J. M. E. McTaggart, A irrealidade do tempo
Arquipélago
Tradução, apresentação e notas por Mikael Abrão Bombassaro (UFRGS)
Apresentação
Publicado pela primeira vez na revista Mind (v. 17, n. 68, pp. 457-474), em 1908, este é o artigo mais influente da obra de John McTaggart. Não seria exagerado afirmar, inclusive, que a prova da irrealidade do tempo, nele apresentada pela primeira vez (e reproduzida no segundo volume de The nature of existence, capítulo XXXIII), levanta os mais importantes questionamentos ontológicos acerca do tempo desde os paradoxos de Zenão de Eléia (veja em Phys., VI, 9) e das inquirições presentes no Livro XI das Confissões de Santo Agostinho – Findlay (1941), por exemplo, considera os problemas colocados por esses autores como especialmente relevantes. Ao menos desde a metade do século XX, o tratamento de qualquer tópico relacionado à temporalidade – a partir de uma perspectiva metafísica ou física – cedo ou tarde acaba tendo de lidar com as questões expostas por McTaggart.
Esta tradução foi solicitada para compor a primeira edição brasileira do livro Estudos filosóficos, uma antologia de artigos de McTaggart organizada por S. V. Keeling em 1934, a ser publicado pela editora Logos. A publicação em separado neste site foi graciosamente permitida pela editora, à qual agradecemos. Os comentários solicitados para a sua edição foram mantidos, sendo apresentados em notas, aqui, com o sinal “N.T.”.
A irrealidade do tempo
John McTaggart Ellis McTaggart
Sem dúvida, parece muito paradoxal afirmar que o Tempo é irreal e que todos os enunciados que envolvem sua realidade estão equivocados. Tal afirmação envolve um distanciamento da posição natural da humanidade muito maior do que aquele que se observa na afirmação da irrealidade do Espaço ou da irrealidade da Matéria. Uma ruptura tão decisiva com essa posição natural não deve ser ligeiramente aceita. E, contudo, em todas as épocas, a crença na irrealidade do tempo tem se mostrado singularmente atraente.
Na filosofia e na religião do Oriente, descobrimos que esta doutrina é de importância fundamental. E no Ocidente, onde a filosofia e a religião estão menos estreitamente ligadas, percebemos que a mesma doutrina recorre continuamente, tanto entre filósofos quanto entre teólogos. A teologia jamais se mantém apartada do misticismo por um longo período, e quase todo misticismo nega a realidade do tempo. Na filosofia, por sua vez, o tempo é tratado como irreal por Espinosa, por Kant, por Hegel e por Schopenhauer. Na filosofia dos dias atuais, os dois movimentos mais importantes (excluindo aqueles que, por ora, são meramente críticos) são os que se voltam para Hegel e para o Sr. Bradley. E ambas essas escolas negam a realidade do tempo. Tal convergência de opiniões não pode deixar de ser considerada altamente significativa – e não é menos significativa pelo fato de a doutrina tomar formas tão diferentes e ser defendida por argumentos tão distintos.
Eu acredito que o tempo é irreal. Mas sustento isso por razões que, a meu ver, não foram empregadas por nenhum dos filósofos que mencionei, e pretendo explicar meus motivos neste artigo.
As posições no tempo, tal como o tempo se nos apresenta prima facie, são distinguidas de duas maneiras. Cada posição é Anterior a algumas, e Posterior a algumas, das outras posições. E cada posição é Passada, Presente ou Futura. As distinções da primeira classe são permanentes, enquanto as da última não o são. Se M é alguma vez anterior a N, então sempre será anterior a N. Mas um evento, que agora é presente, foi futuro e será passado.
Visto que as distinções da primeira classe são permanentes, elas poderiam ser consideradas mais objetivas e mais essenciais à natureza do tempo. Eu acredito, no entanto, que isso seria um erro, e que a distinção de passado, presente e futuro é tão essencial ao tempo quanto a distinção de anterioridade e posterioridade, ao passo que, em certo sentido, como veremos, ela pode ser considerada mais fundamental do que a distinção de anterioridade e posterioridade. E é porque as distinções de passado, presente e futuro me parecem essenciais para o tempo que eu considero o tempo irreal.
Em favor da brevidade, vou chamar a série de posições que vai do passado remoto, passando pelo passado próximo, até o presente, e então do presente ao futuro próximo e ao futuro remoto, de Série A. A série de posições que corre do anterior para o posterior, chamarei de Série B. Os conteúdos de uma posição no tempo são chamados de eventos. Admite-se que os conteúdos de uma única posição sejam apropriadamente chamados de uma pluralidade de eventos. (Eu acredito, no entanto, que eles podem tão verdadeiramente, embora não mais verdadeiramente, ser chamados de um único evento. Essa concepção não é universalmente aceita, e não é necessária para o meu argumento.) Uma posição no tempo é chamada de um momento.
A primeira questão que devemos considerar é se é essencial para a realidade do tempo que seus eventos formem tanto uma Série A quanto uma Série B. E, para começar, é claro que nunca observamos o tempo exceto como formando ambas essas séries. Percebemos os eventos no tempo como sendo presentes, e esses são os únicos eventos que percebemos diretamente. E todos os outros eventos no tempo que, por memória ou inferência, acreditamos serem reais, são considerados como passados ou futuros – os anteriores ao presente sendo passados, e os posteriores ao presente sendo futuros. Assim, os eventos do tempo, como observados por nós, formam uma Série A assim como uma Série B.
É possível, no entanto, que isso seja meramente subjetivo. Pode ser que a distinção introduzida entre as posições no tempo pela Série A – a distinção de passado, presente e futuro – seja simplesmente uma ilusão constante de nossas mentes, e que a verdadeira natureza do tempo contenha apenas a distinção da Série B – a distinção de anterioridade e posterioridade.[1] Nesse caso, não poderíamos perceber o tempo como ele realmente é, mas acredito que poderíamos ser capazes de pensar o tempo como ele realmente é.
Essa não é uma concepção muito comum, mas obteve defensores capazes. Eu acredito que ela seja insustentável porque, como disse acima, parece-me que a Série A é essencial à natureza do tempo, e que qualquer dificuldade para considerar a Série A como real é, igualmente, uma dificuldade para considerar o tempo como real.
Suponho que seria universalmente admitido que o tempo envolve mudança.[2] Uma coisa particular, de fato, pode existir inalterada por qualquer período de tempo. Mas, quando perguntamos o que queremos dizer ao dizer que houve diferentes momentos de tempo, ou uma certa duração de tempo, ao longo dos quais a coisa permaneceu a mesma, descobrimos que queremos dizer que ela permaneceu a mesma enquanto outras coisas mudavam. Um universo em que absolutamente nada mudasse (incluindo os pensamentos dos seres conscientes nele) seria um universo atemporal.[3]
Se, então, uma Série B sem uma Série A pode constituir o tempo, a mudança deve ser possível sem uma Série A. Suponhamos que a distinção de passado, presente e futuro não se aplique à realidade. A mudança pode se aplicar à realidade? O que é que muda?
Poderíamos dizer que, em um tempo que formasse uma Série B, mas não uma Série A, a mudança consistiria no fato de que um evento deixou de ser um evento, enquanto outro evento começou a ser um evento? Se esse fosse o caso, certamente teríamos uma mudança.
Mas isso é impossível. Um evento nunca pode deixar de ser um evento. Ele jamais pode sair de qualquer série temporal na qual uma vez esteja. Se N é alguma vez anterior a O e posterior a M, ele sempre será, e sempre foi, anterior a O e posterior a M, visto que as relações de anterioridade e posterioridade são permanentes. E como, segundo nossa presente hipótese, o tempo é constituído somente por uma Série B, N sempre terá uma posição em uma série temporal, e sempre a teve.[4] Isto é, ele sempre será e sempre foi um evento, e não pode começar ou deixar de ser um evento.
Ou deveríamos dizer que um evento M se funde em outro evento N, preservando certa identidade por meio de um elemento inalterado, de modo que possamos dizer não meramente que M cessou e N começou, mas que M se tornou N? Ainda assim, a mesma dificuldade retorna. M e N podem ter um elemento em comum, mas não são o mesmo evento, ou não haveria mudança. Se, portanto, M muda para N em um certo momento, então, naquele momento, M deixou de ser M, e N começou a ser N. Mas vimos que nenhum evento pode deixar de ser si mesmo, ou começar a ser si mesmo, uma vez que nunca deixa de ter um lugar como si mesmo na Série B. Assim, um evento não pode se transformar em outro.
Tampouco a mudança pode ser buscada nos momentos numericamente distintos do tempo absoluto, supondo que tais momentos existam. Pois os mesmos argumentos se aplicarão aqui. Cada um desses momentos teria seu próprio lugar na Série B, visto que cada um seria anterior ou posterior a cada um dos outros. E como a Série B indica relações permanentes, nenhum momento poderia jamais deixar de ser, nem poderia se tornar outro momento.
Já que, portanto, o que ocorre no tempo nunca começa ou deixa de ser, ou de ser o que é, e já que, mais uma vez, se deve haver mudança, deve ser mudança do que ocorre no tempo (pois o atemporal nunca muda), sustento que resta apenas uma alternativa. Mudanças devem acontecer aos eventos de tal forma que a ocorrência dessas mudanças não impeça os eventos de serem eventos, e os mesmos eventos, tanto antes quanto depois da mudança.
Pois bem, quais são as características de um evento que podem mudar e, ainda assim, permitir que o evento permaneça o mesmo? (Uso a palavra "característica" como um termo geral para incluir tanto as qualidades que o evento possui quanto as relações das quais ele é um termo – ou antes, o fato de o evento ser um termo dessas relações.) Parece-me que existe apenas uma classe de tais características – a saber, a determinação do evento em questão pelos termos da Série A.
Tome-se qualquer evento – a morte da Rainha Ana, por exemplo – e considere-se que mudança pode ocorrer em suas características. Que é uma morte, que é a morte de Ana Stuart, que tem certas causas, que tem certos efeitos – nenhuma característica desse tipo jamais muda. "Antes que as estrelas vissem claramente umas às outras"[5] o evento em questão era a morte de uma rainha inglesa. No último momento do tempo – se o tempo tem um último momento – o evento em questão ainda será a morte de uma rainha inglesa. E, em todos os pontos exceto um, ele é igualmente desprovido de mudança. Mas em um ponto ele muda. Começou sendo um evento futuro. Tornou-se, a cada momento, um evento em um futuro mais próximo. Por fim, foi presente. Então, tornou-se passado, e assim permanecerá para sempre, embora a cada momento se torne cada vez mais passado.
Assim, parecemos forçados à conclusão de que toda mudança é apenas uma mudança das características atribuídas aos eventos por sua presença na Série A, sejam essas características qualidades ou relações.
Se estas características forem qualidades, então devemos admitir que os eventos nem sempre seriam os mesmos, visto que um evento cujas qualidades se alteram não é completamente o mesmo, é claro. E mesmo que as características sejam relações, os eventos não seriam completamente os mesmos se – como acredito ser o caso – a relação de X com Y envolve a existência em X de uma qualidade de relação com Y.[6] Haveria, então, duas alternativas diante de nós. Poderíamos admitir que os eventos realmente mudam sua natureza, com respeito a essas características, mas não em relação a quaisquer outras. Não vejo dificuldade em admitir isso. Tal posição colocaria as determinações da Série A em um lugar muito singular entre as características do evento, mas, em qualquer teoria, elas seriam características muito singulares. É usual, por exemplo, dizer que um evento passado nunca muda, mas não vejo por que não deveríamos dizer, em vez disso, que "um evento passado muda apenas em um aspecto – o de que, a cada momento, ele está mais distante do presente do que antes". Mas, embora eu não veja dificuldade intrínseca nessa concepção, ela não é a alternativa que considero como em última instância verdadeira. Porque se, como acredito, o tempo é irreal, a admissão de que um evento no tempo mudaria em relação à sua posição na Série A não envolveria que qualquer coisa realmente mudasse.
Sem a Série A, portanto, não haveria mudança e, consequentemente, a Série B por si mesma não é suficiente para o tempo, visto que tempo envolve mudança.
A Série B, no entanto, não pode existir exceto como temporal, visto que anterioridade e posterioridade, que são as distinções das quais ela consiste, são claramente determinações temporais. Segue-se, então, que não pode haver Série B onde não há Série A, pois onde não há Série A, não há tempo.
Mas não se segue que, se subtrairmos do tempo as determinações da Série A, não nos restará série alguma. Existe uma série – uma série das relações permanentes, entre si, daquelas realidades que no tempo são eventos –, e é a combinação desta série com as determinações da Série A que leva ao tempo. Mas esta outra série – vamos chamá-la de Série C – não é temporal, pois não envolve mudança, mas apenas uma ordem. Os eventos possuem uma ordem. Eles estão, digamos, na ordem M, N, O, P. E, portanto, não estão na ordem M, O, N, P, ou O, N, M, P, ou em qualquer outra ordem possível. Mas que eles possuam esta ordem não implica que haja qualquer mudança, assim como a ordem das letras do alfabeto ou dos Pares na Lista do Parlamento não implica qualquer mudança. E, assim, aquelas realidades que nos aparecem como eventos poderiam formar essa série sem terem direito ao nome de eventos, já que tal nome só é dado a realidades que estão em uma série temporal. É apenas quando há mudança e tempo que as relações desta Série C passam a ser relações de anterioridade e posterioridade, e assim ela se torna uma Série B.
Mais é necessário, entretanto, para a gênese de uma Série B, e do tempo, do que simplesmente a Série C e o fato da mudança. Pois a mudança deve ser em uma direção particular. E a Série C, embora determine a ordem, não determina a direção. Se a Série C diz M, N, O, P, então a Série B, seguindo do anterior para o posterior, não pode dizer M, O, N, P, ou M, P, O, N, ou qualquer outra forma exceto duas. Mas ela pode seguir M, N, O, P (de modo que M seja o mais anterior e P o mais posterior), ou P, O, N, M (de modo que P seja o mais anterior e M o mais posterior). E não há nada, nem na Série C, nem no fato da mudança, que determine qual dessas formas será o caso.
Uma série que não é temporal não possui direção própria, embora possua uma ordem. Se nos restringirmos à série dos números naturais, não podemos colocar o 17 entre o 21 e o 26. Mas nos mantemos na série, quer sigamos do 17, passando pelo 21, até o 26, ou quer sigamos do 26, passando pelo 21, até o 17. A primeira direção nos parece a mais natural porque essa série possui apenas uma extremidade, e é geralmente mais conveniente ter essa extremidade como um início do que como um fim. Mas a série é igualmente respeitada quando contamos de trás para frente.
Novamente, na série de categorias da dialética de Hegel, a série nos impede de colocar a Ideia Absoluta entre o Ser e a Causalidade. Mas ela nos permite tanto ir do Ser, por meio da Causalidade, até a Ideia Absoluta, quanto da Ideia Absoluta, por meio da Causalidade, até o Ser. A primeira é, segundo Hegel, a direção da prova, e é assim, geralmente, a ordem de enumeração mais conveniente. Mas, se achássemos conveniente enumerar na direção inversa, ainda estaríamos observando a série.
Uma série não temporal, portanto, não possui direção em si mesma, embora uma pessoa que a considere possa tomar os termos em uma direção ou em outra, de acordo com sua própria conveniência. E, do mesmo modo, uma pessoa que contempla uma ordem temporal pode contemplá-la em qualquer uma das direções. Posso traçar a ordem dos eventos da Magna Carta até a Lei de Reforma, ou da Lei de Reforma até a Magna Carta. Mas, ao tratar da série temporal, não lidamos meramente com uma mudança na sua contemplação externa, mas com uma mudança pertencente à própria série. E esta mudança possui uma direção própria. A Magna Carta veio antes da Lei de Reforma, e a Lei de Reforma não veio antes da Magna Carta.
Portanto, além da Série C e do fato da mudança, deve ser dado – a fim de se obter o tempo – o fato de que a mudança ocorre em uma direção e não na outra. Agora podemos ver que a Série A, juntamente com a Série C, é suficiente para nos dar o tempo. Pois, para obter a mudança, e a mudança em uma dada direção, é suficiente que uma posição na Série C seja Presente, com a exclusão de todas as outras, e que esta característica de presentidade passe ao longo da série de tal modo que todas as posições de um lado do Presente tenham sido presentes, e todas as posições do outro lado venham a ser presentes. Aquilo que foi presente é Passado, e aquilo que será presente é Futuro.[7] Assim, à nossa conclusão anterior de que não pode haver tempo a menos que a Série A seja verdadeira da realidade, podemos adicionar a conclusão ulterior de que nenhum outro elemento é exigido para constituir uma série temporal, exceto uma Série A e uma Série C.
Podemos resumir as relações das três séries com o tempo da seguinte forma: as séries A e B são igualmente essenciais ao tempo, que deve ser distinguido como passado, presente e futuro, e deve, da mesma forma, ser distinguido por anterioridade e posterioridade. Mas as duas séries não são igualmente fundamentais. As distinções da Série A são últimas. Não podemos explicar o que se quer dizer por passado, presente e futuro. Podemos descrevê-las, até certo ponto, mas não podem ser definidas. Só podemos mostrar o seu significado por meio de exemplos. "O seu café da manhã", podemos dizer a um questionador, "é passado; esta conversa é presente; o seu jantar, esta noite, é futuro". Não podemos fazer mais do que isso.
A Série B, por sua vez, não é última. Pois, dada uma Série C de relações permanentes entre termos, a qual não é em si mesma temporal e, portanto, não é uma Série B, e dado o fato adicional de que os termos desta Série C também formam uma Série A, resulta que os termos da Série C se tornam uma Série B – aqueles que são colocados primeiro, na direção do passado para o futuro, sendo anteriores àqueles cujos lugares estão mais adiante na direção do futuro.
A Série C, contudo, é tão última quanto a Série A. Não podemos derivá-la de nada mais. Que as unidades do tempo formem uma série, cujas relações são permanentes, é tão último quanto o fato de que cada uma delas é presente, passada ou futura. E esse fato último é essencial para o tempo. Pois é admitido ser essencial ao tempo que cada um de seus momentos seja ou anterior ou posterior a qualquer outro momento; e essas relações são permanentes. E isso – a Série B – não pode ser derivado apenas da Série A. É somente quando a Série A, que fornece mudança e direção, é combinada com a Série C, que fornece permanência, que a Série B pode surgir.
Apenas parte da conclusão que agora alcancei é necessária para o propósito geral deste artigo. Estou buscando fundamentar a irrealidade do tempo não no fato de que a Série A é mais fundamental que a Série B, mas no fato de que ela é tão essencial quanto a Série B – que as distinções de passado, presente e futuro são essenciais ao tempo, e que, se as distinções nunca forem verdadeiras acerca da realidade, então nenhuma realidade está no tempo.
Essa concepção, seja verdadeira ou falsa, não tem nada de surpreendente. Foi apontado acima que o tempo, tal como o percebemos, sempre apresenta essas distinções. E geralmente se sustentou que essa é uma característica real do tempo, e não uma ilusão devida à forma como o percebemos. A maioria dos filósofos, acreditassem ou não que o tempo era verdadeiro para a realidade, consideraram as distinções da Série A como essenciais ao tempo.
Quando a concepção oposta foi sustentada, geralmente foi porque se considerou (corretamente, como tentarei mostrar adiante) que as distinções de presente, passado e futuro não podem ser verdadeiras acerca da realidade e que, por conseguinte, se a realidade do tempo deve ser salva, a distinção em questão deve se mostrar como não essencial ao tempo. A presunção, sustentava-se, era pela realidade do tempo, e isto nos daria uma razão para rejeitar a Série A como não essencial ao tempo. Mas, é claro, isso só poderia fornecer uma presunção. Se a análise da noção de tempo mostrasse que, ao remover a Série A, o tempo era destruído, essa linha de argumentação não estaria mais aberta, e a irrealidade da Série A envolveria a irrealidade do tempo.
Busquei mostrar que a remoção da Série A de fato destrói o tempo. Mas há duas objeções a essa teoria, as quais devemos agora considerar.
A primeira trata daquelas séries temporais que não são realmente existentes, mas que se acredita falsamente existirem, ou que são imaginadas como existentes. Tomemos, por exemplo, as aventuras de Dom Quixote. Essa série, diz-se, não é uma Série A. Não posso, neste momento, julgá-la como sendo passada, presente ou futura. De fato, sei que ela não é nenhuma das três. Contudo, diz-se, ela é certamente uma Série B. A aventura dos galeotes, por exemplo, é posterior à aventura dos moinhos de vento. E uma Série B envolve o tempo. A conclusão extraída é que uma Série A não é essencial ao tempo.
A resposta que sustento a objeção é a seguinte. O tempo pertence apenas ao que existe. Se uma realidade está no tempo, isso envolve que a realidade em questão exista. Penso que isso seria admitido universalmente. Pode-se questionar se tudo o que existe está no tempo, ou mesmo se algo realmente existente está no tempo, mas não se negaria que, se algo está no tempo, deve existir.
Ora, o que há de existente nas aventuras de Dom Quixote? Nada. Pois a estória é imaginária. Os atos da mente de Cervantes ao inventar a estória, os atos da minha mente ao pensar sobre a estória – esses existem. Mas, então, estes formam parte de uma Série A. A invenção dessa estória, por Cervantes, está no passado. Meu pensamento sobre essa estória está no passado, no presente e – espero – no futuro.
Mas uma criança pode acreditar que as aventuras de Dom Quixote são históricas. E, ao lê-las, por um esforço de imaginação, posso contemplá-las como se tivessem realmente acontecido. Nesse caso, as aventuras são concebidas como existentes ou imaginadas como existentes. Mas, então, acredita-se que elas estejam na Série A, ou se imagina que estejam na Série A. A criança que as toma como históricas acreditará que elas aconteceram no passado. Se as imagino como existentes, irei imaginá-las como ocorrendo no passado. Da mesma forma, se alguém acreditasse que os eventos registrados em Notícias de lugar nenhum, de Morris, existiam, ou os imaginasse como existentes, acreditaria que existem no futuro, ou os imaginaria como existentes no futuro. Se colocamos o objeto de nossa crença ou de nossa imaginação no presente, no passado ou no futuro, isso depende das características desse objeto. Mas em algum lugar da nossa Série A ele será colocado.
Assim, a resposta à objeção é que uma coisa está no tempo na medida em que está na Série A. Se está realmente no tempo, está realmente na Série A. Se se acredita que esteja no tempo, acredita-se que esteja na Série A. Se é imaginada como estando no tempo, é imaginada como estando na Série A.
A segunda objeção se baseia na possibilidade, discutida pelo Sr. Bradley, de que possa haver várias séries temporais independentes na realidade. Para o Sr. Bradley, de fato, o tempo é apenas aparência. Não existe tempo real de modo algum e, portanto, não existem várias séries reais de tempo. Mas a hipótese, aqui, é que deveria haver, dentro da realidade, várias séries temporais reais e independentes.
A objeção, imagino, é que as séries temporais seriam todas reais, enquanto a distinção de passado, presente e futuro teria significado apenas dentro de cada série, e não poderia, portanto, ser tida como real em última instância. Haveria, por exemplo, muitos presentes. Ora, é claro que muitos pontos do tempo podem ser presentes (cada ponto em cada série temporal é presente uma única vez), mas eles devem ser presentes sucessivamente. E os presentes das diferentes séries temporais não seriam sucessivos, já que não estão no mesmo tempo. (Tampouco seriam simultâneos, visto que isso, igualmente, envolve estar no mesmo tempo. Eles não teriam relação temporal alguma.) E presentes diferentes, a menos que sejam sucessivos, não podem ser reais. Logo, as diferentes séries temporais, que são reais, devem ser capazes de existir independentemente da distinção entre passado, presente e futuro.
Não posso, contudo, considerar essa objeção como válida. Sem dúvida, em um caso como esse, nenhum presente seria o presente – seria apenas o presente de um certo aspecto do universo. Mas, então, nenhum tempo seria o tempo – seria apenas o tempo de um certo aspecto do universo. Seria, sem dúvida, uma série temporal real, mas não vejo por que o presente seria menos real do que o tempo.[8]
Não estou, é claro, afirmando que não haja contradição na existência de várias Séries A distintas. Minha tese principal é que a existência de qualquer Série A envolve uma contradição. O que afirmo aqui é meramente que, supondo que pudesse haver qualquer Série A, não vejo dificuldade adicional envolvida em haver várias dessas séries independentes umas das outras, e que, portanto, não haja incompatibilidade entre a essencialidade de uma Série A para o tempo e a existência de vários tempos distintos.
Além disso, devemos lembrar que a teoria de uma pluralidade de séries temporais é uma mera hipótese. Razão alguma jamais foi dada para que devêssemos acreditar em sua existência.[9] Apenas se disse que não há razão para que devêssemos descrer de sua existência, e que, portanto, ela pode existir. Mas se a sua existência fosse incompatível com alguma outra coisa para a qual há evidência positiva, então haveria uma razão para que descrêssemos de sua existência. Ora, como tentei mostrar, há evidência positiva para acreditar que uma Série A é essencial ao tempo. Supondo, portanto, que fosse o caso (o que, pelas razões dadas acima, discordo) que a existência de uma pluralidade de séries temporais fosse incompatível com a essencialidade da Série A para o tempo, seria a hipótese de uma pluralidade de tempos que deveria ser rejeitada, e não nossa conclusão quanto à Série A.
Passo agora à segunda parte da minha tarefa.[10] Tendo tido êxito, ao que me parece, em provar que não pode haver tempo sem uma Série A, resta provar que uma Série A não pode existir e que, portanto, o tempo não pode existir. Isto envolveria que o tempo não é real de modo algum, uma vez que se admite que a única maneira pela qual o tempo possa ser real é existindo.
Os termos da Série A são características de eventos. Dizemos dos eventos que são passados, presentes ou futuros. Se os momentos do tempo são tomados como realidades separadas, dizemos deles também que são passados, presentes ou futuros. Uma característica pode ser tanto uma relação quanto uma qualidade. Quer tomemos os termos da Série A como relações entre eventos (o que me parece a visão mais razoável), quer os tomemos como qualidades de eventos, parece-me que envolvem uma contradição.
Examinemos primeiro a suposição de que elas sejam relações. Nesse caso, apenas um termo de cada relação pode ser um evento ou um momento. O outro termo deve ser algo fora da série temporal.[11] Pois as relações da Série A são relações que mudam, e as relações dos termos da série temporal, entre si, não mudam. Dois eventos estão exatamente nos mesmos lugares na série temporal, um em relação ao outro, um milhão de anos antes de ocorrerem, enquanto cada um deles está ocorrendo, e quando ambos estão um milhão de anos no passado. O mesmo é verdade para a relação dos momentos entre si. Novamente, se os momentos do tempo devem ser distinguidos como realidades separadas dos eventos que neles ocorrem, a relação entre um evento e um momento é invariável. Cada evento está no mesmo momento no futuro, no presente e no passado.
As relações que formam a Série A, então, devem ser relações de eventos e momentos com algo que não está propriamente na série temporal. O que seria isso é difícil de dizer. Mas, deixando de lado esse ponto, uma dificuldade mais positiva se apresenta.
Passado, presente e futuro são determinações incompatíveis. Todo evento deve ser um ou outro, mas nenhum evento pode ser mais de um. Isso é essencial para o significado dos termos. E, se não fosse assim, a Série A seria insuficiente para nos dar, em combinação com a Série C, o resultado do tempo. Pois o tempo, como vimos, envolve mudança, e a única mudança que podemos obter é do futuro para o presente, e do presente para o passado.
As características, portanto, são incompatíveis. Mas todo evento possui todas elas. Se M é passado, ele foi presente e foi futuro. Se é futuro, ele será presente e será passado. Se é presente, ele foi futuro e será passado. Assim, todos os três termos incompatíveis são predicáveis de cada evento, o que é obviamente inconsistente com o fato de serem incompatíveis, e inconsistente com o fato de produzirem mudança.
Pode parecer que isso pode ser facilmente explicado. De fato, tem sido impossível declarar a dificuldade sem quase dar a explicação, já que nossa língua possui formas verbais para o passado, para o presente e para futuro, mas nenhuma forma que seja comum aos três. Nunca é verdade, dirá a resposta, que M é presente, passado e futuro. É presente, será passado e foi futuro. Ou é passado e foi futuro e presente; ou, ainda, é futuro e será presente e passado. As características só são incompatíveis quando são simultâneas, e não há contradição no fato de que cada termo possui todas sucessivamente.
Mas essa explicação envolve um círculo vicioso. Pois ela assume a existência do tempo a fim de explicar a maneira pela qual os momentos são passados, presentes e futuros. O tempo, então, deve ser pressuposto para explicar a Série A. Mas já vimos que a Série A tem de ser assumida para explicar o tempo. Consequentemente, a Série A tem de ser pressuposta para explicar a Série A. E isto é, claramente, um círculo vicioso.
O que fizemos foi isto: para enfrentar a dificuldade de que o meu ato de escrever este artigo possui as características de passado, presente e futuro, dizemos que ele é presente, foi futuro e será passado. Mas "foi" só se distingue de "é" por ser existência no passado e não no presente, e "será" só se distingue de ambos por ser existência no futuro. Assim, nossa afirmação se reduz a isto – que o evento em questão é presente no presente, futuro no passado, passado no futuro. E está claro que há um círculo vicioso se tentarmos atribuir as características de presente, futuro e passado pelo critério das características de presente, passado e futuro.
A dificuldade pode ser apresentada de outra maneira, na qual a falácia exibirá a si mesma antes como uma série infinita viciosa do que como um círculo vicioso. Se evitamos a incompatibilidade das três características afirmando que M é presente, foi futuro e será passado, estamos construindo uma segunda Série A, sob a qual a primeira recai, do mesmo modo em que os eventos recaem sob a primeira. Pode-se duvidar se qualquer sentido inteligível pode ser dado à afirmação de que o tempo está no tempo. Mas, em qualquer caso, a segunda Série A sofrerá da mesma dificuldade que a primeira, que só pode ser removida se colocada dentro de uma terceira Série A. O mesmo princípio colocará a terceira dentro de uma quarta, e assim por diante, sem fim. Você nunca pode se livrar da contradição, pois, pelo ato de removê-la daquilo que deve ser explicado, você a produz novamente na explicação. E então a explicação é inválida.
Assim, surge uma contradição se a Série A é afirmada da realidade e é tomada como uma série de relações. Poderia ela ser tomada como uma série de qualidades, e nos daria isto um resultado melhor? Haveria três qualidades – futuridade, presentidade e passadidade – e estariam os eventos continuamente trocando a primeira pela segunda, e a segunda pela terceira?
Parece-me que há muito pouco a dizer em favor da concepção de que as mudanças da Série A são mudanças de qualidades. Sem dúvida, minha antecipação de uma experiência M, a experiência em si e a memória da experiência são três estados que possuem qualidades diferentes. Mas não são o M futuro, o M presente e o M passado que possuem essas três qualidades diferentes. As qualidades são possuídas por três eventos distintos – a antecipação de M, a própria experiência M e a memória de M –, cada um dos quais é, por sua vez, futuro, presente e passado. Assim, isso não dá apoio à concepção de que as mudanças da Série A são mudanças de qualidades.
Mas não precisamos ir adiante nessa questão. Se as características da Série A fossem qualidades, surgiria a mesma dificuldade que surgiria se fossem relações. Pois, como antes, elas não são compatíveis, e, como antes, cada evento possui todas elas. Isto só pode ser explicado, como antes, dizendo que cada evento as possui sucessivamente. E, assim, a mesma falácia teria sido cometida, como no caso anterior.[12]
Chegamos, então, à conclusão de que a aplicação da Série A à realidade envolve uma contradição, e que, consequentemente, a Série A não pode ser verdadeira da realidade. E, já que o tempo envolve a Série A, segue-se que o tempo não pode ser verdadeiro da realidade. Sempre que julgamos que algo existe no tempo, estamos em erro. E sempre que percebemos algo como existindo no tempo – que é a única maneira pela qual chegamos a perceber as coisas –, o estamos percebendo mais ou menos como realmente não é.
Devemos considerar uma possível objeção. O nosso fundamento para rejeitar o tempo, poderiam dizer, é que o tempo não pode ser explicado sem que se assuma o tempo. Mas não poderia isto provar – não que o tempo é inválido, mas antes que o tempo é irredutível? É impossível explicar, por exemplo, a bondade ou a verdade, a menos que se traga o termo a ser explicado como parte da explicação, e, portanto, rejeitamos a explicação como inválida. Mas nem por isso rejeitamos a noção como errônea, mas a aceitamos como algo irredutível que, embora não admita explicação, não a requer.
Mas isso não se aplica aqui. Uma ideia pode ser válida da realidade, embora não admita uma explicação válida. Mas ela não pode ser válida acerca da realidade se a sua aplicação à realidade envolve uma contradição. Ora, começamos apontando que havia tal contradição no caso do tempo – que as características da Série A são mutuamente incompatíveis e, ainda assim, todas verdadeiras acerca de cada termo. A menos que essa contradição seja removida, a ideia de tempo deve ser rejeitada como inválida. Foi para remover essa contradição que foi sugerida a explicação de que as características pertencem aos termos sucessivamente. Quando essa explicação falhou por ser circular, a contradição permaneceu sem ser removida, e a ideia de tempo deve ser rejeitada não porque não possa ser explicada, mas porque a contradição não pode ser removida.
O que já foi dito, se válido, é um fundamento adequado para rejeitar o tempo. Mas podemos adicionar outra consideração. O tempo, como vimos, sustenta-se ou cai com a Série A. Ora, mesmo que ignoremos a contradição que acabamos de descobrir na aplicação da Série A à realidade, houve algum dia qualquer razão positiva para supormos que a Série A era válida da realidade?
Por que acreditamos que eventos devem ser distinguidos como passados, presentes e futuros? Concebo que a crença surge de distinções em nossa própria experiência.
A qualquer momento tenho certas percepções, e tenho também a memória de certas outras percepções, e a antecipação de ainda outras. A percepção direta, em si, é um estado mental qualitativamente diferente da memória ou da antecipação de percepções. Nisso se baseia a crença de que a percepção, em si, possui uma certa característica quando a tenho, a qual é substituída por outras características quando tenho a memória ou a antecipação dela – características que são chamadas de presentidade, passadidade e futuridade. Tendo obtido a ideia dessas características, nós as aplicamos a outros eventos. Tudo o que for simultâneo à percepção direta que tenho agora é chamado de presente, e até mesmo foi sustentado que haveria um presente se ninguém tivesse percepção direta alguma. Do mesmo modo, atos simultâneos a percepções lembradas ou antecipadas são considerados passados ou futuros, e isso, por sua vez, é estendido a eventos aos quais nenhuma das percepções que agora lembro ou antecipo é simultânea. Mas a origem de nossa crença em toda essa distinção reside na distinção entre percepções e antecipações ou memórias de percepções.
Uma percepção direta é presente quando a tenho, e assim é o que for simultâneo a ela. Em primeiro lugar, essa definição envolve um círculo, pois as palavras "quando a tenho" só podem significar "quando ela é presente". Mas se omitíssemos essas palavras, a definição seria falsa, pois tenho muitas apresentações diretas, que estão em diferentes tempos, e que não podem, portanto, ser todas presentes, exceto sucessivamente. Isso, no entanto, é a contradição fundamental da Série A, que já foi considerada. O ponto que desejo considerar aqui é diferente.
As percepções diretas que tenho agora são aquelas que agora recaem sob o meu "presente especioso"[13]. Daquelas que estão além dele, só posso ter memória ou antecipação. Ora, o "presente especioso" varia em duração de acordo com as circunstâncias, e pode ser diferente para duas pessoas no mesmo período. O evento M pode ser simultâneo tanto à percepção Q de X quanto à percepção R de Y. Em um certo momento, Q pode ter deixado de fazer parte do presente ilusório de X. M, portanto, será passado naquele momento. Mas, no mesmo momento, R ainda pode ser parte do presente especioso de Y. E, portanto, M será presente no mesmo momento em que é passado.
Isso é impossível. Se, de fato, a Série A fosse algo puramente subjetivo, não haveria dificuldade. Poderíamos dizer que M era passado para X e presente para Y, tal como poderíamos dizer que era prazeroso para X e doloroso para Y. Mas estamos considerando tentativas de tomar o tempo como real, como algo que pertence à própria realidade, e não apenas às nossas crenças acerca dela, e isso só pode ser assim se a Série A também se aplicar à própria realidade. E se ela o faz, então, em qualquer momento, M deve ser ou presente ou passado. Não pode ser ambos.
O presente pelo qual os eventos realmente passam, portanto, não pode ser determinado como simultâneo ao presente especioso. Ele deve ter uma duração fixada como um fato fundamental. Essa duração não pode ser a mesma que a duração de todos os presentes especiosos, uma vez que nem todos os presentes especiosos têm a mesma duração. E, assim, um evento pode ser passado quando o estou experienciando como presente, ou presente quando o estou experienciando como passado. A duração do presente objetivo pode ser a milésima parte de um segundo. Ou pode ser um século, e as ascensões de Jorge IV e Eduardo VII podem fazer parte do mesmo presente. Que razão podemos ter para acreditar na existência de tal presente, que certamente não observamos como sendo um presente, e que não tem relação com aquilo que observamos como sendo um presente?
Se escaparmos dessas dificuldades adotando a concepção, que por vezes foi sustentada, de que o presente na Série A não é uma duração finita, mas um mero ponto separando o futuro do passado, encontraremos outras dificuldades igualmente sérias. Pois então o tempo objetivo em que os eventos estão será algo totalmente diferente do tempo em que os percebemos. O tempo em que os percebemos possui um presente de duração finita variável, e, portanto, com o futuro e o passado, é dividido em três durações. O tempo objetivo possui apenas duas durações, separadas por um presente que não tem nada além do nome em comum com o presente da experiência, já que não é uma duração, mas um ponto. O que há em nossa experiência que nos dê a mínima razão para acreditar em um tempo como esse?
E assim pareceria que a negação da realidade do tempo não é, no final das contas, tão paradoxal assim. Ela foi chamada de paradoxal porque parecia contradizer nossa experiência tão violentamente – levando-nos a tratar como ilusório muito do que, prima facie, parece dar conhecimento da realidade. Mas agora vemos que nossa experiência do tempo – centrando-se no presente especioso – não seria menos ilusória se houvesse um tempo real no qual as realidades que experienciamos existissem. O presente especioso de nossas observações – variando como varia de você para mim – não pode corresponder ao presente dos eventos observados. E, consequentemente, o passado e o futuro de nossas observações não poderiam corresponder ao passado e ao futuro dos eventos observados. Em qualquer uma das hipóteses – quer tomemos o tempo como real ou irreal – tudo é observado em um presente especioso, mas nada, nem mesmo as próprias observações, pode jamais estar em um presente especioso. E, nesse caso, não penso que tratemos a experiência como muito mais ilusória quando dizemos que nada jamais está em um presente do que quando dizemos que tudo passa por algum presente inteiramente diferente.
Nossa conclusão, então, é que nem o tempo como um todo, nem a Série A e a Série B, existem realmente. Mas isso deixa aberta a possibilidade de que a Série C realmente exista. A Série A foi rejeitada por sua inconsistência. E sua rejeição envolveu a rejeição da Série B. Mas não encontramos tal contradição na Série C, e sua invalidade não segue da invalidade da Série A.
É possível, portanto, que as realidades que percebemos como eventos em uma série temporal formem, de fato, uma série não temporal. É também possível, até onde chegamos, que elas não formem tal série, e que não sejam, na realidade, mais uma série do que temporais. Mas penso – embora não tenha espaço para aprofundar a questão aqui – que a concepção anterior, segundo a qual elas realmente formam uma Série C, é a mais provável.
Caso isso seja verdade, a consequência será que em nossa percepção dessas realidades como eventos no tempo, haverá alguma verdade, assim como algum erro. Por meio da forma enganosa do tempo, captaremos algumas de suas relações verdadeiras. Se dissermos que os eventos M e N são simultâneos, dizemos que ocupam a mesma posição na série temporal. E haverá alguma verdade nisso, pois as realidades que percebemos como os eventos M e N realmente ocupam a mesma posição em uma série, ainda que não seja uma série temporal.
Novamente, se afirmamos que os eventos M, N, O estão todos em tempos diferentes, e que estão nessa ordem, afirmamos que eles ocupam diferentes posições na série temporal, e que a posição de N está entre as posições de M e O. E será verdade que as realidades que vemos como esses eventos estarão em uma série, embora não em uma série temporal, e que suas posições nela serão diferentes, e que a posição da realidade que percebemos como o evento N estará entre as posições das realidades que percebemos como os eventos M e O.
Se essa concepção for adotada, o resultado até aqui se assemelhará mais àqueles alcançados por Hegel do que aos de Kant. Pois Hegel considerava a ordem da série temporal como um reflexo, embora um reflexo distorcido, de algo na natureza real da realidade atemporal, enquanto Kant não parece ter contemplado a possibilidade de que qualquer coisa na natureza do númeno pudesse corresponder à ordem temporal que aparece no fenômeno.
Mas a questão de saber se essa Série C objetiva de fato existe deve permanecer para uma discussão futura. E muitas outras questões se impõem, as quais inevitavelmente surgem se a realidade do tempo é negada. Se existe essa Série C, as posições nela são simplesmente fatos irredutíveis ou são determinadas pelas quantidades variadas, nos objetos que ocupam essas posições, de alguma qualidade que é comum a todos eles? E, se for assim, que qualidade é essa? E seria uma quantidade maior dela que determina que as coisas apareçam como posteriores, e uma quantidade menor que as determina a aparecer como anteriores, ou seria o inverso? Da solução dessas questões pode ser que dependam a confirmação ou a rejeição de nossas esperanças e temores para o universo.
E, novamente, a série de aparências no tempo é uma série infinita ou finita em extensão? E como devemos lidar com a própria aparência? Se reduzirmos o tempo e a mudança à aparência, não deve ser esta uma aparência que muda e que está no tempo, e então não estaria o tempo reconhecido como real, no final das contas? Esta é, sem dúvida, uma questão séria, mas espero mostrar futuramente que ela pode ser respondida de uma maneira satisfatória.
REFERÊNCIAS DAS NOTAS:
ARISTOTLE. The physics, vol. II (tradução por Philip H. Wicksteed e Francis M. Cornford). London: William Heinemann Ltd, 1934. [Internet Archive], [Amzn]
FINDLAY, J. N. Time: a treatment of some puzzles. Australasian Journal of Psychology and Philosophy, v. 19, n. 3, pp. 216-235, 1941.
GEACH, P. T. Truth, love and immortality. London: Hutchinson & Co., 1979. [Internet Archive], [Amzn]
JAMES, William. Principles of psychology, vol. 1. New York: Henry Holt and Company, 1890. [Internet Archive], [Amzn] O capítulo "A percepção do tempo" encontra-se disponível no Arquipélago Filosófico em tradução de Renato Fonseca, aqui.
McTAGGART, J. M. E. The nature of existence, vol. II. London: Cambridge University Press, 1927. [Internet Archive], [Amzn]
ROVELLI, Carlo. The order of time (tradução por Erica Segre e Simon Carnell). New York: Riverhead Books, 2018. [Internet Archive], [Amzn]
RUSSELL, Bertrand. On the experience of time. The Monist, v. 25, n. 2, pp. 212-233, 1915.
SHOEMAKER, Sydney. Time without change. The Journal of Philosophy, v. 66, n. 12, pp. 363-381, 1969.
Bertrand Russell parece ter pensado assim (cf. uma síntese dessa concepção em Russell, 1915). De fato, em The nature of existence, McTaggart considera algumas possíveis objeções a sua tese, e a primeira é, exatamente, relativa à concepção de tempo derivada do entendimento da noção de mudança nos Principles of mathematics de Russell (McTaggart, 1927, XXXIII, § 317) – posteriormente desenvolvida, mas, grosso modo, mantida a mesma por toda a sua obra. (N.T.) ↩︎
P. T. Geach chamou a concepção de mudança adotada por McTaggart de "Mudança de Cambridge", que caracteristicamente envolve toda e qualquer aquisição ou perda de uma propriedade – seja intrínseca, como na noção intuitiva de mudança, seja meramente relacional. Assim, se Teeteto cresce e se torna mais alto que Sócrates, Teeteto mudou – mas Sócrates se tornou, ipso facto, menor que Teeteto, portanto Sócrates também mudou. A ideia, assim, é que se algo muda, então tudo muda, porque um objeto O muda se, e somente se, há duas proposições sobre O que diferem somente por uma ter sido proferida antes da outra, e uma é verdadeira, e a outra é falsa (cf. Geach, 1979, pp. 90-92). (N.T.) ↩︎
Foi sustentado, anos depois, que um tempo sem mudança é logicamente possível – i.e., não envolve contradição, como era pensado (cf. Shoemaker, 1969). Esse resultado, que revela uma possibilidade lógica, não tem nada que ver com possibilidade ou concebibilidade física, vale dizer. McTaggart, no entanto, obviamente supõe que um tempo sem mudança é logicamente impossível. (N.T.) ↩︎
É igualmente verdadeiro, embora não nos diga respeito na hipótese que estamos agora considerando, que tudo o que está uma vez em uma Série A está sempre em uma Série A. Se uma das determinações, passado, presente e futuro, pode alguma vez ser aplicada a N, então uma delas sempre foi e sempre será aplicável, ainda que, é claro, nem sempre a mesma. ↩︎
"Ere yet the stars saw one another plain" é um verso do poema "The Answer" (1892), de Rudyard Kipling, e significa "antes do começo do mundo". McTaggart se refere a esse verso, é claro, mas substitui a expressão "ere yet" por "before" – o que em nada altera o seu significado. (N.T.) ↩︎
Não estou afirmando, como Lotze, que uma relação entre X e Y consiste em uma qualidade em X e uma qualidade em Y – uma concepção que considero inteiramente indefensável. Afirmo que uma relação Z entre X e Y envolve a existência em X da qualidade "ter a relação Z com Y", de modo que uma diferença de relações sempre envolve uma diferença de qualidade, e uma mudança de relações sempre envolve uma mudança de qualidade. ↩︎
Essa explicação da natureza da Série A não é válida, pois envolve um círculo vicioso, visto que utiliza "foi" e "será" para explicar o Passado e o Futuro. Mas, como buscarei mostrar mais adiante, esse círculo vicioso é inevitável quando lidamos com a Série A, e constitui o fundamento sobre o qual devemos rejeitá-la. ↩︎
É notável como, cada vez mais, e a partir de avanços em Física, tem-se defendido essa segunda objeção, ainda que por vias completamente diferentes da leitura de Bradley, e completamente diferentes de qualquer idealismo. Uma introdução a ela pode ser encontrada em Rovelli, 2018, cap. 3, onde penso que a explicação seja bastante intuitiva. Grosso modo, pode-se derivar da Teoria da Relatividade Especial que o que entendemos por "presente" se reduz ao presente expandido – aquilo que não é nem passado e nem futuro, mas existe –, e, assim, há múltiplos presentes, múltiplos passados e múltiplos futuros, relativos a entes localizados, de modo que a estrutura temporal do universo seria melhor representada a partir de cones (diagramas tridimensionais de coordenadas quadridimensionais que limitam a propagação de luz e informação a partir de um ponto), onde se define uma ordem parcial entre eventos do universo, mas incompleta. Os defensores contemporâneos dessa tese, ao contrário de McTaggart, aceitariam que nenhum presente é o presente, e que nenhum tempo é o tempo, e que, com isso, não há presente universal. Parece-me claro que o corolário disso seria que o presente é menos real do que o tempo. (N.T.) ↩︎
Seguindo a nota acima, essa afirmação é falsa, pois a Teoria da relatividade especial – de onde se deriva o corolário de que o presente é menos real do que o tempo, e que a estrutura temporal é melhor representada a partir de cones, que expressam exatamente a multiplicidade de séries – foi publicada em 1905 por Albert Einstein. Isso, por mais que o tópico da pluralidade de séries temporais ainda não tivesse sido desenvolvido, parece-me sim uma razão. Se, à época, ela era desconhecida ou ignorada por McTaggart, provavelmente não há como se saber. (N.T.) ↩︎
Começa, aqui, a parte destrutiva da prova. Defendeu-se que tempo implica mudança e que mudança implica em Série A; agora, o objetivo é provar que a Série A implica contradição, e assim, por sucessivos modus tollens, concluir que o tempo não existe. I.e., brutamente expresso em Lógica Proposicional Clássica, onde T denota "a realidade do tempo", M denota "a realidade da mudança" e A denota "a realidade da Série A":
(T ⊃ M)
(M ⊃ A)
(A ⊃ ⊥)
¬A (de 3)
¬M (de 2 e 4)
¬T (de 1 e 5)
A parte construtiva compreende as linhas 1 e 2, enquanto a parte destrutiva compreende a linha 3, da qual segue 4, 5 e 6. (N.T.) ↩︎
Houve quem sustentasse que o presente é o que quer que seja simultâneo à asserção de sua presentidade; o futuro, o que quer que seja posterior à asserção de sua futuridade; e o passado, o que quer que seja anterior à asserção de sua passadidade. Mas essa teoria envolve que o tempo existe independentemente da Série A, e é incompatível com os resultados que já alcançamos. ↩︎
É muito comum apresentar o Tempo sob a metáfora de um movimento espacial. Mas seria este um movimento do passado para o futuro, ou do futuro para o passado? Se a Série A for tomada como uma série de qualidades, será naturalmente entendida como um movimento do passado para o futuro, uma vez que a qualidade da presentidade pertenceu aos estados passados e pertencerá aos estados futuros. Se a Série A for tomada como uma série de relações, é possível considerar o movimento em qualquer direção, já que qualquer um dos dois termos relacionados pode ser tomado como aquele que se move. Se os eventos forem vistos como se movendo por um ponto fixo de presentidade, o movimento é do futuro para o passado, dado que os eventos futuros são aqueles que ainda não passaram pelo ponto, e os passados são aqueles que já passaram. Se a presentidade for tomada como um ponto móvel sucessivamente relacionado a cada um de uma série de eventos, o movimento é do passado para o futuro. Dizemos, assim, que os eventos vêm do futuro, mas dizemos que nós mesmos nos movemos em direção ao futuro. Pois cada homem se identifica especialmente com o seu estado presente, em oposição ao seu futuro ou ao seu passado, já que o presente é o único do qual ele tem experiência direta. E assim o eu, se for retratado de algum modo como se movendo, é retratado como se movendo com o ponto de presentidade ao longo do fluxo de eventos, do passado para o futuro. ↩︎
Inventada por E. R. Clay e desenvolvida por William James, a noção de "presente especioso" [specious present], não concebendo o presente como algo ínfimo entre o passado e o futuro, mas como um bloco, surge para dar conta da suposta infinita divisibilidade do presente e de sua duração aparentemente nula. "Em suma, o presente habitualmente conhecido não é uma lâmina de faca, mas uma sela de montaria, com uma certa largura própria sobre a qual nos sentamos, e da qual olhamos nas duas direções do tempo. A unidade de composição da nossa percepção do tempo é uma duração que possui, por assim dizer, uma proa e uma popa – uma extremidade voltada para trás e outra voltada para frente. É apenas como partes deste bloco de duração que a relação de sucessão de uma extremidade à outra é percebida. Não sentimos primeiro uma extremidade e então a outra depois dela, para então, a partir da percepção da sucessão, inferir um intervalo de tempo entre ambas; antes, parece que sentimos o intervalo de tempo como um todo, com suas duas extremidades nele encravadas." (James, 1890, pp. 609-610; em português, aqui) (N.T.) ↩︎
Arquipélago Filosófico, Vol. 2, No. 12 (2026), e-012
ISSN 3086-1136
Informações do Artigo
Artigo: J. M. E. McTaggart, A irrealidade do tempo
Autor(es): Arquipélago
Data: 01 Mai 2026
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