que constam do Capítulo V da novela e apresentam-se como pensamentos de Andriéi Iefímitch que o oprimem (Tchekhov, 1995, p. 243). A rede dialética é, aqui, constituída exclusivamente por movimentos defensivos, os únicos tematizados pela Lógica. A paginação, no Quadro 1, remete à tradução brasileira de Boris Schnaiderman (Tchekhov, 1995, p. 231-278).
| n. | Asserção |
|---|---|
| 1 | O sofrimento não deve ser aliviado por meio de gotas e pílulas (p. 243). |
| 2 | O sofrimento conduz os humanos à perfeição (p. 243). |
| 3 | Se a humanidade aprender a aliviar o sofrimento por meio de gotas e pílulas, abandonará por completo a religião e a filosofia (p. 243). |
| 4 | Na religião e na filosofia encontramos não só proteção para todas as desgraças, como ainda a felicidade (p. 243). |
| 5 | Vidas notáveis, como as de Púshkin e de Heine, são marcadas por sofrimento (p. 243). |
O primeiro argumento, segundo o qual o sofrimento promove a perfeição, o progresso moral, é similar ao argumento de Mestre Eckhart, segundo o qual o impulso para pecar pode promover a perfeição: "O impulso ao erro nunca é sem utilidade e é benéfico para o justo. [...] O impulso ao pecado não é pecado, mas consentir ao pecado, ceder à ira [no caso daqueles que, por sua natureza, são coléricos, soberbos ou fracos] é pecado. [...] Sem o impulso ao pecado uma pessoa estaria incerta sobre tudo o que fizesse, em dúvida sobre o que fazer, e sentiria falta da honra e da recompensa decorrentes da luta e da vitória." (apud Smullyan, 1983, p. 47-48).
O segundo argumento, tal como está apresentado, assemelha-se a uma falácia da ladeira escorregadia: uma concessão – o alívio do sofrimento – é o primeiro de uma série de eventos que culminarão em um final trágico, a saber, o abandono completo da religião e da filosofia.
O terceiro argumento é um argumento pelo exemplo. Aleksandr Sergueievitch Púshkin, poeta russo, passou um longo período da sua vida exilado e sob severa vigilância por pertencer a um círculo de pessoas que tramou um golpe contra o czar Alexandre I. Púshkin escreve, em 1830, o poema "Elegia", em que há um verso que expressa a sua filosofia de vida: "Quero ser para pensar e sofrer." Heinrich Heine, poeta alemão, passou os últimos anos da sua vida prostrado em um leito, devido a uma paralisia progressiva causada por neurosífilis. Durante este período, Heine escreveu "Romanzero", considerada uma obra-prima da poesia alemã, em que reflete sobre a condição humana.
A Figura 2 e o Quadro 2 apresentam a argumentação decorrente do diálogo entre Andriéi Iefímitch – o proponente, cujas asserções estão encerradas em círculos – e Ivan Dmítritch – o oponente, cujas asserções estão encerradas em quadrados. Esta argumentação consta do Capítulo X da novela e, ao examinar a rede dialética produzida, verifica-se tratar-se basicamente de um monólogo de Ivan Dmítrich. Também aqui a paginação remete à tradução de Boris Schnaiderman.
| n. | Asserção |
|---|---|
| 1 | A tranquilidade e a satisfação do homem não estão fora, mas dentro dele (...) Um homem comum espera de fora o bom e o mau, isto é, da carruagem e do escritório, e quem pensa, de si mesmo. (p. 256) |
| 2 | Diógenes não precisava de um escritório e de um apartamento aquecido; lá, de qualquer maneira, faz calor. Fique-se, pois, deitado no barril, chupando laranjas e comendo azeitonas. Mas, se ele tivesse que viver na Rússia, pediria para entrar dentro de casa já não digo em dezembro, mas até em maio. Garanto que ia torcer-se de frio. (p. 256) |
| 3 | Pode-se não sentir o frio, assim como qualquer dor. Marco Aurélio afirmou: "A dor é uma representação viva da dor: faze um esforço de vontade para modificar essa representação, repele-a, cessa de te queixar, e a dor desaparecerá." (p. 256) |
| 4 | E o tecido orgânico, se é capaz de vida, deve reagir a toda excitação. (p. 256) |
| 5 | Respondo à dor com gritos e lágrimas (...). (p. 256) |
| 6 | (...) à infâmia, [respondo] com a indignação (...). (p. 256) |
| 7 | (...) à ignomínia, [respondo] com asco. (p. 256) |
| 8 | Para desdenhar o sofrimento, estar sempre satisfeito e não se espantar com nada, é preciso chegar a essa condição — Ivan Dmítritch indicou o mujique gordo, afogado em banha — ou temperar a si mesmo com o sofrimento a ponto de perder toda a sensibilidade em relação a ele, isto é, em outras palavras, deixar de viver. (p. 257) |
| 9 | [A doutrina estóica] não é prática, vital. (p. 257) |
| 10 | A doutrina que prega indiferença à riqueza, às comodidades da vida, o desprezo pelos sofrimentos e pela morte, é de todo incompreensível para a imensa maioria, pois essa jamais conheceu a riqueza nem aquelas comodidades (...). (p. 257) |
| 11 | (...) e desprezar os sofrimentos significaria para ela [a imensa maioria das pessoas] desprezar a própria vida, pois toda a essência da vida humana consiste em sensações de fome, frio, ofensas, privações e um medo hamletiano da morte. (p. 257) |
| 12 | Nessas sensações [fome, etc.] está a vida inteira: pode-se senti-la como um peso, odiá-la, mas não desprezar. (p. 257) |
| 13 | (...) e progridem, como o senhor vê desde o início dos tempos até hoje, a luta, a sensibilidade para a dor, a capacidade de responder a uma excitação... (p. 257) |
| 14 | (...) algum dos estóicos se vendeu como escravo, a fim de resgatar um próximo. (p. 257) |
| 15 | Cristo respondia à realidade chorando, sorrindo, entristecendo-se, ficando furioso e até angustiando-se; não foi com um sorriso que Ele caminhou ao encontro dos sofrimentos e não desprezou a morte, mas rezou no Jardim de Getsêmani, pedindo para evitar o cálice. (p. 257) |
A asserção 2 remete ao filósofo Diôgenes de Sinope, cognominado "O Cínico". Segundo Diôgenes Laêrtios, que lhe dedica um longo capítulo em sua "Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres" (Diôgenes Laêrtios, 2008, p. 157-173), ele também era cognominado "O Cão" porque, ao perguntaram-lhe o que havia feito para ser assim chamado, teria respondido: "Balanço a cauda alegremente para quem me dá qualquer coisa, ladro para os que recusam e mordo os patifes." (Diôgenes Laêrtios, 2008, p. 167). Sobre o fato de morar em um barril, Diôgenes Laêrtios (2008, p. 158) relata que "em certa ocasião Diôgenes escreveu a alguém pedindo-lhe para arranjar uma pequena casa; em face da demora dessa pessoa ele passou a morar num tonel existente no Metrôon, de acordo com sua próprias afirmações em suas cartas." Essa e outras passagens relatadas por Diôgenes Laêrtios sugerem que Diôgenes de Sinope não se furtava das comodidades da vida, apenas não as buscava diligentemente. A seguinte passagem sobre os hábitos de Diôgenes de Sinope servem como um contraponto à fala de Ivan Dmítritch: "No verão ele rolava sobre a areia quente, enquanto no inverno abraçava as estátuas cobertas de neve, querendo por todos os meios acostumar-se às dificuldades." (Diôgenes Laêrtios, 2008, p. 158)
Na asserção 3 Andriéi Iefímitch menciona explicitamente Marco Aurélio em apoio ao seu ponto de vista. Vejamos algumas passagens das Meditações (Marco Aurélio, 2023) nas quais Marco Aurélio reflete sobre a dor e de como devemos agir em relação a ela.
No Livro 7, Capítulo 33 das Meditações, Marco Aurélio (2023, p. 128) afirma o seguinte: "Sobre a dor: a dor insuportável nos mata, a dor crônica pode ser suportada. A inteligência preserva sua própria serenidade retirando-se e o guia interior não é prejudicado pela dor. Cabe às partes feridas pela dor se manifestarem se puderem." Comentando esta passagem, Farquharson (Marcus Antoninus, 1944, p. 358) diz o seguinte:
Herrick traduziu este dito de Epicuro:
Se a dor for grande, é curta; se for longa, é leve.
E Thomas More respondeu em latim, o que pode ser interpretado como:
Dor longa não é leve; dor grave nunca é curta.
E agarra, assim, cada um dos chifres do dilema. Epicuro havia notado um fato da sensibilidade. "As dores são intermitentes; embora sua causa persista, chega um ponto em que a capacidade de sofrer esgota-se temporariamente, e então começa um período de repouso durante o qual se reúnem forças para um novo sofrimento." O próprio Epicuro suportou grandes dores com uma fortitude admirável.
O comentário é instrutivo sob vários aspectos. Consideremos a questão lógica. Após as duas citações – Epicuro e Thomas More –, Farquharson refere-se aos "chifres" de um dilema. A expressão é frequentemente utilizada para referir-se a cada uma das alternativas do dilema. Mas, a quem Farquharson se refere? Epicuro, Thomas More, ou a ambos? Formalizemos as duas citações para o descobrir.
Seja "p" a letra sentencial para "A dor é grave" e, portanto, "¬p" está por "A dor é leve"; e seja "q" a letra sentencial para "A dor é longa" e, portanto, "¬q" está por "A dor é curta". A formalização da fala de Epicuro é: (1) p → ¬q e (2) q → ¬p. (1) e (2) são a contrapositiva uma da outra. Portanto, não há aqui um pronunciamento sobre os dois "chifres" do dilema, apenas de um deles. Já a formalização da fala de Thomas More é: (3) q → ¬¬p, ou seja, q → p e (4) p → ¬¬q, ou seja, p → q. Portanto, p ↔ q. Há aqui um pronunciamento sobre os dois "chifres" do dilema: Ou a dor é longa ou ela é curta. Se ela é longa, ela é grave. Se ela é curta, ela é leve. Além disso, as falas de Epicuro e de Thomas More somente são compatíveis se a dor for curta e leve.
Já no Livro 8, Capítulo 28 das Meditações, Marco Aurélio (2023, p. 150) diz o seguinte: "A dor é um mal tanto para o corpo – que a manifesta – quanto para a alma. Mas a alma pode preservar sua própria serenidade e calma, não avaliando a dor como um mal. Todo julgamento, impulso, desejo e rejeição está dentro da alma, onde nada de mal pode penetrar."
E no Livro 8, Capítulo 47 das Meditações, Marco Aurélio (2023, p. 157) afirma que "Se você se aflige por alguma causa externa, não é a coisa em si que o incomoda, mas seu próprio julgamento sobre ela – e você pode apagar isso imediatamente."
Na asserção 11 há uma referência ao "medo hamletiano da morte". Tradicionalmente este medo remete a um solilóquio de Hamlet no Ato 3, Cena I da obra homônima. Hamlet lamenta-se pelos sofrimentos que suportamos por desconhecermos o pós-morte e, consequentemente, as consequências que o alívio do sofrimento a todo custo poderiam ter no pós-morte:
Pois quem suportaria o escárnio e os golpes do mundo, as injustiças dos mais fortes, os maus-tratos dos tolos, a agonia do amor não retribuído, as leis amorosas, a implicância dos chefes e o desprezo da inépcia contra o mérito paciente, se estivesse em suas mãos obter sossego com um punhal? Que fardos levaria nesta vida cansada, a suar, gemendo, se não por temer algo após a morte – terra desconhecida de cujo âmbito jamais ninguém voltou – que nos inibe a vontade, fazendo que aceitemos os males conhecidos, sem buscarmos refúgio noutros males ignorados? (Shakespeare, 2017, p. 62)
Na asserção 14 Ivan Dmítritch menciona, sem nominar, "um estóico que se vendeu como escravo, a fim de resgatar um próximo." A relação entre Epicteto (50-138) e a escravidão é bem conhecida, mas ele nasceu escravo e, depois, foi liberto, e não o contrário. O filósofo Aldo Dinucci, em comunicação pessoal, sugere tratar-se de Paulino de Nola (354-431), que teria se oferecido em troca do filho único de uma viúva que fora escravizado pelos vândalos.
Na asserção 15, há menção a diversas atitudes de Jesus em reação ao sofrimento e à dor. Não há passagem bíblica em que se diz que Jesus sorriu, mas há passagens em que afirma-se ter ele chorado (João 11: 35), ter ele se enfurecido (Mateus 21:12-13), ter ele se angustiado (João 13:21-30) e ter ele pedido ao Pai para ser poupado do sofrimento da morte por crucificação (Mateus 26: 39).
Sobre o que vem a seguir
No próximo texto farei uma resenha descritiva diferente das habituais: construirei a rede dialética da argumentação contida na obra Liberdade de expressão: uma breve introdução, de Nigel Warburton.
Referências
Diôgenes Laêrtios. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres. Tradução, introdução e notas por Mário da Gama. 2ª ed., reimpressão. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2008.
Marco Aurélio. Meditações. Tradução por Vinícius Chichurra. Petrópolis: Vozes. 2023 [170-180 EC].
Marcus Antoninus. The Meditations of the Emperor Marcus Antoninus. Volume I. Edited with translation and commentary by A.S.L. Farquharson. Oxford: Clarendon, 1944.
Shakespeare, W. Hamlet, Príncipe da Dinamarca. Tradução por Carlos Alberto Nunes. São Paulo: Editora Peixoto Neto, 2017.
Smullyan, R. 5000 B.C. and other philosophical fantasies. New York: St. Martin's Press, 1983.
Tchekhov, A.P. Enfermaria no 6. Tradução e notas por Boris Schnaiderman. In: _____. As três irmãs: contos. São Paulo: Nova Cultural. 1995. p. 231-278, 284-286.
Informações do Artigo
Artigo: Frank Thomas Sautter, O sofrimento humano, segundo Tchekhov
Autor(es): Arquipélago
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Data: 14 Mai 2026
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