Rogério Severo, Filhos, por que tê-los?

Rogério Severo, Filhos, por que tê-los?
Foto: Arquivo pessoal

Filhos, por que tê-los?

“Mas se não os temos, como sabê-lo?”, diz o poema enjoadinho de Vinícius de Moraes. 

Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos 
Que cheiro morno 
Na sua carne 
Que gosto doce
Na sua boca!

Hoje em dia, no entanto, cada vez menos gente sabe disso. Os mais jovens pouco sabem. Alguns pensam que ter filhos não passa de um estorvo, um sacrifício oneroso demais para a vida planejada. Calculam os impactos no orçamento doméstico, na carreira profissional, nos estudos — e rapidamente desistem. Outros acreditam que ter filhos significa acrescentar sofrimentos ao mundo, como se a característica principal dos seres humanos fosse esta, a de sofrer e fazer sofrer. Esse pensamento triste é a expressão popular de uma filosofia defendida em diversos quadrantes. Talvez o exemplo mais famoso seja o do antinatalista David Benatar, filósofo sul-africano e autor de Better never to have been: the harm of coming into existence (2006) [Melhor nunca ter sido: o mal de vir a existir]. No Brasil, argumentos diferentes, mas com conclusões parecidas, foram defendidas por Júlio Cabrera, filósofo da UnB e autor de Por que te amo, não nascerás (2009). É difícil não ficar um tanto chocado com o que dizem, sobretudo quando se tem filhos. Gostaria de me contrapor ao pensamento deles, pois percebo as experiências da paternidade e da maternidade como das mais valiosas que alguém pode ter. Ninguém tem obrigação de ter filhos, claro — não é isso que estou sugerindo. Cada um tem o direito de escolher o seu próprio caminho na vida. E com certeza há um custo alto a ser pago ao se ter filhos, um sacrifício quase religioso de devoção e dedicação de muitos anos. Mas esse é um sacrifício que vale a pena, eu penso: quando vivido da maneira adequada, pode justificar uma vida inteira. Talvez sequer mereça ser descrito como um sacrifício, pois ele torna real algumas das aspirações humanas mais profundas. Tão profundas, de fato, que é difícil articulá-las em palavras. 

Antes do argumento, alguns fatos: nas últimas décadas houve mudanças drásticas no tamanho das famílias no mundo inteiro. Pode-se dizer que as filosofias antinatalistas dos últimos anos racionalizam uma atitude geral que domina boa parte das culturas contemporâneas, exceto em algumas regiões da África e do Oriente Médio. No resto do planeta, houve quedas vertiginosas na taxa de fecundidade. No Brasil, as mulheres tinham em média 6 filhos em 1960, 4 filhos em 1980 e 2,7 filhos no ano 2000. Hoje essa taxa está em 1,6, bem abaixo da taxa de reposição populacional, que é de 2,1. Além disso, o número de mulheres sem filhos nunca foi tão alto e a idade em que engravidam é a mais alta já registrada. O IBGE estima que a população brasileira começará a diminuir em 2041. Em alguns estados, como o Rio Grande do Sul e o Rio de Janeiro, a diminuição começará no ano que vem. Em países como Japão, China, Coréia do Sul e Alemanha, já está diminuindo. Com exceção da África, todos os demais continentes verão suas populações diminuírem nas próximas décadas. Se a tendência continuar, é possível que algumas culturas milenares, como a japonesa, simplesmente desapareçam. Trata-se de um acontecimento de enormes consequências, mas ao qual pouca atenção tem sido dada. 

O efeito óbvio da queda da fecundidade é o envelhecimento das sociedades. O ciclo de renovação, não apenas de corpos, mas também de ideias, de criatividade e de atitudes, diminui e, por fim, deixa de acontecer. Curiosamente, as filosofias antinatalistas são mais populares entre as pessoas com concepções políticas progressistas, mas a longo prazo o resultado da diminuição do número de jovens é uma sociedade mais velha e mais conservadora. Por outro lado, as pessoas mais conservadoras — por exemplo, os grupos religiosos mais tradicionais — tendem a ter mais filhos, o que contribui para uma renovação da sociedade como um todo e, em particular, das famílias conservadoras. Há um elemento inegavelmente suicida nas filosofias antinatalistas, pois a sua consequência lógica é a morte coletiva da humanidade. Apesar disso, ela vem se popularizando.

Podemos especular sobre as causas desse fenômeno. Talvez a sensação de que vivemos um período de catástrofes esteja associada à queda da fecundidade. Do ponto de vista metafísico, é bem difícil dizer se estamos no final de uma era ou de uma civilização. Mas do ponto de vista psicológico, é assim que vivemos, parcialmente dominados pelo que Edward Edinger chamou de “arquétipo do apocalipse”, sob a nuvem do colapso global iminente: guerra nuclear, falta de alimentos, poluição, estresse, desequilíbrio ambiental, pandemias e um excesso de robôs e artificialidade. Embora haja riscos sérios em todos esses desenvolvimentos recentes, as diversas previsões feitas no final do século XX não se materializaram. Não houve guerra nuclear, a produção de alimentos cresceu mais do que a população, os ursos polares não se extinguiram (Hobson, 2026), a área verde do planeta aumentou (NASA, 2020), os atóis não foram tomados pelas águas (Holdaway, 2021) e a pandemia de COVID teve um impacto proporcionalmente menor que a gripe espanhola ou que a peste negra. Além disso, a robótica e a inteligência artificial, ao contrário do que diziam as previsões de puramente negativas quanto ao seu impacto, poderá aumentar a produtividade econômica e instaurar um novo ciclo de abundância material. Nos últimos 100 anos, a expectativa de vida cresceu, a mortalidade infantil baixou, o analfabetismo diminuiu, bem como o número de assassinatos, mortes em guerras, mortes por eventos climáticos e pessoas que vivem na pobreza e passam fome. A qualidade de vida média da população mundial aumentou. Todos os indicadores sociais são positivos, inclusive os que medem felicidade e grau de satisfação subjetiva com a própria vida. Pode parecer estranha essa notícia, mas é o que mostram os dados do IBGE e dos institutos de pesquisa de outros países. Steven Pinker deu-se ao trabalho de escrever dois livros detalhando esses dados: Os anjos bons da nossa natureza (2017) e O novo iluminismo (2018). Boa parte dos dados aos quais ele se refere está didaticamente apresentada no site Human Progress

Tanto a sensação psicológica de colapso global iminente quanto a melhoria das condições materiais de vida podem estar associadas à queda da fecundidade. De um lado, a vida mais confortável permitida pela tecnologia com frequência cria distrações que afastam da mente a vontade de se dedicar ao que pode ser mais importante na vida como um todo. De outro, a sensação de que o futuro será muito ruim é o antônimo do que a juventude e a renovação representada pelos bebês simbolizam. Na ausência de esperança e renovação, tende a prevalecer o sentimento do fim da vida, típico da velhice. Essas são hipóteses sociológicas e psicológicas, mas decerto há diversos outros fatores igualmente relevantes, como o aumento da força de trabalho feminina após a Segunda Guerra Mundial, o enfraquecimento das culturas religiosas tradicionais e a pílula anticoncepcional.

De um ponto de vista mais filosófico, podemos avaliar não apenas o que está de fato acontecendo, mas se as atitudes das pessoas se justificam. Podemos avaliar o valor de se ter filhos e se as razões apresentadas para se deixar de tê-los são boas. Uma característica comum da mentalidade moderna — a respeito da qual escreveu Charles Taylor em As fontes do self é que quase tudo se tornou opcional. Quase tudo pode ser objeto de escolhas e avaliações: casamento, filhos, sexualidade, religião, profissão, política, local de moradia e marca do sabão em pó. Nesse aspecto, somos culturalmente bem diferentes das sociedades mais tradicionais, em que as vidas eram mais rígidas e determinadas e as escolhas, menos frequentes e mais limitadas. Foi nesse contexto que a pergunta a respeito de por que ter filhos passou a ser legítima, e é nesse contexto que se apresentam as alternativas antinatalistas. Em outras épocas, não seriam sequer consideradas, pois nelas os filhos faziam parte da ordem natural do mundo e dos ciclos da vida.

A premissa básica dos raciocínios antinatalistas é uma concepção negativa da existência: “a vida humana é sombria e tenebrosa, incrivelmente violenta e profundamente imoral”, escreveu o professor Júlio Cabrera (2009, p. 22). No mesmo espírito, David Benatar sustenta que “cada um de nós sofreu um mal [was harmed] ao ser trazido à existência” e que “mesmo as melhores vidas têm uma qualidade muito ruim – consideravelmente pior do que as pessoas reconhecem” (Benatar, 2006, p. vii). Para esses filósofos, essas são constatações factuais. São as premissas de seus argumentos. Com base nelas, ambos inferem que é imoral se ter filhos, pois implica trazer ao mundo pessoas destinadas a sofrer. E é imoral impingir sofrimentos desnecessários a outros. Penso que é difícil resistir a esse tipo de argumento quando se está triste. Em alguns casos, o que eles dizem pode até servir de bálsamo à alma deprimida, pois dá a ela o conforto de não estar sozinha nem se sentir culpada pela sua própria tristeza, que seria universal e inevitável. Isso torna o argumento antinatalista atraente e minimamente plausível para muitas pessoas, ao menos enquanto sofrem de tristeza. Mas como argumento, penso que é falacioso, por três razões. 

Em primeiro lugar, a vida humana não se resume a tristezas, maldades e violências. Além dos momentos de beleza, romance, arte, carinho e gozo, que também fazem parte da vida de quase todo mundo, há o sentimento de que algumas experiências são significativas e  valem a pena, mesmo tendo sido sofridas. O atleta que treina e se sacrifica para participar de uma prova pode mais tarde considerar valioso o esforço, mesmo que as dores tenham sido constantes. A estudante que se dedica e sofre para aprender, pode depois considerar valioso o sacrifício de muitas horas, mesmo que não tenha se saído tão bem nas provas finais quanto desejaria. A mulher que engravida e sofre ao dar à luz, pode depois, ao ver seu filho nos braços, sentir-se realizada e grata. O velho, ao refletir sobre a vida que levou, pode considerá-la completa e valiosa, mesmo tendo sido repleta de sofrimentos. O sofrimento, nesse sentido, não não serve de veto às escolhas que fazemos nem é o único critério usado para avaliar seu valor. Quanto mais valiosa uma escolha, mais ela dispõe as pessoas a sacrifícios voluntários para realizá-la. Os argumentos antinatalistas desses dois autores têm esta primeira falha: confundem o fato de uma experiência ser sofrida com o valor dessa experiência. 

Em segundo lugar, como argumentou William James nos ensaios “A vontade de crer” e “Vale a pena viver?”, há alguns aspectos da realidade que só se tornam visíveis a uma investigação se adotamos como ponto de partida, mesmo que provisoriamente, a hipótese de que são reais. Nas investigações científicas não se faz isso. Adota-se o ponto de partida cético ou negativo (não sei ou duvido) e coletam-se indícios da verdade de uma hipótese ou outra. James argumenta que em assuntos éticos e religiosos essa postura epistêmica é inadequada, pois não temos como suspender o juízo a respeito do valor da vida que levamos sem que isso tenha implicações para essa mesma vida. Isso é perfeitamente possível na ciência: em regra, a suspensão do juízo quanto à verdade de uma hipótese em nada impacta a vida de um cientista. Por outro lado, o ceticismo e o pessimismo na vida moral e religiosa, isto é, no domínio da prática e dos valores, constituem modos de vida e têm implicações práticas. Se quero descobrir se uma pessoa é ética, não convém tratá-la com desconfiança. Se de antemão duvido das suas virtudes, induzo nela uma reação correspondente, e as virtudes que ela porventura tenha poderão permanecer ocultas para mim. Por outro lado, cooperar com ela supondo que ela me tratará bem, isto é, confiando na sua virtude moral, fará aflorar a sua bondade, caso ela seja uma pessoa boa. James usa argumentos análogos para a crença religiosa e para o valor da vida como um todo. Se quero saber se o mundo tem uma dimensão espiritual ou transcendente, mas adoto uma atitude cética ou agnóstica como método de investigação, corro o risco de ficar míope para os indícios dessa realidade. Enquanto isso, vou levando uma vida de dúvida, isto é, uma vida não religiosa, sem fé, o que fecha a minha mente para as experiências religiosas que poderiam revelar alguns objetos dessa fé, caso eu a tivesse. E se quero saber se a vida vale a pena, mas parto da premissa pessimista dos professores Cabrera e Benatar, então, quer ela valha a pena, quer não, permaneço fechado à possibilidade de reconhecer os indícios favoráveis que porventura se apresentariam, caso eu supusesse que a vida vale a pena e vivesse de acordo com isso. A vida do otimista tende a produzir experiências confirmatórias do otimismo. E igualmente para o pessimista, que tende a ter mais experiências ruins do que teria se não tivesse essa predisposição. A razão disso está no fato de que a nossa mente e nossas disposições psicológicas fazem parte do mundo em que vivemos. Assim, não há como se avaliar o mundo em que vivemos (se é ótimo, péssimo ou algo intermediário) como se a mente pessimista ou otimista a partir da qual a avaliação é feita estivesse fora desse mesmo mundo. Novamente, o exemplo dos atletas ilustra bem essa dinâmica: os que acreditam que podem vencer uma competição têm mais chances de vencê-la do que os que a disputam achando que serão derrotados – ou, nas palavras do grande filósofo e craque português Cristiano Ronaldo, “eu sou o melhor …; posso não ser, mas na minha cabeça, eu sou o melhor”! Vale a pena conferir.

Por analogia, podemos adaptar o argumento de James para o caso dos filhos. Se quero saber se vale a pena ter filhos, não convém partir da premissa pessimista de que nenhuma vida vale a pena, ou de que o elemento mais significativo da vida é o sofrimento. Essa é uma postura epistêmica fechada, que sacrifica a possibilidade do acerto para evitar o erro. Quem parte desse ponto de vista fica cego aos indícios que poderiam contrariá-lo. Ninguém tem como saber, de antemão, se a vida de um filho será como a dela ou a de outras pessoas. Pode ser que tenha uma vida sofrida, pode ser que não. E pode ser que seus sofrimentos valham a pena, que tenha uma vida significativa e completa, mesmo sofrendo. Há sempre algo de imprevisível e incontrolável na vida que nasce. Para se ter um filho, é preciso estar disposto a aceitar possibilidades desconhecidas. É preciso fazer uma aposta e aprender a aceitar as limitações e os riscos, ao mesmo tempo em que se confia esperançosamente. É um risco que se corre. Mas assim é a vida. Os que preferem cálculos e têm medo dos riscos, em alguma medida já estão mortos. Isso não significa que a prudência é desnecessária. Mas a prudência, como virtude ética, não anula a coragem de viver. 

Antes dos meus filhos nascerem, eu tinha muitos princípios, fazia muitos cálculos. Tinha ideias bastante específicas sobre como educá-los, alimentá-los, que tipo de pai gostaria de ser, etc. Esses princípios foram todos derrotados. Os cálculos estavam errados. Eu fui derrotado. Foi bem mais difícil do que eu achava que seria. Mas outro dia meu filho fez carinho em meus cabelos. Minha filha chorou ao ler um cartão de aniversário que escrevi para ela. Nada disso estava previsto em nenhum cálculo. Assim é: às vezes, bastam alguns instantes para que uma vida inteira valha a pena. 

Por fim, uma terceira razão. Algumas filosofias antinatalistas, como a de Benatar (mas não a de Cabrera), tratam desses assuntos como se fossem questões intelectuais apenas, como se o valor de uma vida pudesse ser avaliado por meio de observações imparciais e inferências lógicas, e como se as escolhas mais significativas pudessem todas ser produtos de raciocínios. Somam-se os prazeres e alegrias, subtraem-se as dores e tristezas, e observa-se para que lado a balança pende. Esse é um modo idealizado e simplista de se conceber a ética. É certo que há alguns domínios em que esse tipo de cálculo é adequado. Por exemplo, quando se está a discutir o orçamento da União, calculam-se as consequências de se reservar mais dinheiro para o Ministério da Saúde em detrimento do Ministério da Educação, ou da Agricultura em detrimento das Forças Armadas, e assim por diante. Nesses domínios, o cálculo é adequado e não há muito outro jeito de avaliar o que é melhor. Quem já teve a experiência de ser pai ou mãe sabe que esse tipo de consideração só se torna relevante quando intimamente a decisão já foi tomada. E, em geral, sequer há propriamente uma decisão. Há uma vontade, um instinto, um sentimento irracional de união ao parceiro, de amor, de entrega e é desse influxo vital que surgem os filhos. Em geral, quem trata desses assuntos com calculadoras e planilhas acaba sem filhos, pois não vê amor, união ou fluxo vital, vê apenas dívidas e esquemas. 

Há também algumas pessoas que preferem dedicar suas vidas a carreiras profissionais, intelectuais ou artísticas, assim sacrificando a possibilidade de terem filhos. Em geral, no entanto, o que fazem é medíocre. São raras as pessoas que deixam contribuições substanciais ao mundo por meio de suas atividades profissionais, intelectuais ou artísticas. E mesmo aquelas que conseguem realizar obras muito boas ou excelentes, no mais das vezes, não fazem algo mais valioso do que as vidas de seus filhos ou que o cuidado e amor que a eles poderiam dedicar. Criar as condições para um bebê vir ao mundo, gestá-lo, amamentá-lo, ensiná-lo a falar, a caminhar, estar com ele nas suas dificuldades, dedicar-se a ele e depois deixá-lo seguir o seu caminho na vida e realizar o seu potencial humano e espiritual, criar uma família em que uns cuidam dos outros, isso tudo, mesmo que limitado a uns poucos indivíduos, é incomparavelmente mais significativo do que quase todos os livros e artigos já escritos, quase todas as obras já realizadas. E o que dizer das pessoas que optam por não ter filhos para poderem assim economizar e gastar mais consigo mesmas? Mas gastar com o quê? Que relógio caro, que vinho francês, que viagem à Tailândia poderia se comparar à riqueza de uma vida humana? Que sofá confortável poderia se comparar ao sentimento de fazer parte de uma ligação inquebrantável de amor a outro ser humano? Ou de fazer parte do grande ciclo da vida, que se repete em toda a natureza e ao qual nos somamos, como mais um elo?  

Tudo isso que estou dizendo, no entanto, toda essa filosofia e reflexão, já foi dito de maneira muito mais bonita por João Cabral de Melo Neto, no auto de natal pernambucano, “Morte e vida severina”. Para quem não lembra ou não conhece, o poema narra a trajetória de um retirante do sertão, no interior. Foge da seca, da fome, da morte. Faz o trajeto a pé em direção à capital, Recife, onde espera encontrar uma vida menos sofrida. Lá encontra favelas, mangues, mais pobreza, mais fome, novos sofrimentos. Severino, o retirante, então pergunta a um amigo se essa vida vale a pena, se não seria melhor “saltar fora da ponte … e da vida”. Mas nesse momento chega ao amigo a notícia do nascimento de seu filho. O final desse poema, eu penso, é a minha filosofia natalista:  

— Severino, retirante, 
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia, 
se não vale mais saltar 
fora da ponte e da vida; 
nem conheço essa resposta, 
se quer mesmo que lhe diga; 
é difícil defender, 
só com palavras, a vida, 
ainda mais quando ela é 
esta que vê, severina; 
mas se responder não pude 
à pergunta que fazia, 
ela, a vida, a respondeu 
com sua presença viva. 
E não há melhor resposta 
que o espetáculo da vida: 
vê-la desfiar seu fio, 
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma, 
teimosamente, se fabrica, 
vê-la brotar como há pouco 
em nova vida explodida; 
mesmo quando é assim pequena 
a explosão, como a ocorrida; 
mesmo quando é uma explosão 
como a de há pouco, franzina; 
mesmo quando é a explosão 
de uma vida severina.
(João Cabral de Melo Neto, 2007, pp. 132-3)

[Gilson Olegario, Mariana Vasconcellos, Dirceu Reis da Silva, Flavio Williges, Marcelo Fischborn, Élfio Mendes e Jerônimo Weiller fizeram-me a gentileza de ler versões anteriores desse texto, enviaram-me comentários críticos e conversaram comigo a respeito. A todos agradeço, de coração.] 


Referências

Benatar, David. Better never to have been: the harm of coming into existence. Oxford: Oxford University Press, 2006. [Amzn]

Cabrera, Júlio. Por que te amo, não nascerás. Brasília: LGE, 2009. [Internet Archive], [Amzn]

Edinger, Edward. Arquétipo do apocalipse: vingança divina, terrorismo e o fim do mundo. Petrópolis: Vozes, 2023. [em inglês: Internet Archive], [Amzn]

Hobson, Melissa. “These polar bears are getting fatter as sea ice melts. What’s going on?”, National Geographic, Jan 29, 2026. 

Holdaway, Andrew; Ford, Murray; and Owen, Susan. “Global-scale changes in the area of atoll islands during the 21st century”,  Anthropocene 33 (2021): 100282. https://doi.org/10.1016/j.ancene.2021.100282

Hudde, A.; Jacob, M. “Parenthood in Europe: not more life satisfaction, but more meaning in life”, Journal of Marriage and Family 87.5 (2025): 1963–1978. 

Human Progress. <https://humanprogress.org/trends/>

James, William. A vontade de crer. Trad. por Camila von Holdefer. São Paulo: Companhia das Letras, 2026. [em inglês: Internet Archive], [Amzn]

James, William. Vale a pena viver? Trad. por Gabriel Perissé. São Paulo: Editora Nós, 2018.

Melo Neto, João Cabral de. Morte e vida severina. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. [Internet Archive], [Amzn]

Moraes, Vinícius de. “Poema enjoadinho”. In: Nova antologia poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. [Amzn]

NASA Earth Observatory. “Global green up slows warming”. Feb 18, 2020.

Pinker, Steven. Os anjos bons de nossa natureza: por que a violência diminuiu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. [Amzn]

Pinker, Steven. O novo iluminismo: em defesa da razão, da ciência e do humanismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. [Amzn]

Taylor, Charles. As fontes do self. São Paulo: Loyola, 1997.  [Amzn]


Rogério P. Severo é professor no Dept. Filosofia da UFRGS e pai de Bento e Clara.


Arquipélago Filosófico, Vol. 2, No. 27 (2026), e-027
ISSN 3086-1136

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