Sobre o Discurso do Método de René Descartes
Por Breno Franco (UFRGS)
Em 1637, aos 41 anos de idade, René Descartes (1596-1650) publicou anonimamente, em Paris, uma reunião de três tratados científicos sobre ótica, meteorologia e geometria. O livro veio guarnecido de um longo prefácio em que, através da narrativa de seu desenvolvimento intelectual, Descartes apresentava a seus contemporâneos o seu projeto de uma reforma integral das ciências. Trata-se do projeto de uma ciência nova que, pela explicação das causas mais profundas dos fenômenos naturais, fosse capaz de nos tornar "como que mestres e senhores da natureza" (AT VI 62). Primeira e tardia publicação de sua curta carreira como autor, o livro trazia o extenso título, bem ao sabor do século XVII, de Discurso do Método para bem conduzir a própria razão e procurar a verdade nas ciências, mais a Dióptrica, os Meteoros e a Geometria, que são Ensaios desse Método.
É esse caráter programático que dá ao texto aparentemente misto e heterogêneo do Discurso do Método a sua unidade. É com vistas a apresentar ao público seu ambicioso projeto filosófico-científico que, no curso de uma narrativa autobiográfica cuja historicidade pode ser e foi contestada, Descartes apresenta reflexões sobre sua educação e sobre a precariedade do conhecimento então disponível (Primeira Parte), preceitos de um método para a condução de investigações bem-sucedidas em qualquer área do conhecimento (Segunda Parte), regras para guiar a conduta em uma situação provisória de incerteza generalizada (Terceira Parte), meditações metafísicas sobre a alma, Deus e a possibilidade do conhecimento absolutamente certo (Quarta Parte), amostras de seu trabalho em física de base, astronomia e fisiologia (Quinta Parte) e, por fim, uma descrição do que ele acreditava poder alcançar por meio de seu trabalho científico, bem como reflexões sobre o que era preciso para que ele pudesse avançar mais nesse trabalho (Sexta Parte). Esse caráter programático, aliás, anunciava-se mais claramente no título que Descartes originalmente cogitara para o texto: Projeto de uma Ciência Universal que possa elevar nossa natureza a seu mais alto grau de perfeição (AT I 339).
Escapando ao destino comum dos prefácios, que é serem ignorados, o Discurso do Método consta seguramente entre os textos mais lidos da história da filosofia. Aos olhos de Descartes e de seus contemporâneos, entretanto, a parte mais importante do livro não era, naturalmente, o prefácio, mas os Ensaios. A Dióptrica trazia explicações inovadoras sobre o fenômeno da refração da luz (incluindo a demonstração do que veio a ser chamado de "Lei de Snell-Descartes"), como parte de um grande esforço de mostrar que, ao invés de distorcer a visão ou produzir miragens, o telescópio, o microscópio e outros instrumentos ópticos, muito pelo contrário, a ampliam e aprimoram. Os Meteoros traziam explicações puramente mecanicistas de uma porção de fenômenos meteorológicos como os ventos, as nuvens, a neve, a chuva, o granizo, as tempestades, o raio, os parélios e, principalmente, o arco-íris. E a Geometria, enfim, lançava as bases do que veio posteriormente a ser chamado de "geometria analítica", que relaciona figuras geométricas com equações algébricas. A importância relativa dos ensaios e do prefácio, para Descartes e seus contemporâneos, reflete-se na extensa correspondência que a Dióptrica e a Geometria geraram, em comparação com o punhado de cartas em que o Discurso do Método é explicitamente discutido.
Além de seu estatuto de prefácio, é importante enfatizar que há ainda outro sentido em que o Discurso do Método não é uma obra autônoma. Tomá-lo como uma exposição autossuficiente do método, da filosofia ou da ciência natural de Descartes pode levar a sérias distorções, dando ensejo a objeções precipitadas. Pelo menos três das seis partes de que ele se compõe consistem em exposições sumárias de ideias mais amplamente desenvolvidas em outras obras. Por exemplo, a Segunda Parte, onde Descartes apresenta os quatro famosos preceitos de seu método, deve ser suplementada com o estudo das Regras para a Direção do Engenho, obra de juventude em que Descartes tentara empreender a exposição completa do método apenas sumarizado no Discurso. Igualmente, a Quarta Parte apresenta de maneira resumida e lacônica as principais teses e argumentos cartesianos em metafísica ou filosofia primeira, argumentos e teses que só podem ser compreendidos a fundo à luz das Meditações de Filosofia Primeira publicadas em 1641. E, por fim, a Quinta Parte consiste em um resumo seletivo da física cartesiana exposta mais amplamente em O Mundo ou Tratado da Luz de 1633. Assim, a leitura do Discurso do Método nos remete para fora do texto em duas direções diferentes: primeiro, em direção aos Ensaios do qual ele era o prefácio e, depois, em direção às obras nele sumariamente apresentadas.
Entretanto, não é à toa que, desde pelo menos o século XIX, o prefácio é muito mais lido do que o livro como um todo, sendo com mais frequência publicado sozinho do que acompanhado dos Ensaios. Em primeiro lugar, isso se deve à rápida obsolescência das explicações científicas que estes expunham, as quais, ainda no século XVII, com a publicação dos trabalhos de Isaac Newton (1643-1727) e outros, foram suplantadas por explicações e teorias rivais. Em segundo lugar, essa priorização do prefácio em detrimento do resto do livro se deve ainda à beleza admirável da prosa do Discurso do Método (contada por muitos entre as mais belas já escritas pela mão de um filósofo), bem como ao interesse intrínseco da narrativa autobiográfica pela qual a obra se constrói. Em terceiro lugar, por fim, essa autonomia conferida ao Discurso do Método pela tradição editorial se deve ao seu caráter introdutório e programático. Trata-se, de fato, de uma exposição introdutória do projeto filosófico-científico cartesiano escrita pelo próprio Descartes, o que torna o texto altamente convidativo aos leitores interessados em se familiarizar com o pensamento desse importante e talvez incontornável pensador.
Breno Franco é doutorando em Filosofia na UFRGS e bolsista da CAPES.
A tradução, por Breno Franco, do Discurso do Método e de uma porção de textos complementares, acompanhada de um livreto de guia de leitura, pode ser adquirida aqui: https://clubedefilosofia.com/descartes.
Na seção final do guia, o leitor encontra uma lista de leituras recomendadas para quem deseja aprofundar sua compreensão do Discurso do Método ou do pensamento cartesiano de modo mais geral.
Veja também uma entrevista de Breno Franco, feita pela professora Lia Levy (UFRGS), a respeito dessa nova tradução do Discurso do Método e assuntos afins:
Arquipélago Filosófico, Vol. 1, No. 20 (2025), e-020
ISSN 3086-1136