Igor Costa do Nascimento, Amizade e comunidade no perfeccionismo de Emerson e Cavell

Igor Costa do Nascimento, Amizade e comunidade no perfeccionismo de Emerson e Cavell
Foto: Igor Nascimento, arquivo pessoal

A partir da década de 1990, Stanley Cavell popularizou a ideia de perfeccionismo moral, também chamada de perfeccionismo emersoniano, dada a importância da obra de Ralph Waldo Emerson em sua formulação. Muitos autores criticaram o perfeccionismo, em grande parte por acharem que alguns de seus proponentes centrais – como Emerson, Henry David Thoreau, Friedrich Nietzsche e outros – teriam uma filosofia que não combina com os ideais democráticos de nosso tempo. Neste texto vou me contrapor à opinião de Jack Turner (2011), que concede haver um valor político democrático em Emerson, mas acha que isso só é possível se afastando de Cavell e da centralidade da ideia de eu. No que segue, introduzo brevemente o perfeccionismo de Cavell e Emerson, chamando atenção para como essa concepção não leva a um individualismo total: a perspectiva perfeccionista do eu depende de outros e pode ser frutífera para ideias democráticas. Todas as citações são de tradução minha, exceto as de Thoreau.

Uma marca do perfeccionismo, para Cavell, é a de não ser uma teoria moral que compete com outras – não seria, por exemplo, uma alternativa ao utilitarismo, ao kantismo ou a algum tipo de ética das virtudes. Antes, o perfeccionismo pretende capturar uma dimensão da vida moral. O que engloba tal dimensão? Uma definição deve ser evitada porque ela poderia restringir o aspecto de ser uma dimensão ou perspectiva da vida moral (ver Cavell, 1990, p. 4). Ainda assim, uma caracterização geral pode ser a de se preocupar com o desenvolvimento do “eu” de um indivíduo em uma comunidade: “Um apelo à mudança não se expressará como um imperativo específico quando o problemático na sua vida (neste momento) não for a dificuldade em encontrar o caminho certo entre as alternativas, mas sim que no curso da sua vida você perdeu seu caminho” (Cavell, 1990, p. xxx). Nesse sentido, a preocupação do perfeccionismo envolve que tipo de pessoas queremos ser, que tipo de vidas queremos guiar e quais compromissos estamos dispostos a fazer uns com os outros e com o mundo em geral (Cavell, 2004, p. 11).

Nesses termos, o perfeccionismo rejeita o que Cavell chama, genericamente, de cinismo moral. Não o cínico moral  do filósofo antigo que tenta deixar de lado as normas sociais e viver “como um cão”, mas o que se opõe à possibilidade de mudanças morais. Com isso, chegamos ao cerne do perfeccionismo: se a preocupação central dessa perspectiva são os momentos de crise pessoal, de tentarmos decidir quem somos entre nossos desejos e as demandas da realidade, então a ideia de que podemos ser diferentes é central. Podemos dividir essa ideia em duas: (i) reconhecer que mudamos ao longo de nossas vidas e (ii) que nem todo  tipo de mudança é valiosa, já que podemos piorar ou nos distanciar de nós mesmos, não cuidar de nosso “eu”. O cinismo moral não reconhece plenamente a capacidade humana de mudar e, com isso, abdica da busca de uma coerência maior entre nossas opiniões e ações, ou entre nossas vidas públicas e privadas (Cavell, 2004, p. 11). 

Como se dá a mudança? Precisamos, de alguma forma, sentir uma espécie de vergonha do eu presente. Aqui, Emerson é uma fonte importante. No texto “Autoconfiança”, ele diz que “Em toda obra de gênio reconhecemos nossos próprios pensamentos rejeitados: eles retornam a nós com uma certa majestade alienada” (Emerson, 1968, p. 89). Mas, como diz Emerson, pensamentos que já rejeitamos ou sequer elaboramos, podem nos aparecem de como reelaborações de nossos próprios pensamentos. Isso pode levar a uma sensação de vergonha de si, mas tal vergonha é essencial para a reorientação na qual foca o perfeccionismo. As palavras do gênio nos obrigam a pensar sobre nossas próprias vidas, a ver o pensamento também como uma espécie de diálogo crítico (Cavell, 2004, p. 24). 

A importância desses momentos de vergonha do eu nos processos de mudança leva Cavell a destacar a amizade no perfeccionismo. O amigo funciona como o gênio: encontramos ali um outro que pode nos confrontar com nossos pensamentos, às vezes guiando-os de volta para nós mais majestosos. Emerson é explícito quanto ao valor do amigo:

Reprovo a sociedade, abraço a solidão e, no entanto, não sou tão ingrato a ponto de não ver os que têm mentes sábias, amáveis e nobres quando de tempos em tempos passam diante de meu portão. Quem me ouve, quem me entende, torna-se meu – uma posse para todo tempo. [...]; e, como diversos pensamentos em sucessão se autossubstanciam, de um momento para o outro nos encontraremos em um novo mundo, de nossa própria criação, não mais estrangeiros e viajantes num globo tradicional. (Emerson, 1968, p. 162)

Não por acaso muitos autores dos quais Cavell extrai lições perfeccionistas insistem na amizade: Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Henry David Thoreau e Friedrich Nietzsche, sem contar o próprio Emerson. E vale reforçar: são autores radicalmente diferentes entre si. Ainda assim, em todos podemos ver essa aposta dupla de que a criatura humana tanto é formada pela mudança quanto que pode mudar para melhor. Nessa jornada, a amizade forma quem somos e o que queremos. Essa amizade nem sempre toma a forma de uma amizade entre pessoas que frequentam os mesmos espaços. Cavell sugere frequentemente que criamos uma relação análoga à de amizade com os livros que lemos e pode incluir o cinema. No caso de Cavell, as comédias e melodramas hollywodianas das décadas de 1930 e 1940 exerceram esse papel (ver Cavell, 1994, p. 131).

Mas como entender a frase de Emerson, “reprovo a sociedade, abraço a solidão [...]”? Ela parece sugerir aquilo que indiquei ser opinião de outros autores, a saber, que o perfeccionismo e sua ênfase na identidade pessoal não combinam com a política, e muito menos com uma perspectiva democrática. Uma forma dessa crítica é diretamente guiada contra Emerson por John Carlos Rowe, que coloca como contrários o ativismo político do filósofo e seus ensaios (Rowe, 1997, p. 21). Como conciliar uma rejeição da sociedade com uma vida dedicada a reformas sociais? Entretanto, aqui, podemos voltar para o ensaio “Autoconfiança”. Emerson diz que “A virtude em maior demanda é a conformidade. A autoconfiança é sua aversão” (Emerson, 1968, p. 91-92). Confiar em si, pensar por si mesmo, é a marca da autoconfiança. Adiante, Emerson relaciona autoconfiança com dissidência, nossa capacidade de romper com a sociedade. Mas é só tendo em mente o que é preestabelecido socialmente que somos capazes de nos afastar dessas ideias e avaliá-las criticamente. Só se é dissidente conhecendo a conformidade. Apenas quando se tem algum contato é que se pode averiguar se aceitamos a sociedade ou a rejeitamos, e em que medida. Recordando que a escravidão de indivíduos africanos e indígenas era uma norma ainda naquele período, não é surpreendente ver a dissidência como o valor político mais genuíno: um esforço crítico constantemente renovável de avaliar as práticas e teses que tomamos de barato numa sociedade. 

Apenas quando se é capaz de pensar por si próprio que um indivíduo pode perceber as contradições e injustiças de sua sociedade e transformá-la. Para Emerson, “a reforma social começa com o indivíduo, mas não termina ali” (Gougeon, 2011, p. 189). Pensar por si mesmo não significa pensar sozinho, outros podem ajudar. O termo “perfeccionismo” às vezes leva as pessoas a imaginarem um estágio final ou último a ser alcançado, uma espécie de eu perfeito no qual não se pode mais trabalhar. Entretanto, o paralelo melhor é com o perfeccionista que não consegue deixar de trabalhar em sua obra, sempre buscando algum desenvolvimento superior. Nesse sentido, o eu do perfeccionismo moral é “sempre e nunca nosso” (Cavell, 2004, p. 13). Ou, nos termos de Emerson, o nosso eu “inatingido, mas atingível” (Emerson, 1968, p. 71). Os outros nos ajudam a perceber que é atingível, que nós também podemos ser diferentes e cuidar melhor de nossa identidade.

Aqui, as razões pelas quais creio que Cavell não reduz o político de Emerson ao cultivo do eu podem já estar claras. A leitura perfeccionista explicita como ambas as esferas, a comunitária e a individual, precisam coexistir – tanto o eu de carne e osso que é nosso amigo, do nosso lado, quanto o eu em palavras que se manifesta nos livros que lemos. Claro, pode ser que às vezes seja necessário enfocar noutras formas de relação. Inimigos também são importantes para definirmos quem somos, para nos aprofundarmos em nossas preferências e aspirações. Mas isso também faz parte de uma sociedade democrática e plural, além de constituir o que podemos chamar de uma educação perfeccionista. 

Este é um bom momento para vermos a crítica de Turner. Esse autor reconhece que muitos leitores ignoram o aspecto político de Emerson, citando que Cavell tenta resolver a questão com o perfeccionismo, mas falha porque “reduz a importância política de Emerson ao cultivo do eu [self-cultivation]” (Turner, 2011, p. 125). Entretanto, novamente, Turner parece ignorar como o “eu” não existe de forma solipsista. Pelo contrário: é condição de possibilidade do perfeccionismo que o eu se contraste com os “eus” de outros indivíduos para criar sua própria sucessão de individualidades. Esse contraste pode ocorrer numa relação de educação, em que quero para mim as características desse outro eu que admiro, ou então numa espécie de embate, em que quero me distanciar de aspectos que acho viciosos de um indivíduo que contraria minhas convicções. Que mais poderia ser valioso numa democracia? Se insistirmos que tais relações não são estanques, que elas não estão predefinidas numa perspectiva essencialista, então qualquer indivíduo é capaz de mudar seu eu e a gama de relações que o constituem. Se perfeccionismo e democracia ambas exigem diálogo, por que não seriam compatíveis? Cuidar de si e tentar refinar o próprio pensamento é valioso para formas de governo que valorizam as opiniões de cada indivíduo.

Essa perspectiva também reflete, em geral, melhor as preocupações do próprio Cavell, cuja obra é mais conhecida por reinterpretar o ceticismo como um problema moral e existencial antes de um problema exclusivamente epistemológico ou metafísico. Diante da incerteza acerca das bases do nosso conhecimento, Cavell propõe uma atitude, em vez de ceder às tentações da dúvida, a de  buscar reconhecer as pessoas independente de nossa capacidade de conhecê-las (Cavell, 2004, p. 110). Assim, o projeto filosófico cavelliano não deve ser visto só como um cultivo do eu – embora, como mencionado acima, o eu deva receber cuidado, devemos trabalhar em direção ao nosso eu melhor –, e sim como uma preocupação que perpassa o indivíduo e sua comunidade. Para Cavell, a filosofia deve ser capaz de criticar sua história de priorizar teorizações intelectualizantes e se mover em direção aos indivíduos eles mesmos, abraçando toda a incerteza e possibilidade de falha nessas relações. Tal tarefa, vale reforçar, está no cerne da preocupação perfeccionista de sentirmos que ou nós mesmos devemos mudar ou o mundo deve mudar, tal como devemos ser o motor da mudança em ambos os casos.

Uma crítica mais frutífera para as leituras de Cavell veio de Eric Ritter, no texto “Emerson’s abolitionist perfectionism” [O abolicionismo perfeccionista de Emerson]. Ora, desde suas primeiras palestras em Harvard, que inclusive o fizeram ser banido do campus, Emerson exortou os jovens estudantes a se livrarem dos dogmas da sociedade – eles deveriam colocar de lado os mediadores, como as convenções da sociedade e tradições, e estarem dispostos a amarem e auxiliarem seus companheiros humanos em carne e osso (Popova, 2019, p. 124-125). Ritter reconhece isso em seu texto: sua crítica a Cavell é que os livros sobre perfeccionismo deixam de lado os textos abolicionistas de Emerson, num movimento que tanto falha em destacar a importância do autor no combate à escravidão quanto obscurece elementos políticos do perfeccionismo (Ritter, 2021, p. 1-2). Tais textos carregam a mesma marca dos Ensaios em buscarem, no desenrolar do texto, a sua própria voz, simultaneamente rompendo com o que a sociedade toma como dado e tentando criar novos vínculos com os ouvintes (p. 13).

Para encerrar essa breve introdução ao assunto, podemos acenar para a obra do amigo pessoal de Emerson, Henry David Thoreau. Seu mais famoso livro, Walden, é conhecido por relatar o experimento de seu autor, isolado na floresta, à beira do lago que dá nome à obra, vivendo do seu próprio trabalho. Entretanto, em uma parte igualmente importante do texto, ele medita também sobre o retorno do autor para sua comunidade. O experimento só é completo ao ser, também, finalizado e em certo sentido superado. Assim como seu amigo Emerson, Thoreau tem uma concepção da identidade humana como estando em constante transformação:

Deixei a mata por uma razão tão boa quanto a que me levou para lá. Talvez me parecesse que eu tinha várias outras vidas a viver, e não podia dedicar mais tempo àquela. É notável a facilidade e a insensibilidade com que caímos numa determinada rotina, e construímos uma trilha batida para nós mesmos. Eu vivia lá não fazia uma semana, e meus pés já tinham calcado um caminho de minha porta até o lago [...]. Receio, é bem verdade, que outros possam ter caminhado por ali, e assim ajudaram a mantê-lo aberto. A superfície da terra é macia e se deixa imprimir pelos pés dos homens; o mesmo ocorre com os caminhos por onde viaja a mente. (Thoreau, 2022, p. 305)

Podemos destacar não só a ideia de que vivemos muitas vidas em nossa vida, nas transformações da nossa personalidade moral, mas também a marca do outro. Assim como outros podem já marcar o terreno pelo qual o autor andou, também nós deixamos marcas para outros que caminharão depois. Decidir o que fazer entre herança e originalidade é nossa tarefa de pensamento. Walden é escrito para nos ajudar nisso. De novo nos termos do autor, seu reconhecimento do desespero dos demais não é uma ode à melancolia, mas um canto “para despertar meus vizinhos” (Walden, 2022, p. 90). Esse canto não pode ser ouvido no meio da mata, mas demanda um retorno do filósofo à sua comunidade. 

REFERÊNCIAS

CAVELL, Stanley. Conditions handsome and unhandsome: the constitution of Emersonian perfectionism. Chicago: University of Chicago Press, 1990. [Internet Archive], [Amzn]

CAVELL, Stanley. A pitch of philosophy: autobiographical exercises. Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1994. [Internet Archive], [Amzn]

CAVELL, Stanley. Cities of words: pedagogical letters on a register of the moral life. Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 2004. [Internet Archive], [Amzn]

EMERSON, Ralph Waldo. Essays and journals. Ed. by Lewis Mumford. Atlanta: Communication and Studies, 1968. [Internet Archive], [Amzn]

GOUGEON, Len. Emerson, Self-Reliance, and the Politics of Democracy. Em: LEVINE, Adam M.; MALACHUK, Daniel S. A political companion to Ralph Waldo Emerson. Kentucky: The University Press of Kentucky, 2011, pp. 185-220. [Amzn]

POPOVA, Maria. Figuring. New York: Pantheon Books, 2019. [Amzn]

RITTER, Eric. “Emerson’s abolitionist perfectionism”, Philosophy and Social Criticism, vol. 8, n. 6, p. 1-22, 2021. [Internet Archive], [Amzn]

ROWE, John Carlos. At Emerson’s tomb: the politics of classic American literature. New York: Columbia University Press, 1997. [Internet Archive], [Amzn]

THOREAU, Henry David. Walden. Trad. por Denise Bottmann. Porto Alegre: L&PM, 2022. [Original em inglês: Internet Archive], [Amzn]

TURNER, Jack. “Self-reliance and complicity: Emerson’s ethics of citizenship”. Em: LEVINE, Adam M.; MALACHUK, Daniel S. A political companion to Ralph Waldo Emerson. Kentucky: University Press of Kentucky, 2011, pp. 125-152. [Amzn]


Igor Costa do Nascimento é doutorando em Filosofia na UFRGS.


Arquipélago Filosófico, Vol. 2, No. 20 (2026), e-020
ISSN 3086-1136

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