Rogério Severo, Quatro histórias, quatro filosofias
Quatro histórias, quatro filosofias
Rogério Severo (UFRGS)
John McTaggart, o filósofo inglês, terminou de escrever a sua prova da irrealidade do tempo pontualmente às 4h da tarde. Poucos se convenceram de seus argumentos. Igualmente poucos se convenceram dos argumentos contrários, ensaiados em abundância nas décadas seguintes. Talvez a metafísica seja, como escreveu Jorge Luis Borges, um ramo da literatura fantástica.
Borges, que gostava de labirintos, também se aventurou em exercícios metafísicos. Em “Los cuatro ciclos”, reduziu todas as histórias a apenas quatro, sem oferecer nenhuma prova. A força de suas palavras depende inteiramente da perspicácia de seus exemplos. A primeira história, mais antiga, é a do cerco a uma cidade, como Tróia, na Ilíada. Temos também a história de um regresso, como na Odisseia, a de uma busca, como a de Jasão, e a história do sacrifício de um deus, como as de Odin e de Jesus.
A partir de Borges, podemos inferir, por indução analógica, que também são quatro as filosofias. A primeira, mais antiga, é a que termina em aporias. Como nas histórias de cidades sitiadas, essas filosofias terminam com o aniquilamento de quase todos os que buscam destruir ou defender algum domínio, território ou tese. Os paradoxos de Zenão, os exercícios socráticos, os paralogismos e antinomias de Kant e a filosofia da mecânica quântica pertencem a essa categoria.
Outra, que decorre psicologicamente da primeira, é a filosofia da volta para casa, do regresso ao senso comum e da conquista de uma segunda ingenuidade, na velhice, como lemos em Thoreau, no segundo Wittgenstein, nos filósofos da linguagem vulgarmente chamada de “ordinária” e no espantoso Tao Te Ching, de Lao Tsé.
A terceira é a metafísica, que faz o caminho contrário da anterior. Nela o senso comum e a ingenuidade são rechaçados, em troca de alguma teoria máxima, uma explicação total. No Platão tardio, no Hegel juvenil e no Russell jovem e velho encontramos essa húbris aventureira. Desde o século passado, essa busca só termina em fracassos. Em Heidegger, a ontologia se multifacetou em uma pluralidade de modos de ser; e em Quine, na falibilidade indutiva da ciência e na indeterminação da tradução.
A quarta filosofia é a da morte da metafísica. Hume, o diplomata, ateia fogo às inferências causais necessárias. Carnap, o tolerante, repudia pseudoafirmações, questões externas e a significatividade cognitiva da ética, da estética e de boa parte da religião. Como nas histórias do sacrifício de um deus, não é incomum um renascimento suceder à morte. O ceticismo da Primeira Meditação, de Descartes, é sucedido, na Terceira, por uma prova da existência de Deus. O idealismo transcendental de Kant foi despertado de seu sono dogmático por Hume. E da filosofia de Carnap descendem Quine e os metafísicos naturalistas.
Quatro são as histórias, quatro são as filosofias. Durante o tempo que nos resta, seguiremos elaborando-as, transformadas.
Arquipélago Filosófico, Vol. 2, No. 32 (2026), e-032
ISSN 3086-1136