Marcelo Fischborn, Por que pensar assim?
Publicado pela Pontes Editores (Campinas, 2025); disponível na Amazon e no site da editora.
Lançado há pouco, o livro Por que pensar assim? Uma introdução à filosofia, traz uma bela contribuição aos louváveis esforços para qualificar o ensino de filosofia nas escolas brasileiras. Seu autor, Marcelo Fischborn, é um pesquisador de primeira linha, com doutorado na UFSM, estágio na Florida State University e uma série de artigos de pesquisa publicados em revistas internacionais de ponta, como a Philosophical Psychology e a Neuroethics. Seu currículo e a qualidade de sua pesquisa na psicologia da responsabilização moral fazem dele um professor tão qualificado quanto aqueles dos melhores programas de pós-graduação nacionais. Atualmente trabalha no Instituto Federal Farroupilha de Uruguaiana, na fronteira do Rio Grande do Sul com a Argentina, onde reside com a família. Lá ele dedica suas horas ao ensino de filosofia para adolescentes. O livro recém lançado é produto de sua experiência nessa atividade.
Por um bom tempo, o mercado editorial desse setor foi dominado por manuais de ensino cuja ênfase estava na história das ideias: Platão disse isso, Aristóteles disse aquilo, Santo Tomás... São livros bem conhecidos, que venderam milhares de cópias e foram efetivamente adotados por boa parte das escolas brasileiras. O manual escrito por Marilena Chauí talvez seja o mais conhecido, junto com o escrito por Maria Lúcia Aranha e Maria Helena Martins. Não podemos menosprezar a contribuição que deram, numa época em que ninguém sabia direito como seria o ensino de filosofia no ensino médio brasileiro. Mas, passadas algumas décadas, algumas deficiências tornaram-se salientes. Talvez a principal seja o fato de que esses livros apresentam sequências de ideias sem dar o devido destaque à atividade de filosofar, isto é, sem confrontar seus leitores com problemas abertos que induzam à reflexão. O livro de Marilena Chauí começa com uma descrição do surgimento da filosofia na Grécia antiga por contraposição ao pentamento mitológico, como se a filosofia fosse uma espécie de luta do logos com o mito. Essa é uma maneira de entender a história da filosofia deveras iluminista, para dizer o mínimo. Do ponto de vista histórico, é contestável: os mitos nunca foram embora, apenas foram substituídos por novos mitos, mitos vivos. Mas a curiosidade dos mitos vivos é que quem acredita neles os descreve como realidade e não como mitos. Isso apenas para ilustrar a dificuldade de se apresentar de uma história das ideias em um livro de filosofia sem problematizar filosoficamente a própria história.
Em anos mais recentes, com as novas gerações de professores de filosofia no ensino médio, os velhos manuais foram sendo gradualmente substituídos por um material mais pulverizado: textos clássicos comentados, reflexões curtas, temas contemporâneos de interesse social, técnicas de pensamento crítico. Como diversas vezes salientou o professor Ronai Rocha em seus livros sobre o ensino de filosofia, não era evidente exatamente qual perfil dar a essa disciplina. Em razão disso, o livro de Marcelo Fischborn é um presente muito bem-vindo: tem um pefil claramente filosófico, voltado para problemas e redigido de tal modo a induzir a reflexão. Os capítulos são curtos, podem ser usados em sala de aula. Estão escritos de modo limpo e com pequenas histórias, de leitura agradável. Em alguns aspectos, parece-se com o livro de introdução escrito por Thomas Nagel, Uma breve introdução à filosofia, mas com a vantagem de ser mais didático. Como no livro de Nagel, os temas são clássicos (justificação do conhecimento, o que é uma definição, valores e critérios éticos e políticos), mas a abordagem é contemporânea. O perfil é analítico, isto é, a ênfase está na clareza e não na mobilização de sentimentos ou na defesa de causas ou teses. Esse é o perfil do próprio autor, que imprime assim o seu estilo naquilo que escreve.
Dos livros que eu conheço de introdução à filosofia voltados para o ensino médio, este é o melhor de todos. Mas, claro, não conheço todos. Convido os leitores a enviarem resenhas de outros livros bons como este para o Arquipélago. De qualquer maneira, recomendo vivamente o livro de Marcelo Fischborn a todos os professores e estudantes de filosofia do ensino médio, e a qualquer pessoa que queira uma introdução simples a essa tão complexa e sofisticada disciplina. Mas também não posso esconder que sou fã do Marcelo Fischborn, e por isso minhas opiniões não são isentas. Além de ter sido seu orientador de mestrado, supervisionei seu estágio pós-doutoral na UFRGS (2024-2025), durante o qual ele escreveu a maior parte do livro. Eu sei que não sou isento, mas é o que penso, sinceramente.
Rogério P. Severo
Dept. Filosofia, UFRGS
Leia, a seguir, uma amostra das primeiras páginas do livro. Quem desejar pode também conferir este vídeo de apresentação da obra.