John McTaggart, A relação entre o tempo e a eternidade
Arquipélago
Agradecemos à Editora Logos por gentilmente permitir a publicação de “A relação entre o tempo e a eternidade” (1907), de John McTaggart Ellis McTaggart, traduzida por Mikael Abrão Bombassaro (UFRGS). O texto foi originalmente apresentado em uma palestra na Philosophical Union da Universidade da Califórnia em Berkeley, Estados Unidos. Convém acompanhar sua leitura com a de “A irrealidade do tempo” (1908), já publicada neste site. A tradução aqui reproduzida compõe a antologia de artigos de McTaggart intitulada Estudos filosóficos, organizada por S. V. Keeling em 1934, cuja tradução integral será em breve lançada no Brasil pela editora Logos.
A relação entre o tempo e a eternidade
John McTaggart
1. A verdadeira natureza do Tempo, e especialmente a questão de até que ponto ele é absolutamente real, tem sido muito discutida em filosofia. Mas penso que não há ambiguidade ao falar em Tempo. Todos entendem a mesma característica da experiência por Tempo – uma característica presente na experiência de cada um de nós.
2. Eternidade é uma palavra mais ambígua. Ela é usada em pelo menos três sentidos distintos: para denotar um tempo que não acaba, para denotar a atemporalidade de verdades, e para denotar a atemporalidade de existências.
Não precisamos nos deter longamente no primeiro sentido. É admitido que seja um uso impróprio da palavra, sendo importante apenas por conta de sua frequência. A grande maioria das pessoas que diz acreditar que viverá eternamente, por exemplo, não quer dizer que acredita em uma vida atemporal, mas sim em uma vida no tempo que nunca terminará. Essa não é a única ideia na concepção popular de imortalidade, nem a melhor, mas é a mais comum. Nesse sentido, a relação da Eternidade com o Tempo é certamente muito simples. O Tempo – o Tempo finito – é simplesmente uma parte da eternidade.
Passemos aos significados mais profundos de Eternidade. Mas primeiro gostaria de dizer que, embora possa ser uma visão superficial da Eternidade não ver nela nada além de um Tempo sem fim, não posso considerar a questão da existência sem fim no tempo com o desprezo com que ela é por vezes tratada. Se fosse provado, por exemplo, que a verdadeira natureza do homem era atemporalmente eterna, ainda assim não vejo que a questão da sua futura existência no tempo seria sem sentido ou desimportante. Teria, sob qualquer teoria, tanto sentido quanto a afirmação de sua existência presente no tempo – a qual pode ser parcialmente inadequada, mas certamente tem algum sentido. E ela pode muito bem ter grande importância. Isso, no entanto, é uma digressão.
3. O segundo sentido em que Eternidade é usado é para denotar aquela atemporalidade que se diz ser possuída por todas as leis gerais e, de fato, por todas as verdades, tanto particulares quanto gerais. “Os ângulos de um triângulo são iguais a dois ângulos retos”. “O clarão de um canhão distante é visto antes que o seu estrondo seja ouvido”. “A data da Batalha de Waterloo é o 18 de junho de 1815”. Dessas verdades, as duas últimas têm referência ao tempo, e a terceira não é uma lei geral, mas um fato particular. Diz-se, ainda assim, que todas as três verdades são atemporais. O conhecimento que qualquer homem tenha delas, de fato, é um evento no tempo. Ele começa em um certo momento, e tem uma certa duração. E pode muito bem ter havido tempos em que nenhuma dessas verdades era conhecida por qualquer pessoa. Mas a verdade, diz-se, deve ser distinguida tanto do nosso conhecimento dela, que está no tempo, quanto do objeto referido, que pode estar no tempo. E a verdade, diz-se, é sempre atemporal[1].
Há muito a ser dito em favor dessa visão; mas também, penso eu, algo a ser dito contra ela. Não pretendo discutir isso aqui. Isso nos levaria muito longe, e não é essencial ao nosso propósito. Pois, se definirmos Eternidade dessa maneira, a relação da Eternidade com o Tempo é muito simples. É simplesmente a relação de uma verdade com o objeto da verdade. Sobre cada substância existindo no tempo, e sobre cada evento no tempo, por mais leve ou efêmero que seja, muitas proposições – de fato, um número infinito de proposições – serão verdadeiras. E já que, nessa visão, nada do que existe será eterno, mas apenas as verdades sobre o que existe, a relação entre Eternidade e Tempo será simplesmente um caso da relação entre uma verdade e a realidade da qual ela é verdadeira. O que é essa relação constitui, de fato, uma questão altamente interessante. Mas as naturezas especiais da Eternidade e do Tempo não entrarão nela.
Tampouco o estabelecimento de uma Eternidade, nesse sentido, nos dá qualquer visão nova da natureza da realidade, ou nos oferece um vislumbre de qualquer permanência ou estabilidade no universo maior do que aparece em uma visão prima facie da experiência. Nessa visão, tudo, sem dúvida, tem uma certa conexão com a Eternidade. Mas tudo tem exatamente a mesma conexão, e isso sem qualquer transformação de sua natureza, mas tomando-a exatamente como aparece. Podemos olhar para nós mesmos sub quadam specie aeternitatis, pois cada um de nós existe, e a verdade de sua existência é eterna. Mas então – por uma hora ou duas – um jogo de bridge existe e pode ser olhado sub quadam specie aeternitatis tão facilmente quanto um ser humano. E o mesmo vale para as bolhas em um copo de água gaseificada – não me refiro à substância da água, mas à forma que ela assume por um momento.
E até eventos têm a mesma atemporalidade. Se eu espirrei no último Natal, a verdade que expressa esse evento, nesse sentido de Eternidade, é tão eterna quanto a verdade do amor, ou da existência do homem, ou da existência de Deus, se ele existir. Nenhuma pessoa e nenhuma coisa é eterna sob esta visão. Mas sobre tudo, permanente, efêmero, alto e baixo, há um sem-número de verdades eternas. A conclusão pode estar correta, mas não pode ser dita muito interessante ou significativa.
A contemplação de verdades eternas, de fato, pode ser interessante e significativa no mais alto grau, embora possa ser duvidado se é – como Espinosa parece ter sustentado – a atividade mais elevada de que o espírito é capaz. Mas então a contemplação de verdades eternas não é por si uma verdade. É uma atividade. E não pode, portanto, ser eterna no sentido que discutimos até agora.
Passamos ao terceiro sentido de Eternidade, que nos ocupará pelo restante do artigo, no qual o termo é usado para a temporalidade de existências. Penso eu que, como o Tempo, a existência é algo fundamental demais para admitir definição. Mas não difícil determinar a denotação da palavra. Na medida em que substâncias, ou as qualidades e relações de substâncias, são minimamente reais, elas existem. Na medida em que eventos são reais, eles existem. Por outro lado, se verdades, e as ideias que são partes constituintes de verdades, têm alguma realidade independente, não é uma realidade de existência – embora, é claro, nossas percepções de tais verdades existam, posto que são eventos psíquicos. Assim, o Imperador da China existe. Seu caráter moral e as influências recíprocas entre ele e seus súditos existem. O mesmo vale para os eventos do seu cotidiano. Por outro lado, a Lei do Terceiro Excluído, a Lei da Gravitação, e outras proposições verdadeiras não existem, embora o meu conhecimento da Lei do Terceiro Excluído exista como um evento na minha mente.
Tudo o que é temporal existe. Isso parece ser geralmente admitido, pois aqueles pensadores que sustentam que verdades e ideias têm uma realidade que não é existência, admitem que tal realidade seria atemporal. Tudo o que é temporal, então, e que é de algum modo real, existe. Mas seria o inverso verdadeiro? É toda existência temporal?
Toda existência que se apresenta como parte do nosso mundo comum de experiência se apresenta como temporal. Mas pode haver alguma realidade que não se apresente a nós no curso comum das coisas, embora a investigação possa revelar sua presença. E, novamente, uma coisa pode se apresentar de modo mais ou menos enganoso. E frequentemente se sustenta que temos razão em acreditar que alguma realidade que existe, existe atemporalmente – não meramente no sentido de que sua existência perdura através de um tempo sem fim, mas no sentido mais profundo de que ela não está de forma alguma no tempo.
5. A possibilidade da existência atemporal tem sido negada. Lotze, por exemplo, faz do tempo uma característica essencial da existência – sua terminologia é diferente, mas chega a isso. Mas a opinião geral dos pensadores tem seguido outro caminho. Pois a maioria dos homens tem acreditado na existência de um Deus, e a maioria daqueles que não têm acreditado em um Deus tem acreditado na existência de algum Absoluto impessoal. E Deus ou o Absoluto foram geralmente concebidos como atemporais. Isso não foi universal. Lotze considera Deus como existindo no tempo[2]. E entre os escritores teológicos houve, sem dúvida, alguns que, quando chamavam Deus de eterno, apenas queriam dizer que ele existia através de um tempo sem fim, ou que sua natureza não mudava. Mas, via de regra, a filosofia e a teologia têm sustentado que Deus existe atemporalmente.
Parece-me que essa opinião – de que a existência atemporal é possível – está correta. Existir e estar no tempo me parecem duas características, uma bastante distinta da outra. E, embora pareça claro que nada poderia estar no tempo sem existir, não consigo ver qualquer impossibilidade correspondente em algo existir sem estar no tempo. Se for assim, a existência atemporal é possível. Se isso é atual – se temos razão em acreditar que qualquer coisa exista fora do tempo – é uma questão que não discutirei neste artigo. Meu objetivo aqui é apenas discutir a relação da existência no Tempo com a existência na Eternidade, caso exista qualquer existência eterna dessa espécie.
6. Nós, que nos esforçamos para estimar a relação, parecemos a nós mesmos existir no tempo, quer realmente existamos assim ou não. Não é estranho, portanto, que os homens tenham se esforçado para expressar sua relação com o Eterno por termos emprestados do Tempo, e dizer que o Eterno é presente, passado ou futuro. Consideraremos qual desses termos é a metáfora mais apropriada, e se algum deles é mais do que metáfora.
Em primeiro lugar, podemos considerar que a existência no Tempo e a existência na Eternidade são igualmente reais. Então, visto que a mesma coisa claramente não pode existir tanto no Tempo quanto atemporalmente – se ambos os predicados forem tomados no mesmo sentido e como sendo igualmente reais – a única possibilidade seria que algum ser existente estivesse no tempo, e algum ser existente estivesse fora dele. (Isso é exemplificado na visão teológica muito comum de que Deus existe atemporalmente, mas tudo o mais existe no tempo.) Qual seria a relação, em um caso como esse, entre o temporal e o eterno?
O eterno, sob essas circunstâncias, é algumas vezes mencionado como um “presente eterno”. Como veremos, enquanto metáfora isso é apropriado, mas não pode, penso eu, ser tomado como mais do que uma metáfora. “Presente” não é como “existência”, um predicado que pode ser aplicado no mesmo sentido ao temporal e ao atemporal. Pelo contrário, seu significado parece incluir uma referência distinta ao tempo, e uma referência distinta ao passado e ao futuro. O Presente foi futuro e será passado. Não digo que essa seja uma definição adequada do presente, mas de fato parece ser uma característica essencial do presente. Se for assim, o atemporal não pode ser presente. O eterno, o atemporal, deve ser distinguido do que existe inalterado no tempo. As Pirâmides existem no tempo, mas existiram ao longo de milhares de anos, através de todos os quais elas foram presentes. E supondo que os seres humanos estivessem realmente no tempo, mas também fossem imortais, poderíamos dizer de cada homem, após ter nascido, que ele seria infindamente presente, visto que em cada momento do tempo futuro ele existiria. Mas a persistência ao longo do tempo, como vimos, é uma coisa bastante diferente da existência atemporal.
7. Existe uma razão que, penso eu, levou a considerar o eterno como um presente eterno, que repousa sobre uma confusão. De qualquer coisa que existe no tempo, o meu juízo “é verdadeiro que X existe agora” é verdadeiro quando X está no presente, e não quando X está no futuro ou no passado. Agora, supondo que Z exista eternamente, o meu juízo “é agora verdadeiro que Z existe” será sempre verdadeiro. É por isso, creio eu, que algumas vezes é suposto que Z é sempre presente. Mas isso é uma confusão. Pois “é agora verdadeiro que Z existe”, onde o “agora” se refere à verdade do juízo de que Z existe, não é de modo algum o mesmo que “é verdade que Z existe agora”, onde o “agora” se refere à existência de Z. Um juízo é um evento psíquico em minha mente, e está no tempo mesmo que eu esteja julgando sobre o atemporal, de modo que “agora” seja uma palavra apropriada para usar sobre ele. Mas “agora” não pode ser usado em relação à existência do atemporal em si mesmo.
8. Como metáfora, porém, há uma adequação considerável em chamar o eterno de presente. Em primeiro lugar, o futuro e o passado estão sempre mudando suas posições em relação a nós. O futuro está sempre se aproximando, embora permanecendo futuro. O passado está sempre se distanciando, embora permanecendo passado. O presente, entretanto, enquanto permanece presente, não muda dessa maneira. Ele está continuamente nascendo daquilo que era futuro. Ele está continuamente se transformando em passado. Mas, como presente, ele não muda em sua relação conosco.
Isso oferece uma certa analogia com o atemporal que, é claro, não é capaz de mudança. O atemporal não muda, e, portanto, nada no atemporal pode trazê-lo para mais perto ou mais longe de nós. E a constância que isso envolve tem uma analogia com a constância do presente enquanto permanece presente.
9. Em segundo lugar, o presente é sempre tomado como tendo mais realidade do que o passado ou o futuro[3]. Tanto é assim que não sentimos inadequação em dizer que algo que não existe no presente é algo que não existe. Não consideraríamos a expressão incomum se disséssemos que o Sacro Império Romano não existe, que é a mesma expressão que usaríamos para a Utopia de More. E ainda assim não pretendemos negar a existência passada do Sacro Império Romano mais do que pretendemos negar a existência presente do Reino Unido. Ora, o eterno não aparece com a realidade diminuída do passado e do futuro. Ele tem toda a realidade que sua natureza admite. E o eterno é geralmente considerado como mais real do que o temporal, pois, quando se sustenta que alguma realidade é eterna e alguma temporal, é Deus ou o Absoluto que é considerado eterno, e o criado ou finito que é considerado temporal. Assim, o eterno se assemelhará mais à realidade do presente do que à realidade do passado ou futuro, e por isso será uma metáfora apropriada considerá-lo como presente. Esse é especialmente o caso quando consideramos nossas emoções em relação ao eterno – um ponto de grande importância, já que o eterno seria, nesse caso, como acabamos de dizer, Deus ou o Absoluto. É claro que as emoções de um homem que amasse um Deus eterno estariam muito mais próximas das de quem amasse um ser existente no presente do que das de quem amasse um ser que já cessou de existir, ou que ainda não veio à existência.
10. Em terceiro lugar, deve ser lembrado que é apenas o presente, e não o passado ou o futuro, que consideramos como capaz de exercer influência causal imediata. O futuro não é concebido como sendo, de modo algum, uma causa – já que a causalidade sempre se dirige ao que vem depois, e nunca retrocede ao que é anterior. O passado é certamente considerado como agindo como uma causa, mas não imediatamente. O passado produziu o presente e, assim, é a causa remota do que agora o presente se ocupa em produzir. Mas não é a causa imediata do que está sendo produzido agora. Essa, penso eu, é a maneira inevitável de olhar para a causalidade em conexão com o tempo. Se isso leva a contradições – e não digo que não leve – são contradições que brotam da natureza do tempo. Elas podem afetar nosso juízo sobre se o tempo é em última instância real, mas não podemos nos livrar delas enquanto olharmos para as coisas no tempo.
Ora, o eterno pode ser visto como uma causa. Não desejo investigar se é correta a visão, algumas vezes defendida, de que o eterno pode ser a causa única de qualquer coisa. Mas não há dúvida de que, se alguma coisa eterna existe, ela pode ser parte da causa de um efeito, de modo que o resultado seria distinto do que teria sido caso esse ser eterno não existisse. E a causação desse ser eterno deve ser considerada como imediata, da mesma forma que a causação de um ser presente no tempo. Por essa razão, também, o presente é uma metáfora apropriada para o eterno. Mas não pode ser mais do que uma metáfora. A presentidade envolve tempo, e não pode ser predicada do atemporal.
11. Devemos agora considerar outra teoria sobre o tema da existência temporal. Essa sustenta que toda existência é, na realidade, atemporal, e que a aparência prima facie do Tempo que nossa experiência apresenta é, na verdade, somente uma aparência que disfarça a natureza da realidade atemporal. Nesse caso, não dividiremos, como no caso anterior, toda a existência em dois fatos, um eterno e um temporal. Toda existência será eterna. E por mais que isso exclua a possibilidade de qualquer parte dela ser realmente temporal, deixará aberta a possibilidade de que parte dela, ou mesmo toda ela, possa nos aparecer como temporal.
A teoria da irrealidade do Tempo é sem dúvida muito difícil de compreender plenamente. E sem dúvida apresenta muitíssimas dificuldades. Não intenciono, neste artigo, defendê-la, ou mesmo desenvolvê-la longamente, mas apenas considerar, como antes, qual seria a relação do Tempo com a Eternidade caso a teoria fosse verdadeira. Não se pode duvidar que vale a pena considerar as consequências dessa teoria. Pois ela é uma teoria amplamente sustentada por filósofos[4]. Na filosofia de Espinosa, a natureza exata da Eternidade, e sua relação com o tempo, é um problema muito difícil, especialmente porque não é improvável que o próprio Espinosa não tenha distinguido com clareza suficiente a atemporalidade das verdades e a atemporalidade da existência. Mas a doutrina de que toda a realidade é atemporal foi inquestionavelmente sustentada por Kant – ainda que, talvez, ele não tivesse usado essa expressão. Ela foi sustentada por Schopenhauer. Ela foi a doutrina fundamental da filosofia de Hegel, e a esse respeito os hegelianos seguiram seu mestre mais de perto do que foi o caso com outras doutrinas. E, nos dias de hoje, ela é sustentada pelo maior dos filósofos vivos, o Sr. Bradley. Se passarmos dos filósofos para os teólogos, encontraremos a mesma doutrina. A visão de que toda a realidade é atemporal não é tão geral entre os teólogos, é claro, quanto a visão de alguma realidade é atemporal. Mas a teologia nunca permaneceu, em nenhum país e em nenhuma época, por muito tempo intocada pelo misticismo. E a irrealidade do tempo, ainda que não seja sustentada por todos os místicos, é um dos mais característicos preceitos místicos.
Mais uma vez, no Extremo Oriente, onde a filosofia e a teologia não admitem nem mesmo aquela distinção parcial que é possível no Ocidente, descobrimos que a doutrina da irrealidade do tempo assume importância cardinal.
Uma teoria que atraiu tanto apoio, e que continua a atrair muito apoio nos dias atuais, certa ou errada, deve ter muito a ser dito em seu favor. Mestres tão grandes, e tão diferentes, não adotam tal doutrina sem razões graves. De minha parte, estou convencido de que, apesar das grandíssimas dificuldades que pertencem à teoria, ela deve ser aceita como verdadeira. Mas, no momento, estou meramente interessado em apontar que, seja a teoria verdadeira ou falsa, não é perda de tempo considerar quaisquer consequências que se seguiriam ao aceitá-la.
12. Qual é a descrição precisa que devemos dar ao Tempo nessa teoria? Não podemos chamá-lo de um erro, pois perceber as coisas no tempo não envolve necessariamente um juízo errôneo. Se uma pessoa que percebe as coisas como estando no tempo acredita que elas realmente estão no tempo, é claro que isso seria um juízo errôneo. Mas, se a teoria for verdadeira, uma pessoa que acreditasse na teoria não estaria fazendo nenhum juízo errôneo sobre o assunto. O seu juízo seria “eu percebo as coisas como estando no tempo, e não posso percebê-las de outro modo, mas elas não estão realmente no tempo, posto que são atemporais”. Nesse juízo não haveria erro. E assim a percepção das coisas no tempo não deve ser chamada de um erro. Ela esconde, mais ou menos, a verdadeira natureza das coisas, mas não envolve a realização de qualquer juízo falso sobre sua natureza.
E já que a percepção das coisas no tempo não necessariamente envolve um erro, segue-se que, quando o erro existe e é removido, isso não altera a percepção das coisas como estando no tempo. Se eu começo sustentando a visão – que pode estar errada, mas que é certamente a visão mais óbvia – de que as coisas estão realmente no tempo, e sou então convencido por argumentos filosóficos de que elas são realmente atemporais, eu irei, não obstante, continuar a perceber as coisas no tempo.
Assim, devemos conceber que a nossa percepção das coisas no tempo seja uma ilusão, e do mesmo caráter daquelas que nos fazem ver o sol do ocaso como maior que o do meio-dia, e que nos fazem ver um graveto reto como estando torto quando entra na água. Eu não suponho, depois da infância, que o graveto seja realmente torto. Mas, por mais claramente que eu possa me convencer de que o graveto não mudou sua forma desde que foi colocado na água, seja pelo raciocínio ou pelo sentido do tato, continuarei a receber dele sensações visuais semelhantes àquelas que me seriam dadas por um graveto torto no ar. É desse tipo a ilusão do tempo – embora seja muito mais geral e muito mais difícil de compreender. Ela esconde parte da verdade, sugere um juízo errado – pois a conclusão óbvia de nossa experiência, como disse há pouco, é sustentar que as coisas estão realmente no tempo. Mas ela não necessariamente envolve um juízo errado, e não é removida por um juízo correto.
13. Que relação, então, o Tempo guarda com a Eternidade em uma teoria como essa? A resposta irá variar, penso eu. A teoria nos diz que, quando vemos a existência sob a forma do tempo, vemos a existência mais ou menos como ela realmente não é. Ao mesmo tempo, a aparência não é mera ilusão. Percebemos, apesar dessa forma ilusória do tempo, algo da natureza real da realidade atemporal. Assim, se olharmos através de uma janela de vidro vermelho, veremos corretamente os objetos lá fora no que tange à sua forma, tamanho e movimento, embora não corretamente no que tange à sua cor. A questão, é claro, é muito mais complicada aqui. Não podemos dar a volta para o outro lado do tempo, como podemos para o outro lado do vidro, e assim descobrir por observação direta qual parte de nossa experiência anterior era devida à forma do tempo. E alcançar e justificar uma ideia do que possa ser a verdadeira natureza atemporal da existência é uma tarefa muito árdua, embora eu pense que não seja impossível. Devemos nos contentar, aqui, com o resultado geral de que, onde a existência nos aparece sob a forma do tempo, nós a vemos em parte, mas não inteiramente, como ela realmente é.
Assim, a maneira pela qual, em qualquer momento do tempo, consideramos a existência é mais ou menos inadequada. E me parece que a relação do Tempo com a Eternidade depende da inadequação relativa da nossa visão da realidade em diferentes momentos do tempo.
A questão decisiva – esta é a teoria que desejo colocar diante de vocês – é se existe qualquer lei segundo a qual estados no tempo, conforme passamos de estados anteriores para estados posteriores, tendem a se tornar representações mais adequadas ou menos adequadas da realidade atemporal.
14. Consideremos primeiro o que aconteceria se não houvesse essa lei. Nesse caso, o futuro não teria, apenas por ser futuro, uma tendência maior ou menor de se assemelhar à realidade atemporal do que o presente. Poderia haver oscilações, mesmo assim, na adequação com que o tempo representava a Eternidade. Em um momento, minha visão do universo poderia distorcer a verdade mais ou menos do que a minha visão do momento anterior a havia distorcido. Mas tais oscilações são como as ondas do mar. Em um momento particular, a superfície em um ponto particular pode estar mais alta do que no momento anterior. Mas isso não nos dá a menor razão para concluir que, uma hora depois, ela também estará mais alta do que estava no momento passado, ou que a altura média está subindo.
Se a adequação das representações temporais estiver nessa condição, a relação do Tempo com a Eternidade, penso eu, será exprimível da mesma maneira em que a expressamos quando o Tempo e a Eternidade foram tomados como igualmente reais. Isto é, a metáfora mais apropriada para a relação é considerar a Eternidade como um presente, mas isso não passa de uma metáfora.
A metáfora é apropriada pelas mesmas razões de antes. Em primeiro lugar, a relação da Eternidade com o tempo é constante. Em alguns momentos do tempo, como eu disse, podemos obter uma representação menos adequada da Eternidade do que em outros momentos do tempo, mas, se tomarmos o tempo como um todo, ele nem se aproxima da Eternidade e nem dela diverge. E pelas razões explicadas acima, há uma certa adequação em tomar a presentidade como uma metáfora para essa relação imutável.
Em segundo lugar, a metáfora é apropriada aqui, como antes, para expressar a realidade do eterno. O eterno não possui aquela realidade diminuída que atribuímos ao passado e ao futuro. De fato, sua realidade é relativamente maior aqui do que na outra teoria. Naquela teoria, o Eterno era geralmente o mais real, pois geralmente incluía Deus ou o Absoluto. Mas aqui é um resultado inevitável da teoria de que o Eterno é não apenas o mais real, mas a única realidade verdadeira. É mais importante do que antes, portanto, expressá-lo por uma metáfora extraída da maior realidade no tempo.
Em terceiro lugar, o Eterno deve certamente, nessa teoria, ser considerado como exercendo influência causal imediata, ou, melhor dizendo, como tendo uma qualidade de que a influência causal é uma representação imperfeita. Pois tudo depende da natureza do eterno, que é a única realidade verdadeira.
Ao mesmo tempo, dizer que o eterno é eternamente presente permanece sendo apenas uma metáfora. Não é uma descrição literalmente correta. Pois o presente, como vimos, é essencialmente uma determinação temporal, e o eterno não está no Tempo.
15. Até agora, penso eu, não disse muito que seja controverso, e certamente nada que eu alegaria ser original. Mas tenho agora uma tese a propor que, original ou não, é certamente controversa. Sustento que, embora para nós, que julgamos do meio da série temporal, a presentidade do eterno nunca possa ser mais do que uma metáfora, ainda assim, sob certas condições, a asserção de que o eterno foi passado ou futuro poderia ser mais do que uma metáfora. Essa afirmação parecerá, sem dúvida, altamente paradoxal. O eterno é o atemporal, e como o atemporal pode ter uma posição na série temporal? Ainda assim, acredito essa posição pode ser defendida, e tentarei agora esboçar minha defesa dela.
16. Até agora, consideramos o que aconteceria se não houvesse uma lei segundo a qual os estados no tempo, conforme passamos de estados anteriores para posteriores, tendessem a se tornar representações mais ou menos adequadas da realidade atemporal. Mas o que aconteceria se houvesse tal lei?
Eventos no tempo ocorrem em uma ordem – uma ordem fixa e irreversível. O clarão de um canhão distante é percebido antes do estrondo. O estrondo não é percebido antes do clarão. A Batalha de Waterloo foi travada antes que a Lei de Reforma fosse aprovada. A Lei de Reforma não foi aprovada antes que a Batalha de Waterloo fosse travada. Ora, o que determina essa ordem?
A mera forma do tempo não o faz. Se as coisas acontecem no tempo, elas devem acontecer em uma ordem, e em uma ordem fixa e irreversível. A natureza do tempo exige isso. Mas ela não nos ajuda quanto a qual será essa ordem. Se a Batalha de Waterloo e a aprovação da Lei de Reforma tivessem de ocorrer no tempo, a natureza do tempo exigiria ou que fossem simultâneas, ou que a Batalha de Waterloo precedesse a Lei de Reforma, ou que a Lei de Reforma precedesse a Batalha de Waterloo. Mas ela não nos ajuda a determinar qual dessas três alternativas será tomada.
O que determina a ordem de eventos no tempo, sob a suposição, que discutimos agora, de que o Tempo é somente um modo ilusório de considerar uma realidade atemporal? Acredito que há boas razões para sustentar que a ordem é determinada pela adequação com que os estados representam a realidade eterna, de modo que os estados que vêm em seguida são aqueles que variam apenas infinitesimalmente no grau de sua adequação, e que toda a série temporal mostra um processo constante de mudança de adequação — não digo ainda em qual direção.
Penso que algo pode ser dito em favor de provar essa afirmação, mas seria preciso muito mais do que uma única palestra, e sequer pretendo esboçar isso agora. Mas isso não é necessário para o nosso propósito atual, que é apenas considerar qual seria a relação do Tempo com a Eternidade sob diversas circunstâncias. Prossigamos agora em considerar qual seria essa relação sob essas circunstâncias.
17. Suponhamos, então, que os estados da série temporal fossem tais que cada estado fosse uma expressão mais adequada da realidade do que o estado que o precede, e uma representação menos adequada da realidade do que o estado que o sucede, de modo que formassem uma série contínua no que diz respeito à adequação de sua representação. E suponhamos que a mais adequada dessas representações – que estará, é claro, em uma das extremidades da série – se diferencie da realidade que representa apenas por uma quantidade infinitesimal. Qual a relação, aqui, entre o Tempo e a Eternidade?
Isso dependerá da direção na série em que se encontra a maior adequação. Pode ser, em primeiro lugar, que os estágios posteriores da série temporal sejam mais adequados do que os estágios iniciais. Nesse caso, o estágio presente será mais adequado do que qualquer um do passado, e menos adequado do que qualquer um do futuro.
Podemos ir além disso. Se o tempo é irreal, como supusemos, então a ilusão de que o tempo existe não pode estar no tempo mais do que qualquer outra coisa poderia estar. A série temporal, embora seja uma série que nos dá a ilusão do Tempo, não está ela mesma no tempo. E a série, portanto, é na verdade apenas uma série de representações, algumas mais adequadas e outras menos adequadas, organizadas na ordem de sua adequação. Esse – a série da adequação – é o único elemento serial que permanece como real, se o tempo deve ser condenado como irreal.
Quando, portanto, dizemos que um certo estágio na série temporal ainda está no futuro, a verdade real, se a teoria que estamos considerando está correta, é que o estágio em questão é uma representação menos inadequada da realidade atemporal da existência do que o nosso estágio presente.
Ora, a própria realidade atemporal contém toda a sua natureza. E, portanto, ela estará para a menos inadequada das representações de si mesma assim como esta está para a próxima menos inadequada, e assim por diante. Já que, por nossa hipótese, as representações da realidade na série temporal se aproximam da realidade até que a inadequação finalmente se torne infinitesimal, o último membro da série de representações temporais diferirá apenas infinitesimalmente da própria realidade. E, como o tempo é contínuo[5], o estágio que o precede diferirá do último da mesma forma – por ser infinitesimalmente menos adequado.
Assim, a realidade atemporal – o Eterno – pode ser considerada, por si mesma, como o último estágio de uma série da qual os outros estágios são aqueles que percebemos como a série temporal – sendo os estágios mais próximos da realidade atemporal aqueles que percebemos como os estágios posteriores no tempo. Quando, portanto, olhamos para as coisas como estando no tempo — como devemos olhar para elas —, devemos conceber o Eterno como o estágio final do processo temporal. Devemos concebê-lo como estando no futuro, e como sendo o fim do futuro. O Tempo corre em direção à Eternidade, e cessa na Eternidade.
18. Essa conclusão sem dúvida será rejeitada por muitas pessoas, sem exame aprofundado, como grosseiramente absurda. Como o atemporal pode ter uma posição no final de uma série temporal? Como a Eternidade pode começar quando o Tempo cessa? Como a Eternidade pode sequer começar?
A resposta a essas objeções, penso eu, é a seguinte: É que, sob essas visões, a Eternidade não é realmente futura, e não começa realmente. Pois o Tempo é irreal e, portanto, nada pode ser futuro e nada pode começar. Então qual é a justificativa para considerar a Eternidade como futura? Ela reside, sustento, no fato de que a Eternidade é tão futura quanto qualquer coisa pode ser. Ela é tão verdadeiramente futura quanto o amanhã ou o próximo ano. E, portanto, quando tomando o Tempo como real – como devemos fazer na vida cotidiana – nos esforçamos em estimar a relação do Tempo com a Eternidade, podemos legitimamente dizer que a Eternidade é futura. Do ponto de vista do tempo, os eventos de amanhã e do próximo ano são futuros. E, se a Eternidade é tão verdadeiramente futura quanto eles, é legítimo dizer que a Eternidade é futura. Não é absolutamente verdadeiro, mas é tão verdadeiro quanto qualquer outra afirmação sobre a futuridade. E é muito mais verdadeiro do que dizer que a Eternidade é presente ou passada.
Recapitulemos: se o tempo é irreal, então a série temporal é uma série de representações mais ou menos adequadas da realidade atemporal, e esta série em si não está realmente no tempo. Se o que determina a posição dos estágios na série temporal são os diferentes graus de adequação com que representam a realidade atemporal, então a série, que não é realmente uma série no tempo, é na verdade uma série de graus de adequação. Se o mais adequado desses estágios possui apenas uma inadequação infinitesimal, então a realidade atemporal, em sua própria completude, forma o último estágio da série. E se a distinção entre os estágios anteriores e posteriores é que os posteriores são os mais adequados, então – visto que o futuro é posterior ao presente – devemos colocar a realidade atemporal no futuro, e ao final do futuro.
Assim, nesta teoria, dizer que a Eternidade é futura é muito mais preciso do que, nos dois casos anteriores, dizer que a Eternidade era presente. Pois, naqueles casos, a Eternidade, embora tivesse alguma analogia com o presente, não era tão plenamente presente quanto a luz do sol de hoje, que é presente no sentido mais pleno. Mas, neste caso, a Eternidade é tão realmente futura quanto a luz do sol de amanhã, que é futura no sentido mais pleno. A presentidade da Eternidade era apenas uma metáfora. A sua futuridade, neste caso, é tão verdadeira quanto qualquer futuridade.
19. Passemos a outro caso. Suponhamos, como antes, que a verdade da série temporal fosse uma série de representações organizadas por seus graus de adequação, estendendo-se até que o termo extremo da série diferisse da própria realidade atemporal apenas por uma quantidade infinitesimal. Mas suponhamos que a série corra no sentido oposto, de modo que os membros mais adequados apareçam como os estágios iniciais da série temporal, e os membros menos adequados apareçam como os estágios posteriores da série temporal. Neste caso, teríamos de considerar a realidade atemporal como o início do passado, em vez de como o fim do futuro. Teríamos de nos considerar como tendo partido dela, e não como destinados a alcançá-la. É óbvio que, de um ponto de vista prático, a diferença entre esses dois casos pode ser muito grande – retornarei à importância prática dessa relação mais adiante. Parece-me haver razões para supor que o primeiro dos dois casos é o que realmente existe, e que a Eternidade deve ser considerada como estando no futuro, não no passado. Mas nosso objetivo, aqui, é meramente perceber que, se o segundo caso for verdadeiro, e os membros mais adequados forem os que aparecem como iniciais, então a Eternidade deve ser considerada como estando no passado.
20. Posso mencionar um terceiro caso, embora o considere muito improvável. Suponhamos que os estágios da série fossem organizados não simplesmente em ordem de adequação, mas segundo algum princípio que colocasse o estágio menos adequado no meio, tornando-os mais adequados à medida que divergissem deste em direção a qualquer uma das extremidades. E suponhamos, como antes, que as representações mais adequadas diferissem da realidade atemporal apenas de forma infinitesimal. Então fica claro que a realidade atemporal estaria para o membro mais inicial da série assim como este estaria para o próximo mais inicial. Também fica claro que a realidade atemporal estaria para o membro mais remoto assim como este estaria para o próximo mais remoto. E, portanto, a realidade atemporal seria um termo em cada extremidade da série, a qual partiria dela e a ela retornaria. Neste caso, teríamos de considerar o Eterno tanto como o início do passado quanto como o final do futuro.
21. Assim, vemos que sob certas condições o Eterno pode ser dito passado ou futuro não apenas como uma metáfora, mas com tanta verdade quanto qualquer outra coisa pode ser passada ou futura. Mas este não é o caso com o presente. Sob nenhuma suposição estaríamos justificados em dizer agora que o Eterno é presente. Se fosse presente, ele manteria com nossa posição atual na série temporal a mesma relação que o presente mantém – isto é, certamente ele teria de ser idêntico a nossa posição. E a realidade atemporal certamente não é idêntica a uma posição como a nossa, que a representa como estando no tempo e, portanto, de acordo com nossa teoria, representa-a inadequadamente. Sob várias suposições, como vimos acima, a metáfora mais apropriada para o Eterno é a de um presente eterno. Mas sob nenhuma suposição isso pode ser mais do que uma metáfora.
22. Resta dizer, quanto aos casos em que o Eterno é considerado como sendo o fim do futuro ou o início do passado, que é possível que o passado ou o futuro em questão fossem infinitos em extensão. Não vejo nada que deva excluir essa suposição e nos permitir afirmar que o presente foi alcançado em um tempo finito a partir do Eterno, ou que o Eterno será alcançado em um tempo finito a partir do presente.
Na matemática, o que só acontece em uma distância infinita é dito ser o mesmo que o que nunca acontece. Assim, diz-se que duas linhas retas paralelas se encontram a uma distância infinita. Como os matemáticos adotam esse método de expressão, ele provavelmente possui alguma utilidade real para a matemática. Mas, à parte as convenções dessa ciência especial, parece-me haver uma diferença muito real entre uma série que atinge um resultado após um processo infinitamente longo, e uma série que nunca atinge esse resultado.
Portanto, mesmo que a série de estágios que intervêm entre o presente e a realidade atemporal fosse tal que aparecesse como um tempo infinitamente longo, eu não veria impropriedade em falar da realidade atemporal como o estágio extremo da série, do qual ela partiu ou ao qual ela atinge. Ao mesmo tempo, não vejo mais razão para supor que a extensão seja infinita do que para supor que seja finita.
23. Proponho dedicar o restante do meu artigo a uma consideração de alguns aspectos da possibilidade de que seja correto considerar a Eternidade como o final do futuro.
Veremos que essa concepção tem uma semelhança muito forte com uma visão cristã muito comum. O céu cristão é às vezes visto como perdurando através de um tempo sem fim. Mas também é frequentemente visto como um estado atemporal. Ao mesmo tempo, é geralmente visto como estando no futuro. Não estamos nele agora. Não estivemos nele antes do nascimento – de fato, a maioria dos cristãos nega que existíssemos antes do nascimento de nossos corpos presentes. Estamos separados do céu pela morte – não que a morte, por si só, nos coloque nele, mas não o alcançaremos até que tenhamos passado pela morte.
Esta não tem sido a visão universal do cristianismo, mas penso ser inegável que se tenha sustentado, em geral, que o céu estava no futuro. O céu pode ser considerado como um estado da mente, não um lugar ou ambiente. Mas, ainda assim, é um estado da mente que para nós ainda está no futuro. “Agora vemos obscuramente, em espelho[6]; mas depois veremos face a face” (1ª Epístola aos Coríntios, xiii, 12). O início pode estar aqui presente, mas não a conclusão. Além disso, mesmo o que dele se atinge na terra tem de ser atingido, ganho onde antes não estava, e, dessa forma, o que outrora era futuro, para muitos homens continua sendo, ainda hoje, futuro.
Recentemente, essa visão do céu cristão tem sido severamente criticada, tanto de dentro quanto de fora do cristianismo. Tem sido dito que o céu, se perfeito, deve ser atemporal, e que ele é geralmente admitido como atemporal, e que, portanto, é absurdo colocá-lo no futuro, devendo antes ser considerado como um presente eterno.
Os críticos têm uma certa justificação subjetiva. Eles investigaram a relação do Tempo com a Eternidade mais profundamente do que a maioria daqueles que sustentam a visão criticada. Eles perceberam as dificuldades de conferir à Eternidade um lugar ao fim da série temporal, enquanto muitos dos que sustentavam que o céu era futuro não haviam percebido essas dificuldades de modo algum. Ainda assim, devemos sustentar, proponho, que a visão do céu como agora futuro, sob certas circunstâncias, poderia ser muito mais verdadeira do que a visão do céu como agora presente, sob quaisquer circunstâncias.
Recapitulemos mais uma vez as condições. O Eterno pode certamente ser considerado como futuro se o tempo é irreal, se a série que nos aparece como uma série temporal é uma série de representações organizadas segundo a adequação, se o termo mais elevado da série difere apenas por uma quantidade infinitesimal da realidade representada, e se são as representações mais adequadas que aparecem como as últimas na série. Ora, muitas pessoas que consideram o céu como futuro sustentariam que ele é atingido gradualmente, por estágios progressivos que se elevam até que o último conduza à perfeição atemporal sem qualquer quebra de continuidade, e que o mais elevado desses estágios vem depois. Assim, três das quatro condições são cumpridas. A primeira – que o tempo é irreal – é menos frequente, é claro. Mas se essa condição é combinada com as outras três – como frequentemente é o caso, e pode muito bem ser o caso — então me parece que a ideia de um céu atemporal como futuro é inteiramente justificável, e que os cristãos que sustentaram essa crença, embora não vissem tão profundamente quanto críticos como o Sr. Bradley e o Sr. Haldane, haviam, de fato, apreendido a verdade, ainda que sem perceber claramente por que isso era verdadeiro.
24. Parece-me enorme a importância prática da questão sobre se o Eterno pode ser considerado como futuro. A questão suprema, do ponto de vista da importância prática, é se o bem ou o mal predomina no universo, e em que proporção. A importância prática da filosofia consiste não na orientação que ela nos dá na vida – que penso ser muito pouca –, mas na chance de que possa responder a essa questão suprema de maneira animadora, de que possa fornecer alguma solução que seja uma consolação e um encorajamento.
De que maneira podemos esperar fazer isso? Não pode ser feito por indução empírica. Mesmo concedendo que tenhamos evidências para chegar a uma conclusão favorável sobre o estado das pessoas neste planeta no tempo presente – e isto é tudo o que podemos saber empiricamente –, isso seria uma base pequena demais para uma indução que nos desse sequer a menor probabilidade quanto ao universo como um todo, ao longo de todo o tempo.
A crença em um Deus que está do lado do bem tem sido um dos suportes nos quais os homens mais frequentemente tentaram basear uma solução otimista para essa questão. Mas mesmo que aceitemos a existência de tal Deus, isso não oferecerá por si só fundamento suficiente para o que buscamos. Estamos naufragados em uma velha dificuldade – a dificuldade que Agostinho enunciou com perfeita clareza[7], e que os teístas, em todos os séculos que se passaram, jamais evitaram. Ou Deus pode fazer tudo o que deseja, e então o mal, visto que existe, não lhe pode ser repugnante, e sua existência não oferece base para limitar sua extensão ou duração. Ou então Deus não pode fazer tudo o que deseja, e então não podemos ter certeza de que o mal, apesar dos esforços de Deus, não possa agora predominar sobre o bem, e estar destinado a aumentar no futuro.
Tentativas foram feitas para provar a predominância do bem a partir da natureza intrínseca do bem e do mal. Mas aqui me parece que qualquer argumento que prove algo prova demais, pois todos tendem a provar que não há mal algum. E esse tipo de argumento, temo eu, pode ser descartado como reductio ad absurdum.
25. Que outro caminho resta para aqueles de nós que não são tão felizmente constituídos a ponto de serem capazes de acreditar em algo apenas porque desejam acreditar? Resta uma tentativa de solução – aquela sobre a qual se ergueu o mais magnífico otimismo que a filosofia já viu: o otimismo de Hegel. Essa solução repousa na irrealidade do Tempo. Somente o Eterno realmente existe, e o Eterno é perfeitamente bom. Todo o mal que supomos existir é parte do elemento temporal que erroneamente supomos existir: e então não há mal algum.
Essa solução, entretanto, na forma que assume com Hegel, não nos dará o que buscamos. Em primeiro lugar, ela não possui realmente um resultado otimista. Dizer-nos que o mal é irreal não torna aquilo que pensamos ser mau nem um pouco menos desagradável de sofrer, nem um pouco menos deprimente de esperar. E mesmo que tivesse esse efeito nas pessoas que conhecem a verdade, o que dizer das pessoas que não a conhecem? O único fundamento para o otimismo seria encontrado na crença de que essa ilusão do mal fosse limitada em quantidade, ou transitória, em sua duração aparente. E a asserção de sua irrealidade não nos permitiria limitar a extensão ou a duração de nossa ilusão de sua realidade.
Em segundo lugar, não creio que a teoria possa ser aceita como verdadeira. É possível que não haja pecado na existência – de fato, se o tempo é irreal, parece inevitável que não deva haver pecado. É até possível que não devesse haver dor – embora isso não seja tão simples. Mas o mal é mais amplo que o pecado ou a dor. E me parece certo, em todo caso, que mesmo a ilusão de que sou pecador ou de que sinto dor é um mal. Posso não ser realmente pecador ou estar realmente com dor, mas, em algum sentido, a ilusão do pecado ou da dor existe, e isso é um mal real. Se duvidamos disso, perguntemo-nos se não consideraríamos o universo melhor se uma dada ilusão de pecado ou dor fosse substituída por uma experiência de virtude ou prazer. Ou perguntemo-nos se não culparíamos um criador que desnecessariamente inserisse tais ilusões no universo que criou.
26. Mas se abandonarmos a tentativa de basear uma solução otimista na irrealidade do tempo através da irrealidade do mal, ainda assim há um outro caminho pelo qual a irrealidade do tempo pode nos ajudar.
É um fato certo – que pode algum dia ser explicado, mas que não pode ser negado, seja ou não explicado – que o bem e o mal no futuro nos afetam de modo inteiramente diferente do bem e do mal no passado. Suponhamos dois homens, um dos quais tenha sido muito feliz por um milhão de anos, e estivesse prestes a se tornar muito triste por outro milhão de anos, enquanto o outro tenha sido muito triste por um milhão de anos, e estivesse agora prestes a ser muito feliz pelo mesmo período. Se os supusermos em alguma hora neutra entre os dois períodos, lembrando-se do passado e estando certos do futuro, é certo que o segundo estaria em uma posição muito mais desejável que o primeiro, embora a quantidade total de vida que cada um estivesse contemplando mostre exatamente a mesma quantidade de prazer e dor.
O mal passado, como tal, não nos entristece como o mal futuro. Podemos ser entristecidos pelos resultados que ele deixou para trás no presente, ou que se pode esperar que apareçam no futuro – se esses resultados forem eles mesmos maus, o que naturalmente nem sempre é o caso com os resultados presentes de males passados. Ou a lembrança do mal passado pode nos recordar que o universo não é inteiramente bom, e nos fazer temer pelo mal no futuro. E um mal passado particular pode nos dar, não meramente apreensão geral, mas razões particulares para temer algum mal futuro particular. E, mais uma vez, se o mal passado foi causado pela maldade de qualquer pessoa, o fato de o mal ter passado não afetará o fato de que a pessoa responsável ainda é má, a menos, é claro, que ela tenha melhorado e se arrependido.
27. Portanto, se chegássemos a uma teoria do universo que fosse incapaz de negar a existência do mal, ou de asserir que o bem predominou sobre o mal ao longo da totalidade do tempo, ou que o faz no presente, ainda haveria uma chance para o otimismo. Se tal teoria fosse capaz de asserir que, qualquer que seja o estado do universo agora, inevitavelmente ele melhoraria, e o estado de cada indivíduo consciente nele inevitavelmente melhoraria, até que alcançassem um estado final de perfeita bondade, ou pelo menos de uma bondade muito grande – certamente isso seria aceito como uma teoria animadora. Certamente isso daria, tanto quanto qualquer crença pode dar, consolo e encorajamento perante os males do presente. De fato, é uma teoria quase tão favorável quanto se poderia formular, pois se fôssemos muito além disso na direção do otimismo, logo alcançaríamos a negação do mal e, então, como foi dito acima, nossa teoria se chocaria contra fatos que não podem ser negados.
28. Mas como tal teoria poderia ser estabelecida? Nenhuma evidência empírica que pudéssemos alcançar ofereceria sequer a mais leve presunção em favor de uma conclusão tão vasta. E como podemos provar a priori que, mais no futuro do que foi no passado, ou mais do que no presente, o bem predominará sobre o mal? Qual conexão o raciocínio a priori pode encontrar entre o posterior e o melhor?
Não vejo como isso possa ser feito se o Tempo for tomado como real. Mas se o Tempo é irreal, vejo uma possibilidade – mais do que isso não me aventuro a dizer no momento – de tal demonstração. Vejo uma possibilidade de mostrar que a realidade atemporal seria, não digo puramente boa, mas muito boa, melhor do que qualquer coisa que possamos agora experienciar ou mesmo imaginar. Vejo uma possibilidade de mostrar que tudo o que esconde essa bondade de nós – na medida em que ela está escondida – é a ilusão do tempo. E vejo uma possibilidade de mostrar que as diferentes representações que aparecem a nós como a série temporal estão em tal ordem que aquelas que aparecem como posteriores são as mais adequadas, e a última difere apenas infinitesimalmente da realidade atemporal. Nesse caso, devemos olhar para o Eterno como o final do Tempo; e para o Tempo como essencialmente o processo pelo qual alcançamos o Eterno e sua perfeição.
A realidade do Eterno só pode nos confortar, então, se a concebermos como futura, já que é para o futuro que o otimismo deve olhar. Nem vejo como podemos olhar para o futuro de forma otimista a menos que o consideremos como a manifestação progressiva do Eterno. Se isso pode ser feito, caberá ao futuro pronunciar – as possibilidades de que tenho falado podem se mostrar demonstrações ou as mais simples falácias. Apenas vejo uma chance de uma solução feliz na relação do Tempo com a Eternidade, e, como a filosofia se encontra no presente, não a vejo em nenhum outro lugar.
Em Lógica, a concepção de que toda verdade é atemporal não foi bem aceita antes do final do século XIX. Antes, o valor de verdade de uma proposição era compreendido como podendo ser instável, o que caracterizava a proposição como temporal: a proposição “Sócrates está sentado”, por exemplo, é verdadeira quando Sócrates está sentado, e falsa quando Sócrates se levanta. Foi sobretudo com a influência de Keynes, Johnson e Russell (ver Prior, 1957, pp. 108-111), e posteriormente de Frege (ver 1956, p. 309), que a concepção de que toda verdade é atemporal se tornou bem aceita. Assim, a proposição “Sócrates está sentado” na verdade é uma abreviação da proposição “Sócrates está sentado em t” – e assim, se verdadeira, é verdadeira sempre, e se falsa, é falsa sempre. Esse paradigma ficou conhecido como “eternismo”, enquanto o paradigma antigo ficou conhecido como “temporalismo” (ver uma introdução a esse tema em Faria, 2021, cap. 1). É sob o paradigma eternista que McTaggart afirma, aqui, que toda verdade é atemporal. No entanto, ele notavelmente defendeu o temporalismo como expressão fundamental para o tratamento da transitoriedade – se a transitoriedade for concebida como existente. Essa defesa, porém, é indireta, e surge como um corolário da sua concepção de mudança em sua prova da irrealidade do tempo. (N.T.) ↩︎
Por mais curiosa que essa tese pareça, à primeira vista, ela não mina a concepção de que Deus está presente em todos os momentos do tempo. Mais do que isso, ela parece dar conta de paradoxos que surgem com a suposição de que Deus é atemporal. Não posso desenvolver esse interessante tópico em uma nota de rodapé, mas essa posição é defendida com excelência, contemporaneamente, em Craig, 2001, cap. III. (N.T.) ↩︎
A expressão “mais realidade” é estranha à contemporaneidade. O próprio McTaggart afirma que a realidade não é uma qualidade que admita graus. Isso está explícito em McTaggart, 1921, I, § 4. Assim, concluo que ele se refira, aqui, a autores que aceitam a possibilidade de graus de realidade (como Santo Agostinho, por exemplo, que sugere em Confessiones, XI, 22 que o passado e o futuro existem, mas não do mesmo modo que o presente) ou, aceitando isso, entenda esse tipo de expressão como façon de parler. (N.T.) ↩︎
Quer dizer, muitos filósofos defendem que o tempo é irreal – obviamente não do mesmo modo que McTaggart. (N.T.) ↩︎
A propriedade da continuidade significa que não há lacunas na ordem de precedência. Para que uma série temporal seja contínua, portanto, ela deve ser densa – ou seja, entre dois instantes, em que um precede o outro, deve sempre haver um outro instante – e completa no sentido de Dedekind – isto é, todo conjunto não vazio de elementos, limitado superiormente, deve possuir um menor limite superior. (N.T.) ↩︎
Na Vulgata, “Videmus enim nunc per speculum in aenigmate”. A concepção de que agora vemos em enigmas, ao meu ver, parece concordar ainda mais explicitamente com o ponto de McTaggart, posto que por mais que não tenhamos contato com o eterno, pois inevitavelmente vivenciamos a partir da aparência do tempo, podemos saber que a realidade é atemporal. (N.T.) ↩︎
Por exemplo, em Confissões, VII, 7. (N.T.) ↩︎
Referências das notas
AGOSTINHO, Santo. Confissões. (Edição bilíngue; tradução por Um Devoto). Novo Hamburgo: Logos, 2025. [Editora Logos]
CRAIG, W. L. Time and eternity: exploring God’s relationship to time. Wheaton: Crossway Books, 2001. [Amzn]
FARIA, Paulo E. Time, thought, and vulnerability: an inquiry in cognitive dynamics. Buenos Aires: SADAF, 2021. [Amzn]
FREGE, Gottlob. “The thought: a logical inquiry”. (Tradução por P. T. Geach). Mind, New Series, v. 65, n. 259, pp. 289-311, 1956. [Mind]
McTAGGART, J. M. E. The nature of existence, Vol. I. London: Cambridge University Press, 1921. [Internet Archive], [Amzn]
PRIOR, A. N. Time and modality. Oxford: Clarendon Press, 1957. [Internet Archive], [Amzn]
Arquipélago Filosófico, Vol. 2, No. 22 (2026), e-022
ISSN 3086-1136
Informações do Artigo
Artigo: John McTaggart, A relação entre o tempo e a eternidade
Autor(es): Arquipélago
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Data: 19 jun 2026
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