Frank Thomas Sautter, Introdução às Redes Dialéticas

Frank Thomas Sautter, Introdução às Redes Dialéticas
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Introdução

Este texto é o primeiro de uma série de textos em que apresento e utilizo as Redes Dialéticas, uma ferramente gráfica para a anotação de argumentação. “Argumentação”, na tradição pragma-dialética1Para um aprofundamento da tradição pragma-dialética, veja o verbete "Pragma-dialectics", da Wikipedia, disponível em https://en.wikipedia.org/wiki/Pragma-dialectics. , designa a totalidade dos argumentos produzidos em uma discussão crítica, e esta é um tipo de troca discursiva mediante a qual uma diferença de opinião pode ser resolvida (Van Eemeren e Garssen 2022).

Neste primeiro texto apresentarei as representações mais básicas das Redes Dialéticas, ou seja, aquelas representações de entidades e processos que ocorrem em toda e qualquer argumentação. Estas representações básicas estão divididas em três blocos: os atores de uma discussão crítica, os movimentos em uma discussão crítica, e os modos destes movimentos.

Dos atores de uma discussão crítica

Uma discussão crítica inicia quando alguém faz uma asserção que é contestada por outrem2Este "outrem" pode ser a mesma pessoa que faz a asserção contestada, como é o caso quando fazemos uma autocrítica de algum ponto de vista que sustentamos. , e se dispõe a responder discursivamente à contestação. É terminologia consagrada denominar “proponente” àquela pessoa que faz a asserção contestada e “oponente” àquela que contesta essa asserção. Nas Redes Dialéticas, elementos gráficos arredondados (círculos ou elipses) representam peças de discurso sustentadas pela proponente, enquanto que elementos gráficos retos (quadrados ou retângulos) representam peças de discurso sustentadas pela oponente. Tanto proponente como oponente podem sustentar asserções e argumentos. Para evitar a poluição gráfica, asserções são representadas por números: números no interior de círculos representam asserções da proponente, enquanto que números no interior de quadrados representam asserções da oponente. Sugiro, embora isso não seja mandatório, que a numeração acompanhe a ordem cronológica das asserções; isso facilitará o cotejo das asserções da rede dialética com o discurso do qual elas foram retiradas.

Na Figura1(a) está representada a asserção “1” da proponente, e na Figura1(b) está representada a asserção “3” da oponente. Já o retângulo, alongado na vertical, da Figura1(c) representa um argumento da oponente, um argumento composto pela asserção “3” da própria oponente e da asserção “1” da proponente (explicarei, mais adiante, os outros elementos gráficos que aparecem aqui). A elipse, alongada na vertical, da Figura1(d) representa um argumento da proponente, um argumento composto pelas asserções “1” e “2” dela mesma. A decisão de representar asserções por números, para evitar a poluição visual, requer que a rede dialética venha acompanhada de um quadro correlacionando números e asserções.

Figura 1 - Representação de asserções e argumentos dos atores, e dos movimentos

Dos movimentos em uma discussão crítica

A estrutura de uma discussão crítica pode ser concebida como uma sequência de turnos entre os dois atores: a pessoa que inicia, na condição de proponente, sustentando uma asserção, a pessoa que responde, na condição de oponente, contestando essa asserção, e assim sucessivamente. Cada um destes turnos da discussão crítica efetiva-se mediante um movimento discursivo realizado por um dos atores. Um movimento corresponde a um ato discursivo, ou seja, a uma ação que uma pessoa empreende mediante a sua produção de uma asserção. Há somente dois movimentos possíveis em uma discussão crítica: defender e atacar. Defender uma asserção consiste em aduzir uma ou mais asserções como evidências ou razões em favor dela, enquanto que atacar uma asserção consiste em aduzir uma ou mais asserções evidências ou razões contrárias a ela.

Nas Redes Dialéticas há elementos gráficos tanto para movimentos de defesa como para movimentos de ataque. Um movimento de ataque é representado mediante um segmento de linha em que há uma bolinha vazada na extremidade do segmento que faz contato com a asserção atacada; por exemplo, na Figura 1(c) está representado um argumento da oponente em que, mediante a sua asserção “3”, ela ataca a asserção “1” da proponente. Observe que a representação é fiel àquilo que esperaríamos de um movimento típico de ataque: mediante uma ou mais asserções de um ator, uma asserção do outro ator é atacada. Já um movimento de defesa é representado mediante um segmento de linha em que há uma flecha na extremidade do segmento que faz contato com a asserção defendida; por exemplo, na Figura 1(d) está representado um argumento da proponente em que, mediante a asserção “2”, ela defende a sua asserção “1”. Aqui, também, a representação é fiel àquilo que esperaríamos de um movimento típico de defesa: mediante uma ou mais asserções de um ator, uma asserção dele é defendida.

As Figuras 1(c) e 1(d) ainda contém elementos gráficos que não expliquei; vou fazê-lo na próxima seção.

Dos modos dos movimentos em uma discussão crítica

Considere a Figura 2(a). Nela representamos duas asserções do(a) proponente – as asserções “2” e “3” – defendendo sua asserção “1”. Esta representação é ambígua: ela pode estar expressando que as duas asserções estão conjuntamente defendendo a asserção “1” ou ela pode estar expressando que as duas asserções estão separadamente defendendo a asserção “1”, ou seja, no primeiro caso haveria uma única defesa, enquanto que no segundo caso haveria duas defesas. O terceiro grupo de representações básicas das Redes Dialéticas visa resolver esta ambiguidade. Na Figura 2(b) está representada a defesa conjunta, acoplada da asserção “1” mediante as asserções “2” e “3”. Para cada movimento há uma correspondente transição representada, nas Redes Dialéticas, por um retângulo cheio. Na Figura 2(b) há um único movimento de defesa, por isso há uma única transição. Já na Figura 2(c) está representada a defesa separada da asserção “1” mediante a asserção “2” e mediante a asserção “3”. Na Figura 2(c) há dois movimentos de defesa, por isso há duas transições em jogo.

Figura 2 - Representação dos modos dos movimentos

Concluí, com isso, a breve exposição do conjunto básico de representações disponível nas Redes Dialéticas. Verei, para concluir este primeiro texto, um exemplo simples e, em seguida, um exemplo completo extraído de uma obra filosófica contemporânea.

Se você estiver interessado nos detalhes técnicos das Redes Dialéticas ou em exemplos adicionais, distintos daqueles que serão apresentados nesta série, consulte (Sautter 2023) e (Sautter 2025).

Exemplo inicial: Trasímaco e Sócrates sobre a justiça

Um exemplo concreto, relacionado às Figuras 1(c) e 1(d), poderia ser o seguinte excerto da República, de Platão, dado pelas asserções do Quadro 1, em que Trasímaco – o proponente – oferece uma definição de justiça contestada por Sócrates – o oponente:

Quadro 1 – Asserções de Trasímaco e Sócrates

Ordem Asserção
1 A justiça não é outra coisa senão a conveniência do mais forte (338c).
2 Independente do regime político (monarquia, democracia, aristocracia), só há um modelo de justiça em todos os Estados (339a)
3 Não é justo obedecer aos governantes quando ordenam o que é prejudicial (339e)

Exemplo completo: A Objeção do Suborno

O filósofo estadunidense Michael Sandel publicou diversas obras nas quais apresenta argumentação filosófica real, ainda que reconstruída, sobre temas relevantes para a sociedade contemporânea. No Capítulo 2 (Incentivos) de “O que o dinheiro não compra: os limites morais do mercado” (Sandel 2012), ele examina a moralidade de diversos incentivos financeiros.

O primeiro caso examinado por Sandel diz respeito ao incentivo promovido por uma organização caritativa estadunidense que ofereceu dinheiro para que mulheres viciadas aceitem ser esterilizadas ou se submetam permanentemente ao controle de natalidade (Sandel 2012, 45), sob a justificativa de que “ninguém tem o direito de impingir o próprio vício a um outro ser humano” (Sandel 2012, 46). Há, aqui, diversos argumentos em jogo, mas me concentrarei na denominada “Objeção do Suborno”. A rede dialética deste argumento e de seu contra-argumento encontra-se diagramada na Figura 3, e o Quadro 2 apresenta a correspondência entre os números que ocorrem na rede dialética e as asserções que compõem o argumento e o contra-argumento. Os contrários ao incentivo financeiro desempenham o papel de proponente, enquanto que os favoráveis, o papel de oponente.

Figura 3 - Objeção do suborno

Quadro 2 – Asserções da objeção do suborno e de sua contra-argumentação

Ordem Asserção
1 O estímulo financeiro a viciadas em drogas para que abram mão de sua capacidade reprodutora (EF) é moralmente condenável (p. 45).
2 Uma forma particular de corrupção consiste em comprar e vender algo que não pode ser posto à venda (p. 47).
3 Quando um juiz aceita suborno para dar um veredito corrompido, está agindo como se sua autoridade judicial fosse um instrumento de ganho pessoal (p. 48).
4 EF é análogo ao caso de um juiz que aceita suborno (p. 48).
5 EF é uma forma de corrupção (p. 48).
6 Qualquer forma de corrupção é moralmente condenável (tácito).
7 A analogia entre EF e o caso do juiz é falha (p. 48).
8 O juiz vende algo que não lhe pertence, enquanto a mulher vende algo que lhe pertence (p. 48).

Sobre o que vem a seguir

No próximo artigo construirei a rede dialética da argumentação contida em um texto literário, a saber, “A duração do Inferno”, de Jorge Luis Borges.

Notas

  1. Para um aprofundamento da tradição pragma-dialética, veja o verbete "Pragma-dialectics", da Wikipedia, disponível em https://en.wikipedia.org/wiki/Pragma-dialectics.

  2. Este "outrem" pode ser a mesma pessoa que faz a asserção contestada, como é o caso quando fazemos uma autocrítica de algum ponto de vista que sustentamos.

Referências

Sandel, Michael J. 2012. O que o dinheiro não compra: Os limites morais do mercado. Traduzido por Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
Sautter, Frank Thomas. 2023. “Redes Dialéticas: Parte Estática”. Veritas (Porto Alegre) 68 (1): e44462. https://doi.org/10.15448/1984-6746.2023.1.44462.
———. 2025. “Aperfeiçoamento das redes dialéticas”. Cognitio: Revista de Filosofia 26 (1): e70757. https://doi.org/10.23925/2316-5278.2025v26i1:e70757.
Van Eemeren, Frans H., e Bart Garssen. 2022. “Putting Pragma-Dialectics into Practice”. Em Critical Thinking Education and Assessment: Can Higher Order Thinking be Tested?, editado por Jan Sobocan, 2nd ed, 237–54. Windsor: University of Windsor.

Arquipélago Filosófico, Vol. 2, No. 4 (2026), e-004
ISSN 3086-1136

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