Breno Franco, La Rochefoucauld: uma anatomia do coração humano

Breno Franco, La Rochefoucauld: uma anatomia do coração humano
Capa do livro resenhado

Resenha, por Breno Franco (doutorando, UFRGS), das Reflexões ou sentenças e máximas morais de La Rochefoucauld, publicada originalmente em 1664 e traduzida ao português por Rosa Freire D’Aguiar (Penguin/Companhia das Letras, 2014).


La Rochefoucauld: uma anatomia do coração humano

Breno Franco

Não é tão fácil discernir o fio da meada das mais de 500 máximas que compõem as Reflexões ou sentenças e máximas morais[1] do duque de La Rochefoucauld, publicadas em diversas edições entre 1664 e 1678. Pode parecer que se trata apenas de uma coleção desarticulada de observações pontuais sobre os pequenos vícios da vida em sociedade[2], uma coletânea de “ditos agudos” bem ao gosto dos divertimentos de salão do século XVII. Porém, se as percorremos com o devido cuidado, essas máximas se revelam algo bem mais interessante do que isso: por detrás das “rabugens de pessimismo” do velho duque, pode-se discernir uma imagem da condição humana cuja unidade e interesse uma leitura casual não é capaz de revelar.[3]

O assunto central desse pequeno livro, presente de uma maneira ou de outra da primeira à última página, é a psicologia da ação humana. O que verdadeiramente explica nossas ações? La Rochefoucauld se opõe tanto ao senso comum quanto à tradição filosófica que o precede, que tendem ambos a enfatizar, na explicação do comportamento humano, o caráter dos agentes e as suas intenções conscientes. Em particular, o foco das análises de La Rochefoucauld está nas ações que ordinariamente são tidas por virtuosas. Imaginemos, por exemplo, um soldado que não hesita em se expor a grandes perigos em batalha sempre que a ocasião parece demandá-lo, ou então um imperador que, ao descobrir uma conspiração para derrubá-lo do trono, opta por perdoar os traidores em vez de condená-los à morte. Diríamos provavelmente que as ações de ambos são expressivas de seu caráter e que o primeiro faz o que faz por ser corajoso e o segundo, por ser clemente. Diríamos também, provavelmente, que ambos agem desinteressadamente, motivados pelo bem alheio ou, em casos como esses, pelo bem comum. É realmente isso, porém, o que está por trás de tais ações?

Sucintamente capturada na memorável epígrafe – “Nossas virtudes não são, na maioria das vezes, mais que vícios disfarçados” –, mas de modo algum redutível a ela, a resposta que La Rochefoucauld elaborou ao longo das sucessivas edições da obra é que os fatores verdadeiramente explicativos de tais ações, e das ações humanas de modo geral, são invariavelmente mais recônditos e, na maioria das vezes, muito menos lisonjeiros do que se costuma pensar. Sobre a coragem, por exemplo, La Rochefoucauld escreve:

O amor da glória, o medo da vergonha, o propósito de fazer fortuna, o desejo de tornar nossa vida cômoda e agradável e a vontade de rebaixar os outros são frequentemente as causas dessa coragem tão celebrada entre os homens. (§ 213)[4]

E sobre a clemência:

Essa clemência da qual se faz uma virtude se pratica às vezes por vaidade, outras por preguiça, frequentemente por medo, e quase sempre por todos os três juntos. (§ 16)[5]

Essas observações não têm, ou ao menos não parece ter[6], por propósito mostrar que não há ações verdadeiramente corajosas ou verdadeiramente clementes, mas apenas que elas são muito mais raras do que costumamos pensar[7], pelo menos “neste estado deplorável da natureza corrompida pelo pecado” (1976, p. 41).

Um tema central da obra é que a ação humana é em geral, e talvez mesmo sempre, motivada sorrateiramente pelo “amor próprio” ou, alternativamente, pelo “interesse” (cf. §§ 3, 4, 39, 81, 83, 171, 246, 305). Se examinarmos detidamente nossas ações, vamos nos deparar com esses móveis autointeressados mesmo por trás de ações que parecem lhes ser as mais remotas:

Qualquer descoberta que se tenha feito no país do amor-próprio, resta ainda muitas terras incógnitas. (§ 3)

O amor-próprio é mais hábil que o mais hábil homem do mundo. (§ 4)

O interesse fala todas as línguas e representa todo tipo de personagem, mesmo aquele do desinteresse. (§ 39)

As virtudes se perdem no interesse como os rios se perdem no mar. (§ 171)

Como as qualificações acima sugerem, porém, a posição do duque quanto ao escopo dessa tese — a tese da “onipresença do amor-próprio”, na feliz expressão de Jean Lafond[8] — não é perfeitamente cristalina e dá indícios de ter oscilado um pouco ao longo dos anos. Sua posição final, porém, parece ser que a ação desinteressada — isto é, motivada pelo bem alheio ou pelo menos não motivada pelo bem próprio — não é impossível, apenas rara.[9] A maioria das máximas que parecem expressar a posição mais forte de que ela é impossível estão entre as que foram suprimidas pelo autor nas edições posteriores.[10] Vale ressaltar, porém, que, mesmo entre as máximas preservadas ou mesmo acrescentadas na edição final, há algumas em que o duque parece endossar inequivocamente essa posição mais forte.[11]

Uma implicação dessa tese sobre o caráter autointeressado das nossas motivações é que a maior parte das ações que tomamos como “virtuosas” não o são verdadeiramente. La Rochefoucauld dedica dezenas de máximas a “desmascarar” a “falsidade de tantas virtudes aparentes” (§ 504), isto é, a mostrar o interesse e o amor-próprio, ou outros fatores igualmente pouco lisonjeiros, como os verdadeiros mecanismos ocultos por trás de ações supostamente virtuosas. Esse “desmascaramento”, tematizado já no frontispício da obra[12], é sucessivamente aplicado à clemência (§§ 15-16), à moderação (§§ 17-18, 293, 308), à constância (§§ 19-24)[13], ao heroísmo (§ 53), à amizade (§§ 81, 83), ao amor (§§ 68-77), à coragem (§§ 1, 150, 213-221), à generosidade (§§ 246, 263), à fidelidade (§ 247), à humildade (§ 254), à gratidão (§ 298), entre diversas outras supostas virtudes. A título de ilustração, a seguinte amostra é representativa:

Aquilo que tomamos por virtudes não é muitas vezes mais que uma reunião de diversas ações e de diversos interesses que a fortuna ou nossa engenhosidade sabem arranjar; e não é sempre por valentia e por castidade que os homens são valentes e as mulheres são castas. (§ 1)

Essas grandes e esplêndidas ações que ofuscam os olhos são representadas pelos políticos como efeitos de grandes desígnios, ao passo que, de ordinário, são efeitos do humor e das paixões. Assim, a guerra de Augusto e de Antônio, que se costuma remontar à ambição que tinham de se tornar senhores do mundo, não era talvez mais do que um efeito do ciúme. (§ 7)

A aversão à mentira é muitas vezes uma imperceptível ambição de tornar nossos testemunhos dignos de consideração e de atrair para as nossas palavras um respeito religioso. (§ 63)

O que os homens chamaram de amizade não é senão uma sociedade, uma gestão recíproca de interesses e uma troca de bons serviços; não é, enfim, senão um comércio em que o amor-próprio se propõe sempre a ganhar alguma coisa. (§ 83)

Engana-se quem acredita amar sua amada por amor dela. (§ 374)

A humildade não é frequentemente senão uma fingida submissão da qual nos servimos para submeter aos outros... (§ 254)

Todas essas máximas, e outras afins, podem ser entendidas como glosas do mote dado na epígrafe citada acima.

Outro tema importante no pensamento de La Rochefoucauld é que, além do amor-próprio ou do interesse, também as paixões (§§ 5, 10, 460), o humor (§§ 45, 61 297, 435, 488), a disposição dos órgãos do corpo (§ 44), o temperamento (§ 220), as ocasiões e a fortuna (§§ 61, 153, 309, 323, 435) são poderosos fatores explicativos da conduta humana:

Estamos muito longe de saber tudo o que nossas paixões nos fazem fazer. (§ 460)

A duração de nossas paixões não depende mais de nós que a duração de nossa vida. (§ 5)

Há no coração humano uma perpétua geração de paixões, de modo que a ruína de uma é quase sempre o estabelecimento de outra. (§ 10)

Parece que a natureza prescreveu a cada homem, desde seu nascimento, limites às virtudes e aos vícios. (§ 189)

Os humores do corpo[14] têm um curso ordinário e regrado que move e altera imperceptivelmente a nossa vontade; eles correm juntos e exercem sucessivamente um império secreto sobre nós: de modo que têm uma influência considerável em todas as nossas ações, sem que possamos conhecê-lo. (§ 297)

A felicidade e a infelicidade dos homens não dependem menos de seu humor do que da fortuna. (§ 61)

Nossa sabedoria não está menos à mercê da fortuna que nossos bens. (§ 323)

Todos esses fatores, porém, são externos ou alheios ao agente, e isso em um sentido bastante substancial: as paixões e o humor dependem crucialmente do temperamento, da disposição do corpo e das ocasiões, e tudo isso está sujeito aos caprichos da fortuna. Em outras palavras, fatores explicativos cruciais da ação humana estão fora do controle e mesmo da consciência do agente. La Rochefoucauld chega a sugerir que vivemos sob o “império secreto” dos humores do corpo (§ 297) e afirma categoricamente que “a fortuna e o humor governam o mundo” (§ 435).

Um último tema ao qual gostaria de chamar atenção, e que emerge das análises já discutidas, é a relativa opacidade do agente a si mesmo ou, em outras palavras, o caráter elusivo de nosso eu. Diversas máximas enfatizam isso:

O homem pensa muitas vezes se conduzir quando em verdade é conduzido; e, enquanto tende por seu espírito a um fim, seu coração o arrasta insensivelmente a um outro. (§ 43)[15]

É tão fácil enganar a si mesmo sem perceber quanto é difícil enganar aos outros sem que percebam. (§ 115)

Somos tão acostumados a nos disfarçar para os outros que acabamos por nos disfarçar para nós mesmos. (§ 119)

É-se por vezes tão diferente de si mesmo quanto dos outros. (§ 135)

Estamos muito longe de conhecer todas as nossas vontades. (§ 295)

As ocasiões nos fazem conhecer os outros e ainda mais a nós mesmos. (§ 345)

Há certas lágrimas que enganam muitas vezes a nós mesmos após terem enganado aos outros. (§ 373)

Nossos inimigos se aproximam mais da verdade nos juízos que fazem de nós do que nós mesmos. (§ 458)

Todas as nossas qualidades são incertas e duvidosas tanto no bem como no mal, e elas estão quase todas à mercê das ocasiões. (§ 470)

Esse grupo de máximas é especialmente interessante à luz do contexto do século XVII, em que, na esteira no cartesianismo, a ênfase costuma ser colocada no caráter privilegiado do autoconhecimento. Conhecer o próprio caráter e as próprias intenções é muito mais fácil, segundo essa tradição, do que conhecer o caráter e as intenções das outras pessoas: este último conhecimento é indireto, colhido da observação e da análise do comportamento alheio; o primeiro, porém, repousaria sobre o testemunho imediato da introspecção. Na contramão dessa tendência, La Rochefoucauld parece instituir certa paridade entre o autoconhecimento e o conhecimento dos outros. Se, no conhecimento dos outros, são as ocasiões que nos dão a conhecer o seu caráter[16], o mesmo se dá no autoconhecimento: são as circunstâncias externas em que nos deparamos que nos dão a conhecer quem somos[17], e não raro nos surpreendemos, para o bem ou para o mal, com o que assim descobrimos. Quanto às nossas intenções, desejos e vontades, tendemos sistematicamente ao autoengano pela operação subreptícia do amor-próprio e do orgulho (§§ 36, 358).

Esse pequeno livro contém ainda muitos outros temas. Chamei atenção apenas ao que me parece filosoficamente mais interessante. Essa seleção, porém, além de trair preferências e gosto pessoais, pode trazer certa artificialidade. Tal como praticada por La Rochefoucauld, a máxima não serve prioritariamente para exprimir ideias filosóficas. Sua vocação original é literária: ela é a expressão finamente lapidada de gemas extraídas do solo da observação psicológica. De resto, nem todas as reflexões do duque sobre os temas que enfatizei são igualmente plausíveis, e seria possível escrever mais uma porção de parágrafos ponderando a plausibilidade de cada uma delas. Essa, porém, é uma tarefa que deixo a cargo do leitor.

Para encerrar, uma palavra de advertência. Dada a brevidade do livro, o mais tentador é lê-lo de um só fôlego; não é, contudo, o mais recomendável. Sendo ao todo quase 700 máximas, incluindo as que foram suprimidas ao longo das sucessivas edições, uma leitura contínua pode ser desorientadora, fatigante e, pior que isso, tediosa. Minha sugestão é que o leitor faça uso dos índices temáticos que as edições indicadas trazem ao final e persiga um de cada vez os temas que forem de seu interesse, para que assim, tema por tema, o conjunto das máximas seja gradualmente percorrido na sua inteireza. Acredito que assim se pode tirar muito mais proveito da leitura deste pequeno clássico.

Referências bibliográficas

Corneille, Cinna. Bernard Grillet (ed.). Paris: Librairie Larousse, 1959.

La Rochefoucauld, Maximes et réflexions diverses. Jean Lafond (ed.). Paris: Éditions Gallimard, 1976.

La Rochefoucauld, Reflexões ou sentenças e máximas morais. Rosa Freire D’Aguiar (trad.). São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2014.


  1. Ver as Referências Bibliográficas para indicação das edições utilizadas. ↩︎

  2. O próprio duque descreve o livro, em correspondência, como “um amontoado de diversos pensamentos a que ainda não se deu ordem, nem começo nem fim” (1976, p. 270). ↩︎

  3. Segundo a “Advertência ao Leitor” da primeira edição, publicada em 1664, a obra apresenta “um retrato do coração do homem” (1976, p. 260). Esse texto, porém, foi suprimido nas edições seguintes. ↩︎

  4. Ver as máximas §§ 213-217 e §§ 219-221, dedicadas à coragem. ↩︎

  5. Ver também a máxima § 15: “A clemência dos príncipes não é frequentemente mais que uma política para ganhar a afeição dos povos”. Esse exemplo é extraído de um famoso episódio da história romana em que o imperador Augusto, ao descobrir a conspiração que se armava contra ele sob a liderança de Cina, decide perdoar os conspiradores. La Rochefoucauld comenta o episódio em correspondência: “[N]a clemência de Augusto por Cina, havia um desejo de experimentar um remédio novo, uma lassidão de derramar inutilmente tanto sangue, e um medo dos eventos [futuros], ao que se preferiu dar o nome de virtude do que fazer uma anatomia de todas as reentrâncias do coração” (p. 270). O episódio foi habilmente transposto para o teatro por Corneille, na tragédia Cina ou a clemência de Augusto, de 1640, que teve grande sucesso. Ver Ato IV, cena II para uma dissecção das motivações de Augusto. ↩︎

  6. Como veremos na sequência, La Rochefoucauld é um pouco ambíguo quanto a isso. ↩︎

  7. Com relação à coragem, isso é mais explícito: “A perfeita coragem e a pusilanimidade completa são dois extremos a que raramente se chega. O espaço que há entre as duas é vasto e contém todas as outras espécies de coragem” (§ 15). Sobre a “perfeita coragem”, o duque escreve ainda que ela consiste em “fazer sem testemunhos o que seríamos capazes de fazer diante de todo mundo” (§ 16). Note-se que essa “definição” de coragem nos proporciona, na verdade, um meio de reconhecê-la: pois, na situação contemplada, as motivações “desviantes” relacionadas ao testemunho alheio, elencadas na máxima § 13 (amor da glória, medo da vergonha, etc.), são por assim dizer “filtradas”. ↩︎

  8. Cf. 1976, p. 289, n. 16. ↩︎

  9. “Nada é mais raro que a verdadeira bondade; aqueles mesmos que creem possuí-la não possuem de ordinário mais que complacência ou fraqueza” (§ 481). ↩︎

  10. Cabe destacar aqui sobretudo a máxima § 1 das máximas suprimidas após a primeira edição (1976, pp. 129-132). Essa longa reflexão abria o livro na edição original de 1664. ↩︎

  11. “Nada podemos amar senão em relação a nós, e não fazemos senão seguir nosso gosto e nosso prazer quando preferimos nossos amigos a nós próprios; não obstante, é apenas por essa preferência que a amizade pode ser verdadeira e perfeita” (§ 81). ↩︎

  12. O frontispício mostra um anjinho com ar zombeteiro, indicado pela rubrica “o amor da verdade”, “desmascarando” um busto de Sêneca e apontando-lhe o rosto descoberto. Note-se que, por trás das feições impassíveis da máscara, o rosto que se revela no busto tem o cenho franzido. Essa imagem enfatiza o teor antiestoico das reflexões de La Rochefoucauld, implicitamente presente, por exemplo, nas máximas §§ 15-26, 30, 54, 61, 504, entre diversas outras, e explicitado pelo autor em correspondência: “a virtude dos antigos filósofos pagãos, sobre a qual fizeram tanto alvoroço, foi estabelecida sobre falsos fundamentos” (1976, p. 270). ↩︎

  13. “A filosofia triunfa facilmente sobre os males passados e sobre os males por vir. Mas os males presentes triunfam sobre ela” (§ 22). ↩︎

  14. “Humores do corpo” deve ser entendido no contexto da teoria hipocrática dos quatro tipos de humores ou fluidos do corpo humano, que estariam associados a quatro tipos de temperamentos ou “humores” no sentido mais usual (também presente em La Rochefoucauld). ↩︎

  15. Relacionada a esta está a célebre máxima: “O espírito é sempre o bobo [dupe] do coração” (§ 102). Note-se, aliás, que, ao contrário do que é usual em La Rochefoucauld, essa máxima não é qualificada com “frequentemente”, “de ordinário”, “quase sempre” ou outra fórmula equivalente: o espírito é sempre enganado pelo coração. Outra máxima que escapa das formulações cautas ou esquivas do duque é a já mencionada máxima § 81: “Nada podemos amar senão em relação a nós...” (grifos meus). É uma questão interessante para a interpretação da obra determinar até que ponto La Rochefoucauld nos provê material para a reconstrução de argumentos para essas máximas mais categóricas e filosoficamente carregadas. ↩︎

  16. “A maioria dos homens, como as plantas, têm propriedades ocultas que o acaso nos faz descobrir” (§ 344). ↩︎

  17. “Não podemos responder por nossa coragem quando jamais nos vimos em perigo” (§ 42 das máximas suprimidas da primeira edição). ↩︎


Arquipélago Filosófico, Vol. 2, No. 34 (2026), e-034
ISSN 3086-1136

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