Gilson Olegario da Silva, Breve análise e tradução de “A superação da metafísica pela análise lógica da linguagem”, de Rudolf Carnap
Arquipélago
Gilson Olegario da Silva é doutor em filosofia pela UNICAMP. A sua tradução do texto de Carnap foi revisada pelo professor Róbson Ramos dos Reis, da UFSM.
As traduções para o português de textos de positivistas lógicos proliferaram nos últimos anos. Algum terreno já fora coberto. O volume 44 da coleção “História das Grandes Ideias do Mundo Ocidental” — mais conhecida como “Coleção Os Pensadores” — disponibilizou várias traduções de Carnap em 1975.1 Dispúnhamos então de “Pseudoproblemas na filosofia” (1928); “Testabilidade e significado” (1936/37); “Empirismo, semântica e ontologia” (1950); “Significado e sinonímia nas linguagens naturais” (1955) e “O conceito metodológico dos conceitos teóricos” (1956). O “Manifesto” foi traduzido por Fernando Fleck em 1986 e pode ser encontrado neste site.2 Um leitor de língua portuguesa interessado na filosofia positivista tem aí uma amostra razoável. Ainda assim, os tópicos abordados pelos positivistas lógicos ainda permanecem bastante desconhecidos do público geral, e até mesmo daquele especializado.
Dentre os artigos clássicos de Carnap, faltavam poucos a serem traduzidos. Era o caso do texto publicado a seguir, que apareceu originalmente em 1932 na revista Erkenntnis.3 A tradução oferecida aqui foi concluída em 2007, com base em uma mais antiga, mimeografada, devida a A. P. Filho, feita em 1981, que circulava no corredor do Departamento de Filosofia na Universidade Federal de Santa Maria. Foi revisada e reestruturada em 2009, cotejando o texto original em alemão — o que significou, propriamente, uma nova tradução. Teve uma breve circulação na internet, mas nunca fora propriamente publicada. Nesse intercurso publicou-se no Brasil uma tradução feita com base na versão em inglês por William Steinle em 2009. Mais recentemente, uma outra tradução, por Antonio Ianni Segatto, em 2016. Ignorantes, talvez (como eu, até há pouco), da existência de uma antiga tradução, de 1945, nos n.os 942 e 943 da revista portuguesa Seara Nova (seguida de “A linguagem física como linguagem universal da Ciência” n.os 947 e 948). Essa tradução anônima consta na lista de traduções de obras de Carnap no volume Schilpp a ele dedicado,4 mas era de difícil acesso e não estava disponível para consulta online.
Tanto monta…
“Superação” é a tentativa de Carnap de resolver o “problema da metafísica”. Qual seja: que é de “pouca monta”. “Monta”, na língua portuguesa, serve para expressar a quantidade [montante], valor ou importância de algo. No sul do Brasil, pode-se dizer “de pouca monta” quando um cavalo não serve para montaria. Uma outra expressão, levemente modificada [“tanto monta”], tem uma história mais antiga: serviu como lema pessoal e escudo de armas de Fernando II de Aragão, inspirado na lenda do “Nó Górdio”: ao chegar em um templo da capital do reino de Frígia, Gordion, Alexandre Magno encontrou uma canga atada com um nó intrincado. Dizia-se que aquele que fosse bem sucedido em desatá-la tornaria-se rei da Ásia. Alexandre teria desembainhado a espada e cortado o nó, dizendo: “tanto monta, cortar ou desatar”. Os positivistas lógicos diriam o mesmo da metafísica. Em vez de desatar seus nós, a análise lógica da linguagem, implementada no texto, cumpriria esta função: Tanto monta… cortar ou desatar.
“Diriam” serve aqui também para destacar que, como afirmou Alan Richardson, ninguém é mais positivista lógico no século XX; muito embora, caso ainda estivéssemos nos 50, alguns textos atuais poderiam ser facilmente classificados como trabalhos positivistas (ou empiristas) lógicos.5 O interesse pelo positivismo lógico nunca desapareceu completamente, e pode ser notado nas diversas referências a eles em artigos contemporâneos de filosofia. Sobretudo nos últimos anos, há um interesse crescente e uma tentativa de renovação da imagem disseminada de que o projeto positivista foi completamente fracassado. Esse renovado — e insistente — interesse nas obras positivistas sugere que talvez a avaliação e o anúncio da sua morte tenha sido demasiado prematuro, ou, ao menos, desproporcional.
A apresentação de um artigo clássico de Carnap não é uma tarefa simples, mesmo que a clareza das formulações do autor auxilie na tarefa. O título do artigo já é bastante descritivo, quase autoexplicativo. A esperança do positivismo nessa fase combativa6 era a de que a metafísica, por não cumprir com a exigência de “redução dos conceitos à experiência”, seria demonstrada como um empreendimento vazio e que, como tal, deveria ser superada.
Para os positivistas, a metafísica era um tipo de ocupação perigosa. Ela assumia a tarefa de solucionar os grandes — e mais antigos — problemas da filosofia, mas entregava, ao final, soluções insatisfatórias, introduzidas em meio a “sistemas filosóficos” tão ou mais complexos que os problemas que se propunha a resolver: “o topo da filosofia, o topo do topo da ciência” (“Sobre Deus e Alma”, p. 1). O positivismo reagiu à disparidade entre essa pretensão e o produto final de um modo mais radical que os antimetafísicos anteriores, não mais as recusando como falsas, mas como sem sentido (“Superação”, p. 2; “Sobre Deus e Alma”, p. 1).
“Superação” é, nesse sentido, um artigo programático. Esboça parte do trabalho de inspeção e, caso bem sucedido, fornece um passo a mais na retirada da maiúscula da {M}etafísica.7 Desencumbidos de perseguir as promessas da metafísica, os filósofos estariam livres para desenvolver uma filosofia mais próxima ao espírito das ciências naturais e inspirados nas suas qualidades: uma filosofia científica. Esse programa envolvia uma dupla tarefa e tinha como objetivo produzir dois resultados principais: o positivo, que envolvia a explicitação da conexão lógico-formal e epistemológica entre os conceitos do domínio da ciência empírica; e o negativo, na demonstração de que a metafísica seria composta majoritariamente por pseudossentenças (“Superação”, p. 2).
A possibilidade de superação da metafísica direciona uma proposta positiva de transformação da tarefa da filosofia. Não mais ocupada em fundar sistemas grandiosos, mas — como dando “um passo atrás” — em esclarecer a linguagem e diagnosticar se os problemas apresentados em tal linguagem seriam solucionáveis. Tal procedimento, contudo, não é isento de consequências normativas. Muito do que era considerado filosofia deveria ser excluído do domínio. Em vista da vinculação tradicional com teorizações metafísicas, sugeriu-se inclusive recusar o próprio termo “filosofia” como descritivo da tarefa realizada pelos positivistas:
não damos nenhuma resposta às questões filosóficas, em vez disso, rejeitamos todas as questões filosóficas, sejam elas de Metafísica, Ética ou Epistemologia. Nossa preocupação é com a análise lógica. Se essa ocupação deve ainda ser chamada de Filosofia, que assim seja; mas isso envolve excluir de consideração todos os problemas tradicionais da Filosofia. (CARNAP, 1931, p. 21-22)
O ataque de Carnap à metafísica pretendia-se bastante destrutivo, não apontava apenas à incognoscibilidade8 ou falsidade das afirmações metafísicas, mas à sua completa falta de sentido. Essa acusação de falta de sentido e a consequente restrição do domínio da filosofia produziu, como era esperado, muitas reações negativas.
O que se pretendia com o diagnóstico de “falta de sentido” era qualificar a falta de sentido cognitivo da metafísica: ou seja, a metafísica não era privada da capacidade de produzir efeitos psicológicos motivadores, ou mesmo prover boas imagens mentais, mas falhava em produzir qualquer conteúdo declarativo. Essa reserva já estava incluída na seção 7 do “Superação”, mas, provavelmente em função das reações negativas, é reiterada por Carnap nos comentários adicionados em 1957 (que, por essa relevância, foram incluídos também nesta tradução — mesmo que não constem na primeira versão).9
Carnap e outros positivistas lógicos reconhecem que no uso cotidiano da linguagem, as palavras são sempre acompanhadas de imagens e sentimentos, e que esse é um fato relevante para, por exemplo, a pragmática da linguagem.10 No entanto, preocupados com uma teoria do conhecimento que valoriza primariamente o significado informativo dos conceitos, a presença da conotação pictórica das palavras, ou seja, as imagens e sentimentos que acompanham seu uso, é logicamente irrelevante para o conteúdo declarativo das sentenças e não podem, portanto, substituir o papel das definições como aquilo que provê significado cognitivo a elas. A definição de um termo, a afirmação do seu sentido, é equivalente a uma regra sintático-semântica que governa seu emprego (cf. FEIGL, 1943, p. 8). O significado das palavras consiste na forma como elas são usadas, como são conectadas entre si e como são, finalmente, relacionadas à experiência.11
A falha na capacidade de apresentar a redução dos termos àquilo que é experienciável é a ferramenta disposta no texto para rejeitar a metafísica como disciplina adequada para produzir conhecimento. A exigência de redução dos conceitos à experiência é também feita aos conceitos da ciência, mas, principalmente, aos da metafísica.12 Como empiristas, exigiam que a linguagem da ciência fosse restringida em certo grau: a admissão dos predicados descritivos e das sentenças sintéticas era restrita à possibilidade de demonstrar a sua conexão com a observação (cf. CARNAP, 1936, p. 33).
O desenvolvimento dos detalhes dessa exigência de modo a excluir a metafísica e não excluir as partes mais abstratas da ciência, ocupou Carnap por toda sua carreira.13 As complicações em esclarecer tal critério de modo adequado levou a um significativo enfraquecimento da atitude de rejeição tout court da metafísica. Esse movimento de enfraquecimento pode ser percebido, por exemplo, na resposta de Carnap a Charles Morris:
Em períodos anteriores, às vezes, fiz tentativas de explicar o termo “filosofia”. O domínio desses problemas que propus chamar de “filosóficos” tornou-se passo a passo mais abrangente, como Morris indicou. No entanto, nenhuma das minhas tentativas me pareceu totalmente satisfatórias, mesmo quando as propus; e não gostava muito mais das explicações propostas por outros. Finalmente, desisti da busca. Concordo com Morris que é insensato tentar essa explicação porque cada uma delas é mais ou menos artificial. Parece melhor deixar o termo “filosofia” sem linhas de fronteira rígidas e apenas propor a inclusão ou exclusão de certos tipos de problemas. (CARNAP, 1963, p. 862)
Por mais que não fosse o único, muito menos o principal, objetivo ao qual os positivistas se dedicaram,14 a imagem de detrator da metafísica permaneceu vinculada ao movimento e é a característica pela qual é, ainda hoje, imediatamente identificado. Essa vinculação não é gratuita, como bem avaliou Feigl (1943), mas reflexo da radicalidade da atitude combativa inicial, que ganha expressão em “Superação”.
Um movimento jovem e agressivo em seu zelo por purgar o pensamento de confusões e entidades supérfluas naturalmente brande armas mais destrutivas do que as exigidas por seu esforço genuinamente construtivo. Mas esse é um acidente sócio-psicológico que com o tempo se tornaria menos importante. O futuro do empirismo depende de sua capacidade de evitar tanto as falácias redutivas de um positivismo de pensamento limitado [narrow-minded] — estigmatizado como negativismo — quanto as falácias sedutoras da metafísica. (FEIGL, 1943, p. 4)
Por certo, a recepção positivista gerou controvérsias; mais que isso, foi vivamente repudiada.15 Expurgada da magia promovida pela metafísica, pensava-se, e substituída pela construção de um mundo baseado na lógica e na observação, produziríamos um mundo pouco atrativo e um tipo de filosofia tão sóbria ao ponto de tornar-se demasiado empobrecida. A perspectiva positivista era, ao contrário, que o reconhecimento dessa sobriedade livraria a filosofia de perder-se em teorizações estéreis que bloqueariam o seu progresso. Essas duas perspectivas claramente encaminharam-se a uma colisão e deram o tom das disputas do início do séc. XX em diante.16 A avaliação de quem saiu vitorioso e, principalmente, de como as consequências dessas disputas ainda influenciam os debates contemporâneos é um terreno fértil de investigação. É relevante, portanto, inteirar-se delas e, preferencialmente, com os textos originais.
Bem como à época, o leitor atento não passará incólume pelo texto, e certamente reagirá; talvez em discordância. Contudo, a possibilidade dessa discordância é, certamente, um privilégio providenciado pela clareza do autor.
Referências
AYER, A. J. (ed.). Logical positivism. Glencoe: Free Press, 1959.
CARNAP, R. Der logische Aufbau der Welt. Berlin: Weltkreis, 1928. Trad.: The logical structure of the world. Berkeley: University of California Press, 1967.
CARNAP, R. Die physikalische Sprache als Universalsprache der Wissenschaft. Erkenntnis, v. 2, p. 432–465, 1931.
CARNAP, R. Überwindung der Metaphysik durch logische Analyse der Sprache. Erkenntnis, v. 2, p. 219–241, 1932.
CARNAP, R. Philosophy and logical syntax. London: Kegan Paul, 1935.
CARNAP, R. Testability and meaning. Philosophy of Science, v. 3, n. 4, p. 419–471, 1936.
CARNAP, R. Intellectual autobiography. In: SCHILPP, P. A. (ed.). The philosophy of Rudolf Carnap. La Salle: Open Court, 1963. p. 1–84.
CARNAP, R. Replies and systematic expositions. In: SCHILPP, P. A. (ed.). The philosophy of Rudolf Carnap. La Salle: Open Court, 1963. p. 859–1013.
CARUS, A. W. Carnap and twentieth-century thought. Cambridge: Cambridge University Press, 2007.
FEIGL, H. Logical empiricism. In: RUNES, D. D. (ed.). Twentieth century philosophy. New York: Philosophical Library, 1943. p. 371–416. Republicado em: FEIGL, H.; SELLARS, W. (eds.). Readings in philosophical analysis. New York: Appleton-Century-Crofts, 1949.
PERSSON, J. Carnap on metaphysics. Lund: Lund University, 2017.
RICHARDSON, A. W. “That sort of everyday image of logical positivism”: Thomas Kuhn and the decline of logical empiricist philosophy of science. In: RICHARDSON, A.; UEBEL, T. (eds.). The Cambridge companion to logical empiricism. Cambridge: Cambridge University Press, 2007. p. 346–369.
SCHLICK, M.; CARNAP, R. Coletânea de textos. São Paulo: Abril Cultural, 1975. (Os Pensadores, v. 44).
Notas
SCHLICK, M.; CARNAP, R. Coletânea de textos. São Paulo: Abril Cultural, 1975. (Os pensadores, v. 44). A primeira edição em conjunto com textos de Popper e Schlick, a segunda e terceira apenas com este último.
Além desses textos, traduzi outros dois: «Da epistemologia à lógica da ciência». Disputatio. Philosophical Research Bulletin 1:1 (2012), pp. 131–135; e «W. V. Quine sobre a verdade lógica». Disputatio. Philosophical Research Bulletin 5:6 (2016), pp. 445–455.
CARNAP, R. Überwindung der Metaphysik durch logische Analyse der Sprache. Erkenntnis, v. 2, p. 219–241, 1932.
SCHILPP, P. A. (ed.). The philosophy of Rudolf Carnap. La Salle: Open Court, 1963, p. 1035.
“No século XXI, ninguém se identifica como empirista lógico. Há, é verdade, filósofos cujo trabalho guarda semelhanças relevantes com o daqueles — e que, caso tivesse sido produzido nos anos 1950, seria sem dúvida reconhecido como tal.” RICHARDSON, A. W. In: RICHARDSON, A.; UEBEL, T. (eds.). The cambridge companion to logical empiricism. Cambridge: Cambridge University Press, 2007, p. 346.
É comum identificar na fase inicial do positivismo lógico, ainda concentrada em delimitar-se como um programa, uma preocupação maior em contrastar-se tanto com a herança do positivismo clássico, quanto com as escolas metafísicas que possuíam grande influência e reconhecimento na época. Mais tarde, a preocupação com problemas endógenos e a dispersão dos membros do Círculo — grande parte em função das perseguições realizadas antes da segunda guerra — refreou esse ímpeto inicial.
“M!”, simples e direta condenação, foi sugerida a Neurath, como substituição de “metafísica”, enquanto lia-se, linha por linha, o Tractatus de Wittgenstein. Neurath logo substituiu por “não-M”, para reduzir a quantidade de interrupções. Cf. PERSSON, J. Carnap on metaphysics. Lund, 2017, p. 5.
“... nem um deus nem um diabo pode nos dar conhecimento metafísico” (“Superação”, p. 17).
De fato, ele repete em CARNAP (1963, p. 45): “Essa formulação causou muita oposição desnecessária, mesmo entre alguns desses filósofos que basicamente concordaram conosco. Só mais tarde vimos que era importante distinguir os vários componentes de significado e, portanto, dizer de maneira mais precisa que tais teses carecem de significado cognitivo ou teórico. Eles geralmente têm outros componentes de significado, por exemplo, emotivos e motivacionais.”
O uso cotidiano da linguagem é visto pelos positivistas lógicos como uma combinação de várias funções. A análise lógica seria responsável por realizar uma separação teórica entre elas, dividindo-se, conforme os graus de abstração, em “pragmática”, “semântica” e “sintaxe”. Essa separação teórica é resultante de uma necessidade prática com vistas a evitar confusões e esclarecer o emprego da linguagem, principalmente para a solução de problemas filosóficos.
“O que dá significado teórico para uma afirmação não são as imagens e pensamentos que a acompanham, mas a possibilidade de deduzir a partir dela proposições perceptivas, em outras palavras, a possibilidade de verificação.” CARNAP, R. Philosophy and logical syntax. London: Kegan Paul, 1935, p. 14.
Em “Sobre Deus e Alma”, Carnap o chama de “requerimento ‘positivista’” e menciona sua introdução por Hume e seu desenvolvimento por Mach.
O respeito estrito ao critério de verificação, por exemplo, acaba por excluir as leis (e termos) teóricas, visto que não é exatamente claro como estas poderiam ser completamente reduzidas à observação.
A tarefa negativa deveria ser um prefácio para o estabelecimento da tarefa positiva. Em CARNAP (1963, p. 21), ele reafirma que “havia concordância entre a maioria dos membros em rejeitar a metafísica tradicional. No entanto, muito pouco tempo foi desperdiçado na polêmica contra a metafísica”.
“No mundo intelectual mais amplo, entretanto, a reação contra o ‘positivismo lógico’ é ainda mais pronunciada. Apesar do interesse histórico recente no movimento, ele ainda é considerado com um desdém quase universal. Ele funciona como uma espécie de ‘outro’ nas ciências humanas e sociais, contra o qual a posição de quase qualquer um pode ser identificada ou definida.” CARUS, A. W. Carnap and twentieth-century thought. Cambridge: Cambridge University Press, 2007, p. 6.
“Os tough-minded e os tender-minded [...] são tipos perenes, perenemente antagônicos.” FEIGL (1943), p. 3.
- Introdução
- O significado das palavras
- Palavras metafísicas sem significado
- O sentido de uma sentença
- Pseudossentenças metafísicas
- O sem sentido da metafísica
- A metafísica como expressão de uma atitude para com a vida
1. Introdução
Desde os céticos gregos até os empiristas do século XIX, existiram muitos opositores da metafísica. Críticas de diversos tipos têm sido apresentadas. Muitos declararam que a doutrina da metafísica é falsa, pois contradiria o conhecimento empírico. Outros consideraram-na incerta, pois seus problemas ultrapassam os limites do conhecimento humano. Muitos antimetafísicos declararam que a ocupação com questões metafísicas é estéril. Se essas questões podem ou não ser respondidas, de qualquer forma é desnecessário preocupar-se com elas; devotemo-nos inteiramente às tarefas práticas que afrontam os homens ativos a cada dia!
O desenvolvimento da lógica moderna tornou possível dar uma nova e mais aguda resposta à questão da validade e justificação da metafísica. As investigações da “lógica aplicada” ou da “teoria do conhecimento”, que se colocam a tarefa de esclarecer, através da análise lógica, o conteúdo cognitivo das sentenças científicas e, dessa forma, o significado das palavras que ocorrem nessas sentenças (“conceitos”), levam a um resultado positivo e a um negativo. O resultado positivo é alcançado no domínio da ciência empírica; são esclarecidos os vários conceitos dos diferentes ramos da ciência; sua conexão lógico-formal e epistemológica é explicitada. No domínio da metafísica (incluindo toda filosofia do valor e a ciência normativa), a análise lógica produz o resultado negativo de que as pretensas sentenças nesse domínio são inteiramente sem sentido. Desse modo, se alcança uma superação radical da metafísica, de uma forma que ainda não era possível a partir das posições antimetafísicas anteriores. É verdade que ideias relacionadas já podiam ser encontradas em linhas mais antigas de reflexão, por exemplo, nas de tipo nominalista. Apenas agora, em que nas últimas décadas o desenvolvimento da lógica possibilitou uma ferramenta de precisão suficiente, o passo decisivo pôde ser dado.
Ao dizer que as assim chamadas sentenças da metafísica são sem sentido, entendemos essa palavra em seu sentido rigoroso. Em um sentido não rigoroso, às vezes se diz que uma sentença ou uma pergunta não tem sentido se é inteiramente estéril enunciá-la ou perguntá-la (por exemplo, a pergunta: “qual é o peso médio daqueles habitantes de Viena cujo telefone termina com três?”), ou se é uma sentença obviamente falsa (por exemplo, “Viena tinha 6 habitantes em 1910”), ou se é não apenas empiricamente, mas logicamente falsa, ou seja, contraditória (por exemplo, “as pessoas A e B são, ambas, um ano mais velhas que a outra”). Tais sentenças realmente têm sentido, apesar de infrutíferas ou falsas; pois somente sentenças com sentido podem ser divididas em (teoricamente) frutíferas e infrutíferas, verdadeiras e falsas. Em sentido estrito, contudo, é sem sentido uma sequência de palavras que, em uma linguagem específica, não constitui uma sentença. Pode acontecer que, à primeira vista, uma tal sequência de palavras pareça ser uma sentença; nesse caso, chamemo-la de pseudossentença. Nossa tese, agora, é que a análise lógica revela que as pretensas sentenças da metafísica são pseudossentenças.
Uma linguagem consiste em um vocabulário e uma sintaxe, isto é, um conjunto de palavras que têm significado e regras de formação de sentenças; tais regras indicam como sentenças podem ser formadas a partir de palavras de vários tipos. De acordo com isso, existem duas espécies de pseudossentenças: as que contêm uma palavra que, erroneamente, acredita-se ter sentido, e aquelas cujas palavras constituintes possuem significado, todavia estão arranjadas em uma forma contrassintática, de modo que não formam uma sentença com sentido. Veremos que exemplos de pseudossentenças de ambos os tipos ocorrem na metafísica. Mais tarde, deveremos considerar as razões que apoiam nossa afirmação de que, em seu conjunto, a metafísica consiste de tais pseudossentenças.
2. O significado de uma palavra
Quando uma palavra (dentro de uma linguagem determinada) tem um significado, costuma-se também dizer que designa um “conceito”: se ela somente parece ter significado quando realmente não tem, falamos de um “pseudoconceito”. Como pode ser explicada a origem de um pseudoconceito? Cada palavra não foi introduzida na linguagem apenas para expressar algo determinado, de modo que tivesse um significado definido desde o início de seu uso? Então como pode uma linguagem tradicional conter palavras sem significado? É certo que originalmente cada palavra (excetuando raros casos que ilustraremos mais tarde) tinha um significado. Ao longo do desenvolvimento histórico, frequentemente, uma palavra muda seu significado. Também acontece, às vezes, de uma palavra perder seu antigo significado sem adquirir um novo. Assim surge um pseudoconceito.
No que consiste, então, o significado de uma palavra? Que estipulações concernentes a uma palavra devem ser feitas para que ela seja significativa? (Não interessa para nossa consideração se essas estipulações são feitas explicitamente, como no caso de algumas palavras e símbolos da ciência moderna, ou se houve uma concordância tácita, como é o caso da maioria das palavras da linguagem comum). Primeiro, a sintaxe da palavra deve ser fixada, isto é, o modo de sua ocorrência na forma sentencial mais simples em que pode ocorrer. Chamemos essa forma sentencial de sentença elementar. A forma sentencial elementar para a palavra “pedra” é, por exemplo, “x é uma pedra”; nas sentenças dessa forma, uma designação da categoria de coisas ocupa o lugar de “x”, por exemplo, “este diamante”, “esta maçã”. Em segundo lugar, para uma sentença elementar S contendo a palavra, uma resposta deve ser dada às seguintes questões, que podem ser formuladas de várias maneiras:
- De que sentenças S é derivada e que sentenças são derivadas de S?
- Sob que condições S deve ser verdadeira e sob que condições, falsa?
- Como S pode ser verificada?
- Qual é o sentido de S?
(1) é a formulação correta, a formulação (2) concorda com o modo de falar da Lógica, (3) com o modo de falar da teoria do conhecimento, (4) com aquele da filosofia (fenomenologia). Que (2) expressa o que os filósofos querem dizer com (4), foi enunciado por Wittgenstein: o significado de uma sentença consiste em sua condição de verdade. [(1) é a “formulação metalógica”; uma descrição detalhada da metalógica como uma teoria da sintaxe e do sentido, isto é, das relações de derivação, será dada mais tarde, em outro lugar.]
No caso de muitas palavras, especificamente no caso da grande maioria das palavras das ciências, é possível especificar seu significado pela redução a outras palavras (“constituição”, definição). Por exemplo: “‘artrópodes’ são animais com corpos articulados, extremidades articuladas e corpo coberto de quitina”. Dessa forma, a supramencionada questão sobre a forma da sentença elementar da palavra “artrópodes”, que trata da forma da sentença “a coisa x é um artrópode”, está respondida; foi estipulado que uma sentença dessa forma é reduzida de premissas da forma “x é um animal”, “x tem corpo articulado”, “x tem extremidades articuladas”, “x tem o corpo coberto de quitina”, e que, inversamente, cada uma dessas sentenças deve ser derivada daquela sentença. Por meio de estipulações sobre a derivabilidade (em outras palavras: sobre o critério de verdade, sobre o método de verificação, sobre o sentido) da sentença elementar sobre “artrópodes”, o significado da palavra “artrópode” é fixado. Assim, cada palavra da linguagem é reduzida a outras palavras, e, finalmente, às palavras que ocorrem nas assim chamadas “sentenças observacionais” ou “sentenças protocolares”. É por meio dessa redução que a palavra adquire seu significado.
Para nossos propósitos, podemos ignorar inteiramente a questão concernente ao conteúdo e forma das sentenças primárias (sentenças protocolares), que ainda não foi definitivamente resolvida. Na teoria do conhecimento é costumeiro dizer que as sentenças primárias se referem “ao dado”; mas não há nenhum acordo na questão sobre o que é isso que é dado; às vezes, adota-se a posição de que as sentenças sobre o dado falam das qualidades mais simples do sentir e do perceber (por exemplo, “quente”, “azul”, “alegre”, e assim por diante); outros se inclinam à posição de que as sentenças primárias se referem ao conjunto de vivências e relações de semelhanças entre elas; uma opinião ainda diferente é que mesmo sentenças primárias falam de coisas. A despeito dessa diversidade de opiniões, é certo que uma sequência de palavras somente tem um significado quando suas relações de derivação a partir de sentenças protocolares são fixadas, quaisquer que sejam tais características das sentenças protocolares; e, de modo similar, que uma palavra é significativa somente se as sentenças em que podem ocorrer são redutíveis a sentenças protocolares.
Após o significado de uma palavra ser determinado por seu critério de aplicação (em outras palavras: pelas relações de redutibilidade registradas por sua sentença elementar, por suas condições de verdade, pelo método de sua verificação), a estipulação do critério destrói a liberdade de alguém decidir o que deseja “significar” com a palavra. Se a palavra deve receber um significado exato, nada menos que o critério deve ser dado; por outro lado, não pode dar mais que o critério, porque é uma determinação suficiente de significado. O significado está contido implicitamente no critério, tudo que resta a fazer é tornar o significado explícito.
Suponhamos, para fins de ilustração, que alguém inventou a palavra “babig” e mantém que há coisas que são babig e coisas que não são babig. Para testar o significado que há dessa palavra, perguntaríamos sobre seu critério: como se pode estabelecer, em um caso concreto, se uma dada coisa é babig ou não? Vamos supor, para começar, que não conseguimos a resposta dele: não há sinais empíricos de babigdade, ele diz. Nesse caso o emprego não é admissível. A pessoa que usa a palavra diz que, não obstante, há coisas que são babig e há coisas que não são babig, e que tudo o que resta ao fraco e finito intelecto do homem é um segredo eterno sobre que coisas são babig e quais não são, então tomaríamos isso como falatório vazio. Mas, talvez, ele nos assegure que gostaria de dizer algo, afinal, com a palavra “babig”. Disto, porém, aprendemos apenas o fato psicológico de que ele associou algum tipo de representação e sentimento com a palavra. No entanto, a palavra não adquire um significado por meio de tais associações. Se um critério para a palavra não é estipulado, então, as sentenças em que ocorrem não dizem nada, elas não são mais que pseudossentenças.
Em segundo lugar, aceitamos um caso quando é dado um critério para uma nova palavra, digamos, “bebig”; em particular, consideremos que a sentença “esta coisa é bebig” é verdadeira, se e somente se, a coisa é “quadrangular”. (É irrelevante, para nossas reflexões, se o critério é declarado explicitamente ou se derivamos ele da observação dos usos afirmativos e negativos da palavra). Diremos então: a palavra “bebig” tem o mesmo significado que a palavra “quadrangular”. E não permitiremos que seu usuário nos diga que, apesar disso, “pretende” alguma outra coisa com ela além de “quadrangular”; que toda coisa quadrangular é também bebig e que, inversamente, é assim somente porque a quadrangularidade é a manifestação visível da bebigdade, mas que a última é uma propriedade oculta, não observável em si mesma. Replicaríamos que após o critério ter sido fixado, o significado de “bebig” e “quadrangular” também está fixado, e que não somos mais livres para “pretender” isto ou aquilo com a palavra.
Resumamos brevemente o resultado de nossa análise. Seja “a” qualquer palavra e “S(a)” a sentença elementar em que ocorre. Então, a condição necessária e suficiente para “a” possuir significado pode ser dada por cada uma das seguintes formulações, que basicamente dizem a mesma coisa:
- Os critérios empíricos de “a” são conhecidos.
- Está determinado a partir de quais sentenças protocolares “S(a)” pode ser derivada.
- As condições de verdade para “S(a)” estão estabelecidas.
- O caminho de verificação de “S(a)” é conhecido.1
3. Palavras metafísicas sem significado
Agora pode-se mostrar que muitas palavras da metafísica não cumprem o requisito acima e são, portanto, destituídas de significado.
Tomemos como exemplo o termo metafísico “princípio” (no sentido de princípio de ser, não como princípio de conhecimento ou axioma). Vários metafísicos oferecem uma resposta à questão de qual é (o mais elevado) “princípio do mundo” (ou das “coisas”, do “ser”, do “ente”), por exemplo, água, número, forma, movimento, vida, o espírito, a ideia, o inconsciente, a ação, o bem, e assim por diante. Para descobrir o significado da palavra “princípio” nesta questão metafísica, devemos perguntar ao metafísico sob que condições uma sentença da forma “x é o princípio de y” seria verdadeira e sob que condições seria falsa; em outras palavras: pedimos pelos critérios ou pela definição da palavra “princípio”. O metafísico responde aproximadamente como segue: “x é o princípio de y” quer dizer “y surge a partir de x”, “o ser de y repousa sobre o ser de x”, “y existe em virtude de x”, e assim por diante. Essas palavras são ambíguas e indeterminadas. Frequentemente elas têm um significado claro; por exemplo, dizemos de uma coisa ou processo y que “surge a partir” de x quando observamos que coisas ou processos do tipo x são, frequentemente, ou invariavelmente, seguidos por coisas ou processos do tipo y (concepção causal no sentido de uma sucessão regular); mas o metafísico nos diz que ele não quer significar esta relação empiricamente constatável. Pois, nesse caso, suas teses metafísicas seriam sentenças meramente empíricas do mesmo tipo que as da física. A palavra “surgir” não deveria ter aqui o significado de uma relação de sequência temporal ou relação de condicionalidade, que é o que a palavra ordinariamente significa. Mesmo assim, nenhum critério é especificado para algum outro significado. Consequentemente, o suposto significado “metafísico”, em contraste com o mencionado significado empírico, não existe. Se refletirmos sobre o significado original da palavra “principium” (e da palavra grega correspondente ἀρχή [arché]) notamos o mesmo desenvolvimento. A palavra está explicitamente desprovida do significado original de “começo”; não deve mais significar o temporalmente primeiro, mas o anterior em algum outro sentido, especificamente metafísico. Os critérios para esse “aspecto metafísico”, contudo, não são oferecidos. Em ambos os casos, então, a palavra foi destituída de seu significado original sem que lhe fosse dado um novo; permanece ali a palavra como uma concha vazia. De um período antigo significativo, ela é ligada associativamente com várias representações; essas, por sua vez, associam-se a novas representações e sentimentos em um novo contexto de emprego. Mas a palavra não se torna significativa em razão disso; permanecendo sem significado enquanto nenhum caminho de verificação possa ser descrito.
Outro exemplo é a palavra “Deus”. Devemos aqui, além de considerar as variações de seu uso dentro de cada domínio, distinguir o uso linguístico em três diferentes casos ou períodos históricos que, todavia, sobrepõem-se temporalmente. No uso mitológico da linguagem, a palavra tem um significado claro. Ela (ou palavras paralelas em outras línguas) é usada algumas vezes para designar criaturas corpóreas que estão entronizadas no Monte Olimpo, no Céu ou no Inferno, e que são dotadas de poder, sabedoria, bondade e felicidade em uma extensão maior ou menor. Algumas vezes a palavra também se refere a criaturas espirituais e com alma que, na verdade, não possuem corpos do tipo humano, ainda que se manifestem, de alguma forma, nas coisas e processos do mundo visível e são, portanto, empiricamente constatáveis. No uso metafísico da linguagem, ao contrário, “Deus” designa alguma coisa supraempírica, a palavra é expressamente despida do seu significado de um ser corpóreo ou de ser espiritual inserido em algum corpo. Como não lhe é dado um novo significado, torna-se sem significado. Por certo, as coisas frequentemente se apresentam como se a palavra “Deus” possuísse significado também na metafísica. Porém, as definições construídas mostram-se pseudodefinições, sob inspeção mais detalhada. Elas levam, ou para combinações logicamente inadmissíveis de palavras (de que trataremos mais tarde), ou para outras palavras metafísicas (por exemplo, “fundamento”, “o absoluto”, “o incondicional”, “o autônomo”, “o independente”, e assim por diante), mas em caso algum às condições de verdade de suas sentenças elementares. No caso dessa palavra, nem mesmo o primeiro requisito da lógica é alcançado, que é o requisito de especificar sua sintaxe, isto é, a forma de sua ocorrência em sentenças elementares. Uma sentença elementar deveria ter aqui a forma de “x é um Deus”; mas o metafísico rejeita completamente essa forma sem especificar uma diferente, ou, se ele a aceita, não indica a categoria sintática da variável x (categorias são, por exemplo, corpos, propriedades de corpos, relações entre corpos, números etc.).
O uso teológico da linguagem, no tocante à palavra “Deus”, está entre o uso mitológico e o uso metafísico. Não há aqui um significado próprio, mas uma oscilação entre os dois usos mencionados. Muitos teólogos têm um conceito claramente empírico (em nossa terminologia, “mitológico”) de Deus. Nesse caso, não há pseudossentenças; mas a desvantagem para o teólogo reside na circunstância de que, de acordo com essa interpretação, as sentenças da teologia são empíricas e, portanto, estão sujeitas ao juízo da ciência empírica. Com outros teólogos há claramente um uso metafísico da linguagem. Por vezes, o uso da linguagem é confuso, seja porque seguem este ou aquele uso, seja porque movimenta-se por expressões que não são claramente compreendidas e que tendem para ambos os lados.
Do mesmo modo que os exemplos examinados “princípio” e “Deus”, a maioria dos outros termos especificamente metafísicos são destituídos de significado, por exemplo, “ideia”, “o absoluto”, “o incondicionado”, o “infinito”, “o ser do ente”, “não-ente”, “coisa em si”, “espírito absoluto”, “espírito objetivo”, “essência”, “ser em si”, “ser em si e para si”, “emanação”, “manifestação”, “articulação”, “o eu”, “o não eu” etc. Essas expressões estão no mesmo barco em que “babig”, nosso exemplo previamente fabricado. O metafísico diz-nos que não podem ser especificadas condições de verdade empíricas; se acrescenta que, não obstante, ele “quer dizer” algo, sabemos que isso é meramente uma alusão a representações e sentimentos associados que, entretanto, não conferem um significado à palavra. As pretensas sentenças da metafísica que contêm tais palavras não têm sentido, não dizem nada, são meras pseudossentenças. Como deve ser explicado seu surgimento histórico, investigaremos mais tarde.
4. O sentido de uma sentença
Até agora consideramos apenas aquelas pseudossentenças que contêm uma palavra sem significado. Mas há um segundo tipo de pseudossentença. Elas consistem em palavras com significado, mas arranjadas de tal modo que resultam em nenhum sentido. A sintaxe de uma linguagem especifica que combinações de palavras são admissíveis e quais são inadmissíveis. A sintaxe gramatical das linguagens naturais, entretanto, não satisfaz a tarefa da eliminação de combinações sem sentido de palavras em todos os casos. Tomemos como exemplos as seguintes sequências de palavras:
- “César é e,”
- “César é um número primo.”
A sequência (1) está formada contrassintaticamente, as regras de sintaxe exigem que a terceira posição seja ocupada, não por uma conjunção, mas por um predicado, portanto, por um substantivo (com um artigo) ou um adjetivo. A sequência de palavras “César é um general”, por exemplo, está formada de acordo com as regras sintáticas; é uma sequência de palavras com sentido, uma sentença legítima. Mas agora, a sequência de palavras (2) é, da mesma forma, correta sintaticamente, pois tem a mesma forma gramatical que a sentença recém mencionada. Não obstante, (2) é sem sentido. “Número primo” é uma propriedade de números; não pode ser atribuída, nem negada a uma pessoa. Uma vez que (2) parece ser uma sentença, mas não é uma sentença, não diz nada, nem expressa um estado de coisas subsistente, chamemos essa sequência de palavras de “pseudossentença”. O fato de que as regras de sintaxe gramatical não sejam transgredidas, facilmente conduz alguém, à primeira vista, à opinião errônea de que ainda se trata de uma sentença, apesar de falsa. Mas “a é um número primo” é falsa, se e somente se, “a” é divisível por um número natural diferente de “a” e de 1; evidentemente, é ilícito colocar aqui “César” em lugar de “a”. Esse exemplo foi escolhido porque o sem sentido é facilmente detectável. Muitas das assim chamadas sentenças da metafísica não são tão facilmente reconhecíveis como pseudossentenças. O fato de que a linguagem usual permita a formação de sequências de palavras sem significado sem violar as regras da gramática, indica que a sintaxe gramatical, de um ponto de vista lógico, é insuficiente. Se a sintaxe gramatical correspondesse exatamente à sintaxe lógica, as pseudossentenças não poderiam surgir. Se a sintaxe gramatical não diferenciasse somente as classes gramaticais dos substantivos, adjetivos, verbos, conjunções, etc., mas dentro de cada uma dessas classes fizesse as distinções adicionais que são logicamente indispensáveis, então nenhuma pseudossentença poderia ser formada. Se, por exemplo, os substantivos fossem gramaticalmente subdivididos em muitos tipos de palavras, correspondentes à designação de propriedade de corpos físicos, de números, etc., então as palavras “general” e “número primo” pertenceriam a classes gramaticais diferentes, e (2) seria tão linguisticamente incorreta como (1). Em uma linguagem corretamente construída, portanto, todas as sequências de palavras sem sentido seriam do tipo do exemplo (1). Considerações gramaticais, em certa medida, já as eliminariam; isto é, para evitar o sem sentido, seria desnecessário prestar atenção aos significados individuais das palavras para além da sua classe sintática (sua “categoria sintática”, por exemplo, coisa, propriedade de coisas, relação entre coisas, número, propriedade de número, relação entre números, e assim por diante). Se nossa tese de que as sentenças da metafísica são pseudossentenças se justifica, então a metafísica não pode ser expressa em uma linguagem construída da forma logicamente correta. Essa é a grande importância filosófica da tarefa de construir uma sintaxe lógica, tarefa da qual os lógicos no momento se ocupam.
5. Pseudossentenças metafísicas
Desejamos mostrar agora alguns exemplos de pseudossentenças metafísicas nas quais a violação da sintaxe lógica é especialmente clara, apesar de concordarem com a sintaxe histórico-gramatical. Selecionemos algumas sentenças daquela doutrina metafísica que exerce, no presente, a mais forte influência na Alemanha.2
“Pesquisado deve ser apenas o ente e mais — nada; somente o ente e além dele — nada; unicamente o ente e além disso — nada; unicamente o ente, e além do ente — nada. Que acontece com este nada? — — Existe o nada apenas porque existe o ‘não’, isto é, a negação? Ou não acontece o contrário? Existe a negação e o ‘não’ apenas porque ‘existe’ o nada? — — Nós afirmamos: o nada é mais originário que o ‘não’ e a negação. — — Onde procuramos o nada? Onde encontramos o nada? — — nós conhecemos o nada — — A angústia manifesta o nada — — Diante de que e por que nós nos angustiávamos era ‘propriamente’ — nada. Efetivamente: o nada mesmo — enquanto tal — estava aí. — — O que é este nada? O próprio nada nadifica.”
Para mostrar que a possibilidade de formar pseudossentenças é baseada em um defeito lógico da linguagem, construímos o esquema abaixo. As sentenças sob I são gramaticalmente e logicamente impecáveis, com sentido, portanto. As sentenças sob II (exceto B3) estão gramaticalmente em perfeita analogia com aquelas sob I. A forma da sentença em IIA (como pergunta e resposta) não corresponde, de fato, às exigências que devem ser postas a uma linguagem logicamente correta. Não obstante, é significativa porque é traduzível para linguagem correta. Isso se mostra na sentença IIIA, que tem o mesmo sentido de IIA. A forma da sentença IIA, então, mostra-se inconveniente porque podemos ser levados, a partir dela, por meio de operações gramaticais inobjetáveis, às formas da sentença sem sentido IIB, que são tirados da situação acima. Essas formas não poderiam ser construídas na linguagem correta da coluna III. Não obstante, sua falta de sentido não é notada à primeira vista, porque se é facilmente enganado pela analogia com as sentenças com sentido de IB. Portanto, a falha da nossa linguagem aqui constatada consiste em que, em contraste com uma linguagem logicamente correta, ela admite sequências de palavras com e sem sentido. Para cada sentença, acrescentamos uma fórmula correspondente na notação da logística; estas fórmulas permitem reconhecer de forma especialmente clara a analogia inconveniente entre IA e IIA e com isso o surgimento das formações sem sentido IIB.
Com uma inspeção mais detalhada das pseudossentenças sob II B, encontramos ainda certas diferenças. A formação de sentenças (1) baseia-se simplesmente no erro do emprego da palavra “nada” como um nome de objeto, porque na linguagem comum é corriqueiro usá-la nessa forma para construir uma sentença existencial negativa (ver II A). Em uma linguagem correta, ao contrário, não é um nome particular, mas uma certa forma lógica da sentença que serve para o mesmo propósito (ver III A). A sentença II B 2 acrescenta algo novo, a saber, a formação da palavra sem significado “nadificar”; essa sentença, portanto, é sem sentido por duas razões. Assinalamos antes que as palavras sem significado da metafísica usualmente devem sua origem ao fato de uma palavra significativa ser destituída de seu significado por estar sendo usada de modo metafórico. Aqui, ao contrário, nos defrontamos com um daqueles raros casos em que é introduzida uma nova palavra que desde o início nunca teve um significado. Do mesmo modo, a sentença II B 3 deve ser rejeitada por duas razões. No erro de usar a palavra “nada” como um nome de objeto, ela concorda com as sentenças anteriores. Mas, em adição, ela envolve uma contradição. Afinal, mesmo que fosse admissível introduzir “nada” como um nome ou descrição de um objeto, ainda assim a existência desse objeto seria negada em sua definição, considerando que a sentença (3) afirma sua existência. Essa sentença, portanto, seria contraditória, mesmo se já não fosse sem sentido.
Em vista dos erros lógicos grosseiros que encontramos nas sentenças II B, devemos ser levados a conjecturar que talvez a palavra “nada” tenha, no tratado citado, um significado inteiramente diferente do usual. E essa presunção é, outrossim, fortalecida quando lemos ali que a angústia revela o nada, que o nada em si mesmo está presente como tal na angústia. Pois aqui a palavra “nada” parece referir-se a uma certa constituição emocional, possivelmente de um tipo religioso, ou alguma outra coisa que está na base de tal sentimento. Se tal fosse o caso, os mencionados erros lógicos das sentenças II B não seriam cometidos. Mas a primeira sentença da citação, no início da seção, prova que essa interpretação não é possível. A combinação de “somente” e “e mais — nada” mostra, inconfundivelmente, que a palavra “nada”, aqui, tem o significado usual de uma partícula lógica que serve como expressão de uma sentença existencial negada. Essa introdução da palavra “nada” é, então, seguida imediatamente pela pergunta principal do tratado: “O que é este nada?”
Mas nossas dúvidas quanto a uma possível má interpretação ficam completamente dissolvidas quando notamos que o autor está claramente ciente do conflito que suas perguntas e sentenças contradizem a lógica. “Tanto a pergunta como a resposta são, no que diz respeito ao nada, igualmente contraditórias em si mesmas. — — Assim, não é preciso; pois, que a ciência primeiro rejeite o nada. A regra fundamental do pensamento a que comumente se recorre, o princípio da não-contradição, a ‘lógica’ universal, arrasa essa pergunta.” Tanto pior para a lógica! devemos abolir sua soberania: “Se assim se rompe o poder do entendimento no campo da interrogação pelo nada e pelo ser, então se decide também, com isso, o destino do domínio da ‘lógica’ no seio da filosofia. A ideia da ‘lógica’ mesma se dissolve no redemoinho de uma interrogação mais originária.” Mas estará a sóbria ciência em acordo com o turbilhão do questionamento contralógico? Para essa questão, também, já está dada a resposta: “A aparente sobriedade e superioridade da ciência se transforma em ridículo, se não leva a sério o nada.” Dessa forma, encontramos aqui uma boa confirmação de nossa tese; um metafísico, ele mesmo, chega à constatação que suas perguntas e respostas são irreconciliáveis com a lógica e o modo científico de pensar.
A diferença entre a nossa tese e aquela dos primeiros antimetafísicos está agora clara. Não enxergamos a metafísica como “mera especulação” ou como “contos de fada”. As sentenças de uma fábula não conflitam com a lógica, mas apenas com a experiência; são perfeitamente significativas, embora falsas. A metafísica nem mesmo é “superstição”; é possível acreditar em sentenças verdadeiras e falsas, mas não é possível acreditar em sequências de palavras sem sentido. As sentenças metafísicas nem mesmo são aceitáveis como “hipóteses de trabalho”; para uma hipótese é essencial uma relação de derivação com sentenças empíricas (verdadeiras ou falsas), o que é justamente aquilo que falta às pseudossentenças. Com referência à assim chamada limitação da capacidade humana de conhecimento, algumas vezes tenta-se salvar a metafísica promovendo a seguinte objeção: sentenças metafísicas não são, na verdade, verificáveis pelo homem nem por qualquer outro ser finito; não obstante, poderiam valer como conjecturas sobre as respostas que um ser com poderes de conhecimento mais altos, ou ainda, perfeitos, daria para nossas perguntas e, como tal, essas conjeturas seriam afinal dotadas de sentido. Para contrariar essa objeção, consideremos o seguinte. Se o significado de uma palavra não pode ser especificado, ou se a sequência de palavras não concorda com as regras de sintaxe, então nem mesmo se colocou uma questão, (pensemos apenas nas pseudoquestões: “esta mesa é babig?”, “o número 7 é sagrado?”, “que números são mais escuros, os pares ou ímpares?”), pois onde não há uma questão nem um ser onisciente pode dar uma resposta. Agora o objetor pode dizer: do mesmo modo que alguém que vê pode comunicar novo conhecimento a um cego, um ser mais elevado poderia talvez comunicar-nos conhecimento metafísico, por exemplo, se o mundo visível é a manifestação de um espírito. Devemos refletir aqui, sobre o que significa “novo conhecimento”. Na verdade, é concebível que possamos encontrar animais que nos informem sobre um novo sentido. Se esses seres provassem o teorema de Fermat, inventassem um novo instrumento físico ou estabelecessem uma lei da natureza desconhecida até agora, então nosso conhecimento seria aumentado com sua ajuda. Pois esse tipo de coisa pode ser testada, do mesmo modo que mesmo um cego pode entender e testar o conjunto da Física (e, portanto, todas as sentenças dos que podem ver). Mas se aqueles seres hipotéticos nos relatam algo que não podemos verificar, então tampouco podemos compreendê-los; nesse caso, nenhuma informação nos seria comunicada, apenas meros sons verbais sem sentido, ainda que possivelmente associados a representações. Segue-se que nosso conhecimento pode ser ampliado apenas quantitativamente por outros seres, não interessando se eles conhecem mais, menos ou tudo; mas nenhum conhecimento de um tipo essencialmente novo pode ser adicionado. Aquilo que nos é incerto, pode vir a tornar-se mais certo com auxílio de outro ser; mas o que é incompreensível, sem sentido, não pode se tornar dotado de sentido pela ajuda de um outro ser, não importa quão vasto seja o seu conhecimento. Portanto, nem um deus nem um diabo podem nos dar conhecimento metafísico.
6. O sem sentido de toda metafísica
Os exemplos de sentenças metafísicas que analisamos foram todos extraídos de um único tratado. Mas nossos resultados se aplicam com igual validade, de maneira literalmente idêntica, a outros sistemas metafísicos. Se o tratado cita com anuência uma sentença de Hegel (“o puro ser e o puro nada são, portanto, o mesmo”) então, está correta. A metafísica de Hegel tem exatamente o mesmo caráter lógico que esse sistema moderno de metafísica. E o mesmo vale para os demais sistemas metafísicos, mesmo que a natureza de suas aplicações da linguagem, e, portanto, o tipo de erro lógico que ocorre nelas, desvie mais ou menos do tipo que ocorre nos exemplos discutidos.
Não seria necessário aduzir exemplos adicionais de sentenças metafísicas específicas de diversos sistemas e analisá-las. Vamos nos confinar a uma indicação dos tipos de erros mais frequentes.
Talvez a maioria dos erros lógicos cometidos quando são feitas pseudossentenças baseiam-se nos defeitos lógicos vinculados ao uso da palavra “ser” em nossa linguagem (e das palavras correspondentes em outras linguagens, ao menos na maioria das europeias). O primeiro defeito é a ambiguidade da palavra “ser”. Ela é usada algumas vezes como cópula prefixada a um predicado (“Eu estou com fome”), algumas vezes para designar existência (“Eu sou”). Esse erro é agravado pelo fato de que os metafísicos frequentemente não são claros sobre essa ambiguidade. O segundo defeito está na forma do verbo em seu segundo significado, o significado de existência. A forma verbal sugere enganosamente um predicado onde não existe um. Para ser exato, há muito tempo é sabido que a existência não é uma propriedade (cf. a refutação de Kant da prova ontológica da existência de Deus). Mas não foi senão com o advento da lógica moderna que foi alcançada completa consistência neste ponto: a forma sintática pela qual a lógica moderna introduz o sinal de existência é de uma forma tal que não é permitido, como um predicado, ser aplicado para sinais de objetos, mas somente a predicados (cf. por exemplo, sentença III A, na tabela acima). Desde a antiguidade, a maioria metafísicos deixou-se levar por pseudossentenças em razão da sua forma verbal e, desse modo, pela forma predicativa da palavra “ser”, por exemplo, “Eu sou”, “Deus é”.
Um exemplo desse erro encontramos no “cogito, ergo sum” de Descartes. Não façamos caso aqui das objeções materiais que têm sido levantadas à premissa — nomeadamente, se a sentença “eu penso” expressa adequadamente o pretendido estado de coisas ou se contém, talvez, uma hypostasis —, consideremos as duas sentenças somente do ponto de vista lógico-formal. Aí observamos dois erros lógicos essenciais. O primeiro está na conclusão “eu sou”. O verbo “ser” indubitavelmente é usado aqui no sentido de existência, pois uma cópula não pode ser usada sem predicado. Na verdade, o “eu sou” de Descartes sempre foi compreendido nesse sentido, mas nesse caso a sentença viola a supramencionada regra lógica de que existência só pode ser enunciada em conexão com um predicado, não em conexão com um nome (sujeito, nome próprio). Uma sentença existencial não tem a forma “a existe” (como em: “eu sou”, isto é, “eu existo”), mas “existe algo de tal e tal tipo”. O segundo erro está na transição de “eu penso” para “eu existo”. Se a partir da sentença “P(a)” (“a tem a propriedade P”) uma sentença existencial deve ser derivada, então essa sentença pode afirmar a existência somente com respeito ao predicado P, e não com respeito ao sujeito a da premissa. De “eu sou um europeu” não segue “eu existo”, mas “um europeu existe”. De “eu penso” não segue “eu sou”, mas “há algo pensante”.
A circunstância de que as nossas línguas expressam existência por um verbo (“ser” ou “existir”) não é um defeito lógico em si mesmo, é somente inapropriado, perigoso. A forma verbal facilmente nos induz ao erro de considerar a “existência” como um predicado. Chega-se, então, a tais modos de expressão logicamente incorretos e, por conseguinte, sem sentido, como vimos há pouco. Da mesma maneira, formas como “ente”, “não-ente”, que sempre tiveram um grande papel em metafísica, têm a mesma origem. Em uma linguagem logicamente correta tais formas nem sequer poderiam ser formadas. Parece que no latim e no alemão as formas “ens” ou “seiende” foram, talvez seduzidos pelo modelo grego, introduzidas especificamente para o uso dos metafísicos. Desse modo, a linguagem deteriorou-se logicamente, enquanto se pensava corrigir um defeito.
Outra violação muito frequente da sintaxe lógica é a chamada “confusão de esferas” de conceitos. Enquanto o erro anterior consistia no uso predicativo de um símbolo com significado não predicativo, nesse outro caso, um predicado, embora usado como predicado, é usado como um predicado de outra “esfera”; temos aqui uma violação das regras da chamada “teoria dos tipos”. Um exemplo artificial é a sentença que examinamos antes: “César é um número primo”. Nomes de pessoas e palavras para números pertencem a esferas lógicas diferentes, e, de modo correspondente, são os predicados de pessoas (por exemplo, “general”) e predicados de números (“número primo”). O erro da “confusão de esferas”, diferentemente do uso previamente examinado do verbo “ser”, não é prerrogativa apenas da metafísica, mas ocorre com muita frequência também na linguagem comum. Contudo, raramente cai-se no sem sentido. E a ambiguidade das palavras em relação às esferas é de um tipo tal que pode ser facilmente removida.
Exemplo: 1. “Esta mesa é maior do que aquela.” 2. “A altura desta mesa é maior do que a altura daquela mesa.” Aqui a palavra “maior” é usada em (1) para uma relação entre objetos, em (2) para uma relação entre números, portanto, para duas categorias sintáticas distintas. O erro aqui é inofensivo; poderia, por exemplo, ser eliminado escrevendo “maior1” e “maior2”; “maior1” é definido a partir de “maior2”, e por meio disso a forma da sentença (1) é explicada como sendo a mesma de (2) (e outras similares).
Dado que a confusão de esferas não causa dano à linguagem comum, ela normalmente não é sequer percebida. Isso de fato é apropriado para o uso comum da linguagem, contudo, tem ocasionado consequências desastrosas na metafísica. Aqui, conduzidos pelo hábito da linguagem comum, somos levados a confusões de esferas, que diversamente daquelas da linguagem comum, não são mais traduzíveis em forma logicamente correta. Pseudossentenças desse tipo são encontradas de forma especialmente frequente, por exemplo, nos escritos de Hegel e Heidegger. Este último adotou muitas peculiaridades da forma de falar hegeliana e com elas também alguns defeitos lógicos (por exemplo, determinações que deveriam relacionar-se a objetos de certo tipo são, em vez disso, relacionados a uma determinação desses objetos, ou ao “ser-aí”, ou à “existência”, ou a uma relação entre esses objetos).
Concluído que muitas sentenças metafísicas são sem sentido, nos defrontamos com a questão de que não há, talvez, um montante de sentenças significativas da metafísica que permaneceriam após a eliminação de todas as que são sem sentido.
De fato, os resultados que obtivemos poderiam originar a opinião de que na metafísica há um grande perigo de cair no sem sentido, e que, contudo, se alguém quisesse fazer metafísica, poderia evitar cuidadosamente esses perigos. Mas, na realidade, não pode haver nenhuma sentença metafísica com sentido. Isso se segue da tarefa que a metafísica atribui a si mesma: descobrir e apresentar um tipo de conhecimento que não é acessível à ciência empírica.
Vimos antes que o sentido de uma sentença está no método de sua verificação. Uma sentença diz somente aquilo que nela é verificável. Por isso, uma sentença, caso enuncie algo, pode somente enunciar um fato empírico. Se algo devesse ficar em princípio além do experimentável, nem poderia ser dito, nem pensado, nem perguntado.
Sentenças (com sentido) são divididas nas seguintes espécies: primeiro, há sentenças que são verdadeiras exclusivamente em virtude de sua forma (“tautologias”, de acordo com Wittgenstein; elas correspondem aproximadamente aos “juízos analíticos” de Kant); nada dizem sobre a realidade. As fórmulas da lógica e da matemática pertencem a essa espécie; não são sentenças sobre a realidade, mas servem para a transformação de tais sentenças. Em segundo lugar, existem as negações de tais sentenças (“contradições”). São contraditórias, ou seja, falsas em virtude de sua forma. Com respeito a todas as outras sentenças, a decisão acerca da verdade ou falsidade repousa nas sentenças protocolares. São, pois, sentenças da experiência (verdadeiras ou falsas) e pertencem ao domínio da ciência empírica. Qualquer sentença que se deseja formar que não caia nessas categorias torna-se automaticamente sem sentido. Uma vez que a metafísica não quer enunciar sentenças analíticas, nem cair no domínio da ciência empírica, é compelida a empregar palavras para as quais não são especificados critérios e que são, por conseguinte, vazias de significado, ou ainda, a combinar palavras com significado de um modo tal que nem uma sentença analítica (ou contraditória), nem uma sentença empírica é produzida. Ambos os casos resultam necessariamente em pseudossentenças.
A análise lógica pronuncia então o veredito de ser sem sentido qualquer suposto conhecimento que pretenda estar além ou antes da experiência. Esse veredicto atinge em primeiro lugar qualquer metafísica especulativa, qualquer suposto conhecimento por puro pensamento ou pura intuição que pretenda ser capaz de se fazer sem a experiência. Mas o veredicto se aplica igualmente ao tipo de metafísica que, partindo da experiência, por meio de inferências especiais, queira adquirir conhecimento sobre o que está além e atrás da experiência (por exemplo, a tese neovitalista sobre a presença de uma “enteléquia” atuante em processos orgânicos, que supostamente não pode ser entendida de modo fisicalista; a questão concernente à “essência da relação causal”, como para além da constatação de certas regularidades de sucessão; a fala sobre a “coisa em si”). Além disso, o mesmo veredito vale para toda a filosofia das normas, ou filosofia do valor, sobre qualquer ética ou estética como uma disciplina normativa. Pois a validade objetiva de um valor ou norma (mesmo na opinião dos filósofos do valor) não é empiricamente verificável nem redutível a sentenças empíricas; não pode, por isso, ser expressa (em uma sentença com sentido) de maneira alguma. Em outras palavras: ou são indicados critérios empíricos para o uso de “bom” e “belo” e o resto dos predicados que são empregados nas ciências normativas, ou não são. No primeiro caso, uma sentença contendo tal predicado se torna um julgamento fatual, mas não um julgamento de valor; no segundo caso, transforma-se em uma pseudossentença. É inteiramente impossível formar uma sentença que expresse um julgamento de valor.
Finalmente, o veredicto de ser sem sentido atinge também aquelas orientações metafísicas que usualmente são chamadas, de modo impróprio, orientações epistemológicas, a saber: o realismo (na medida em que quer dizer mais do que o fato empírico de que os processos exibem uma certa regularidade, pelas quais se torna possível a aplicação do método indutivo) e seus oponentes: o idealismo subjetivo, o solipsismo, o fenomenalismo, e o positivismo (no sentido primitivo).
Mas, então, o que resta para a filosofia, se todas e quaisquer sentenças que declaram alguma coisa são de uma natureza empírica e pertencem à ciência fatual? O que fica não são sentenças, nem uma teoria, nem um sistema, mas apenas um método, o método de análise lógica. A discussão precedente ilustrou a aplicação negativa desse método: naquele contexto serve para eliminar palavras sem significado, pseudossentenças sem sentido. Em seu uso positivo, serve para esclarecer conceitos e sentenças significativas, para a fundação lógica da ciência do real e para a matemática. A aplicação negativa do método é necessária e importante na presente situação histórica. Mas, mesmo em sua prática presente, a aplicação positiva é mais fértil. Não podemos discuti-la aqui em maiores detalhes. A pesquisa de fundamentos lógicos é a tarefa indicada de análise lógica, que deve ser entendida como “filosofia científica” em contraste com a metafísica. Nessa tarefa querem trabalhar a maioria das publicações dessa revista.
A questão que considera o caráter lógico das sentenças que obtemos como resultado de uma análise lógica, por exemplo, as sentenças que ocorrem neste e noutros trabalhos lógicos, pode ser respondida aqui de modo apenas insinuado: tais sentenças são parcialmente analíticas, parcialmente empíricas. Pois essas sentenças sobre sentenças e partes de sentenças, pertencem, em parte, à pura metalógica (por exemplo, “uma sequência que consiste de um símbolo-existência e um nome de objeto não é uma sentença”), em parte à metalógica descritiva (por exemplo, “a sequência de palavras em tal e tal lugar, em tal e tal livro, é sem sentido”). A metalógica será discutida em outro lugar. Será mostrado que a metalógica que trata das sentenças de uma dada linguagem pode ser formulada naquela mesma linguagem.
7. A metafísica como expressão de uma atitude para com a vida
Nossa alegação de que as sentenças da metafísica são inteiramente sem sentido, que nada expressam, deixará mesmo aqueles que concordam intelectualmente com nossos resultados atormentados por um sentimento estranho: como pode ser explicado que tantos homens em todas as eras e nações, entre eles mentes eminentes, gastaram tanta energia, genuíno fervor desperdiçado, com a metafísica, se esta última consiste de nada senão meras palavras, arranjadas de um modo sem sentido? E como se pode explicar o fato das obras da metafísica terem exercido tão grande influência nos seus leitores até o dia presente, se nem mesmo erros contém, mas completamente nada? Essas dúvidas são justificadas uma vez que a metafísica, de fato, tem um conteúdo; apenas que não é um conteúdo teórico. As (pseudo) sentenças da metafísica não servem para a apresentação de representações, nem as que existem (neste caso seriam sentenças verdadeiras), nem as não existentes (neste caso seriam, no mínimo, sentenças falsas). Elas servem para a expressão da atitude de uma pessoa para com a vida [“Lebenseinstellung”, “Lebensgefühl”].
Podemos aceitar, talvez, que a metafísica se desenvolveu a partir da mitologia. A criança irada com “a mesa má” que lhe feriu. O homem primitivo procura reconciliar-se com o demônio ameaçador dos terremotos, ou adora a divindade das chuvas férteis com gratidão. Temos diante de nós personificações de fenômenos naturais que são a expressão quase poética da relação emocional do homem com o seu ambiente. A herança da mitologia é legada, de uma parte à poesia, que produz e intensifica os efeitos da mitologia sobre a vida, de modo deliberado; de outra, é deixada com a teologia que desenvolve a mitologia como um sistema. Qual é, agora, o papel histórico da metafísica? Talvez possamos considerá-la como um substituto da teologia ao nível do pensamento conceitual sistemático. As fontes (supostamente) transcendentes do conhecimento da teologia são substituídas, aqui, pelas fontes naturais, ainda que supostamente transempíricas do conhecimento. Em investigação pormenorizada, o mesmo conteúdo que aquele da mitologia, é aqui ainda reconhecível por trás das diferentes roupagens: descobrimos que a metafísica também surge da necessidade de dar expressão a uma atitude do homem em relação à vida, sua reação emocional e volicional ao ambiente, à sociedade, às tarefas a que ele mesmo se devota, às desventuras que lhe sucedem. Essa atitude se manifesta, muitas vezes inconscientemente, como uma regra, em tudo o que um homem faz e diz. Ela se imprime também em seus traços faciais, talvez, mesmo em seu modo de andar. Muitas pessoas, agora, sentem o desejo de criar, para além dessas manifestações, uma expressão especial de sua atitude, por meio da qual poderia tornar-se visível de um modo mais sucinto e perceptível. Se tiverem talento artístico, eles encontram na produção de uma obra de arte a possibilidade de se expressar. O modo como a atitude perante a vida manifesta-se no estilo e na forma da obra de arte, já foi esclarecida por muitos (por exemplo, Dilthey e seus alunos). (Nessa conexão a expressão “visão do mundo” [“Weltanschauung”] é usada com frequência; preferimos evitá-la em razão de sua ambiguidade, que obscurece a diferença entre atitude e teoria, uma diferença que é crucial para nossa análise). O que é essencial, aqui, para nossas considerações, é apenas o fato de que a arte é um meio adequado, a metafísica, porém, é um meio inadequado, para a expressão da atitude básica. Claro, não é preciso uma objeção intrínseca a cerca de alguém usar o meio de expressão de que goste. Mas, no caso da metafísica, encontramos esta situação: por meio da forma de seus trabalhos, pretende simular algo que não é. Essa forma é a de um sistema de sentenças que, aparentemente, estão em relação de fundamentação umas com as outras, ou seja, a forma de uma teoria. Desse modo, simula-se um conteúdo, mesmo quando, como vimos, não existe tal conteúdo. Não apenas o leitor, mas também o metafísico mesmo encontra-se no engano de que por meio das sentenças metafísicas algo é dito, de que são descritos estados de coisas. O metafísico acredita que se movimenta em território no qual verdade e falsidade estão em jogo. Na realidade, entretanto, ele nada declarou, apenas expressou algo como um artista. Não podemos concluir que o metafísico se encontre nesse engano por escolher a linguagem como meio de expressão e sentenças declarativas como a forma de se expressar; pois os poetas líricos fazem o mesmo sem sucumbir à autoilusão. Porém, o metafísico sustenta suas sentenças com argumentos, reivindica consentimento ao seu conteúdo, polemiza contra metafísicos de posição divergente, tentando refutar suas asserções em seu tratado. O poeta lírico, por outro lado, não se dá ao trabalho de refutar as sentenças de um poema escrito por algum outro poeta lírico, pois sabe que está no domínio da arte e não no domínio da teoria.
A música talvez seja o meio mais puro de expressão da atitude básica, porque é inteiramente livre de qualquer referência a objetos. O sentimento harmônico ou atitude que o metafísico tenta expressar em um sistema monista, é expresso mais claramente na música de Mozart. E quando um metafísico declara a sua atitude heroico-dualista para com a vida, em um sistema dualista, não é, talvez, porque lhe falte a habilidade de um Beethoven para expressar essa atitude em um meio adequado? Os metafísicos são músicos sem habilidade musical. Por outro lado, têm uma forte inclinação para trabalhar dentro do meio do teórico e relacionar conceitos e pensamentos. Agora, em lugar de acionar, por um lado, essa inclinação no domínio da ciência, e satisfazer, por outro, a necessidade de expressão na arte, o metafísico mistura as duas e produz uma construção que absolutamente nada faz pelo conhecimento e é inadequada para a expressão da atitude em relação à vida.
Nossa conjectura de que a metafísica é um substituto, ainda que inadequado, para a arte, parece, além disso, confirmada pelo fato de que o metafísico que talvez teve talento artístico no mais alto grau, a saber, Nietzsche, evitou quase inteiramente o erro daquela confusão. Uma grande parte de seu trabalho tem conteúdo predominantemente empírico; trata-se ali, por exemplo, de análises históricas de fenômenos artísticos específicos, ou análises histórico-psicológicas da moral. Entretanto, na obra em que expressa mais fortemente aquilo que outros expressam pela metafísica ou pela ética, em Assim falou Zaratustra, ele não escolheu a enganadora forma teórica, mas, abertamente, a forma da arte, da poesia.
Adendo à correção. Nesse meio tempo, notei, com satisfação, que uma rejeição enérgica da filosofia moderna do nada foi expressa por outros em nome da lógica. Oskar Kraus proferiu uma palestra (“Sobre tudo e nada”, Leipziger Rundfunk, 1 de maio de 1930; Philosophische Hefte 2, p. 140, 1931) referindo-se ao desenvolvimento histórico da Filosofia do nada e, em seguida, diz sobre Heidegger: “A ciência faria papel de tolo se levasse [o nada] a sério, —. Pois nada ameaça mais a reputação de toda ciência filosófica do que o ressurgimento dessa filosofia do Nada e de Tudo.” Hilbert também proferiu uma palestra (“A fundação da teoria elementar dos números”, dez. de 1930 em Philos. Ges. Hamburg, Math. Ann. 104, p. 485, 1931), sem citar o nome de Heidegger: “Em uma recente palestra filosófica, encontro a proposição ‘O nada é a negação absoluta do todo-ser dos seres’. Apesar de sua brevidade, ela ilustra todas as principais violações dos princípios estabelecidos na minha teoria da prova.”
Observações do autor (1957)
À seção 1, “metafísica”. Esse termo é usado nesse trabalho, como é usual na Europa, para designar o suposto campo do conhecimento da essência de coisas que transcende o reino da ciência indutiva empiricamente estabelecida. Nesse sentido, “metafísica” inclui sistemas como aqueles de Fichte, Schelling, Hegel, Bergson, Heidegger. Mas não inclui os esforços em direção a uma síntese e generalização dos resultados das várias ciências.
À seção 1, “sentido”. Distinguimos hoje, vários tipos de sentido, em particular sentido cognitivo (designativo, referencial), de um lado, e componentes de sentido não cognitivo (expressivo), por exemplo, emotivos e motivadores, por outro. No presente trabalho, a palavra “sentido” é sempre entendida com a interpretação de “conteúdo cognitivo”. Assim, a tese de que as sentenças da metafísica são sem sentido, deve ser entendida com a significação de que elas são desprovidas de conteúdo cognitivo, nenhum conteúdo declarativo. O fato psicológico óbvio de que têm sentido expressivo não é, por isso, negado; isto é explicitamente enunciado na seção 7.
À seção 6, “metalógica”. Esse termo se refere à teoria de expressões de uma linguagem e, em particular, de sua relação lógica. Hoje, distinguiríamos entre sintaxe lógica como a teoria das relações puramente formais e semântica como teoria do sentido e das condições de verdade.
À seção 6, “realismo e idealismo.” Que tanto as teses afirmativas quanto as negativas concernentes à realidade do mundo externo são pseudossentenças, tentei mostrar na monografia “Scheinprobleme in der Philosophie: Das fremdpsychische der Realismusstreit”, Berlim, 1928. A natureza similar das teses ontológicas sobre a realidade ou não realidade de entidades abstratas, por exemplo, propriedades, relações, proposições, é discutida em “Empiricism, semantics and ontology”, Revue Intern. de Philos. 4, 1950, 20–40, republicado em Meaning and necessity, segunda edição, Chicago, 1956.
A respeito da concepção lógica e epistemológica que fundamenta nossa exposição que apenas brevemente pode ser insinuada aqui, ver: Wittgenstein, Tractatus Logico-Philosophicus, 1922; Carnap, Der logische Aufbau der Welt, 1928; Waismann, Logik, Sprache, Philosophie (Em preparação).
As citações seguintes (itálicos no original) foram extraídas de M. Heidegger, Was ist Metaphysik?, 1929. Poderíamos ter selecionado passagens de quaisquer outros dos numerosos metafísicos, do presente ou do passado, mas as passagens selecionadas parecem-nos ilustrar nossa tese muito bem.
Arquipélago Filosófico, Vol. 2, No. 14 (2026), e-014
ISSN 3086-1136
Informações do Artigo
Artigo: Gilson Olegario da Silva, Breve análise e tradução de “A superação da metafísica pela análise lógica da linguagem”, de Rudolf Carnap
Autor(es): Arquipélago
Tradução: -
Data: 09 Mai 2026
DOI: -
Revista: -
Volume: -
Número: -
Páginas: -
ISSN: -
Citação BibTeX
Leia mais
Tamires Dal Magro, Uma caricatura do formalismo: as críticas de Lakatos a Hilbert
Tamires Dal Magro é doutora em filosofia pela UNICAMP e professora da UFPI A recepção filosófica de Provas e refutações, de Imre Lakatos, propagou uma imagem influente segundo a qual o formalismo — frequentemente associado ao programa de David Hilbert — teria reduzido a matemática a um cálculo simbólico desprovido de conteúdo,
J. M. E. McTaggart, A irrealidade do tempo
Tradução, apresentação e notas por Mikael Abrão Bombassaro (UFRGS) Apresentação Publicado pela primeira vez na revista Mind (v. 17, n. 68, pp. 457-474), em 1908, este é o artigo mais influente da obra de John McTaggart. Não seria exagerado afirmar, inclusive, que a prova da irrealidade do tempo, nele apresentada
J. J. C. Smart, O campo da filosofia
Publicamos a seguir o primeiro capítulo do livro de J. J. C. Smart, Philosophy and Scientific Realism (Londres: Routledge & Kegan Paul, 1963), intitulado “The province of philosophy”. O texto foi traduzido por Luiz Helvécio Marques Segundo (UFSJ) e revisado por Florencia Salaberry. O campo da filosofia J. J. C.
Alan Turing, Máquinas computacionais e inteligência
Alan M. Turing (1912-1954) foi um matemático e lógico britânico, pioneiro da ciência da computação. Contribuiu tanto para a formulação teórica da ideia de um computador quanto para a construção dos primeiros computadores eletrônicos, na década de 1940. Além disso, refletiu sobre as implicações filosóficas dessas máquinas. O artigo aqui