Daniel Brudney, Quatro tipos de abordagem filosófica
Arquipélago
O texto a seguir foi extraído do livro Marx’s attempt to leave philosophy, de Daniel Brudney (Cambridge University Press, 1998, pp. 77-80). O texto foi traduzido por Felipe Taufer (Univ. Caxias do Sul) e pode ser útil como um material didático de introdução à filosofia.
[...] Deixe-me esboçar brevemente quatro formas de abordar uma questão filosófica. Elas representam quatro atitudes que podemos ter em relação a tal questão (é claro que existem outras):
1. Uma abordagem séria toma uma questão filosófica como importante e interessante. Muitas das questões que as ciências naturais examinam, por exemplo, aquelas sobre a estrutura física do universo, são claramente importantes e interessantes. Questões de filosofia teórica também são assim consideradas; por exemplo, aquelas sobre a natureza do conhecimento ou da realidade. Também pensamos frequentemente que questões de filosofia prática são importantes e interessantes, pois elas se ocupam de problemas de importância prática, por exemplo, quanto às obrigações que temos uns em relação aos outros – quando examinamos questões como estas, pode ser que estejamos buscando diretrizes para nossas ações ou padrões para avaliarmos uns aos outros ou nossas instituições sociais. A ideia geral parece ser clara o bastante: algumas questões filosóficas são atrativas e exigem respostas.
2. Uma abordagem desdenhosa encara as questões filosóficas como algo a ser facilmente resolvido. Essa abordagem não coloca um ponto final na conversa ("não penso sobre essas coisas"), mas nega que questões filosóficas sejam difíceis e que exijam pensamentos sérios. Com frequência, a abordagem desdenhosa é simplesmente a voz daquele senso comum paroquial, que profere juízos com a confiança de quem acha que o alvo é do tamanho da lateral de um celeiro. O famoso "chute na pedra" do Dr. Johnson é desse tipo.
3. Uma abordagem deflacionária é alquimia reversa. Ela tenta mostrar que uma questão aparentemente profunda e interessante apenas faz sentido quando compreendida como uma questão mais modesta, como uma questão que pode ser respondida de forma mais modesta, em vez de envolver considerações grandes e abstratas. John Austin é um exemplo de filósofo deflacionário. Em "Outras mentes", ele insiste que qualquer questão sobre a realidade de algo deve ser colocada em termos concretos: "A dúvida ou questão 'mas é real?' tem sempre (tem que ter) uma base especial, deve existir alguma 'razão para sugerir' que não é real no sentido de um procedimento específico, ou um limitado número de procedimentos específicos, que sugerem que esta experiência ou esta coisa podem ser espúrias".[1] Uma vez colocada em termos concretos, a questão pode ser respondida, presumivelmente, sem recurso à metafísica.[2]
No século XIX, muitos escritores falavam como se as ciências naturais pudessem resolver as questões filosóficas, mas essa estratégia nem sempre foi deflacionária. Alguns escritores continuaram a atribuir grande importância a essas questões. Eles se viam como respondendo às mesmas questões sobre as quais os filósofos tinham se debatido por séculos, mas mostravam que elas poderiam ser resolvidas de alguma forma antes desprezada ou não compreendida pelos filósofos. Diferentemente disso, uma estratégia verdadeiramente deflacionária transforma as grandes questões filosóficas em algo mais limitado. A sua solução, então, torna-se mais factível, mas também um feito bem menos importante.[3]
4. Uma abordagem diagnóstica tenta mostrar que uma questão filosófica surge como o resultado de alguma característica contingente da vida intelectual, psicológica ou social. Remova essa característica e a questão não mais será levantada. A ideia é que, embora uma questão particular possa parecer importante, como simplesmente induzida pela condição humana, na verdade ela é induzida por uma característica alterável da vida social, psicológica ou intelectual. Altere tal característica e a importância aparente da questão sumirá.
Aqui existem duas grandes subcategorias:
(i) O diagnóstico localiza a questão filosófica em uma fonte cujo reconhecimento é logicamente ou psicologicamente incompatível com continuar considerando tal questão como séria. Saber de onde vem a questão revela a incoerência da pergunta ou enfraquece o seu interesse.
(ii) O diagnóstico localiza a questão filosófica em uma fonte removível por transformações em nossa própria vida ou em condições sociais, que, por conseguinte, dissolveriam o seu interesse. A questão, então, não seria mais levada à sério.[4]
O tipo (ii) da abordagem diagnóstica pode criar um problema de justificação. Compare, por exemplo, as afirmações de um par de diagnósticos de tipo (ii). O primeiro diagnóstico afirma que os seres humanos pensam que a questão filosófica Q é interessante e importante apenas porque nossos corpos contêm traços de um aditivo alimentar introduzido na França e na Inglaterra no século XVII, mas amplamente usado deste então. O aditivo poderia ser facilmente, e sem custo, removido da dieta das pessoas. Feito isso, ninguém mais acharia Q interessante ou importante. O segundo diagnóstico afirma que os seres humanos pensam que a questão Q é interessante e importante somente porque, a partir do século XVII, as fábricas começaram a emitir quantidades significativas de compostos de carbono na atmosfera, que reagem com a química do cérebro humano, resultando em uma obsessão amplamente difundida pela questão Q. Caso a atmosfera seja completamente purificada, ninguém mais avaliará a questão Q como interessante ou importante.
O segundo desses diagnósticos apresenta um problema. Um diagnóstico filosófico supostamente está intimamente conectado a uma cura filosófica. Com diagnósticos do tipo (i), supõe-se que ver a verdade do diagnóstico é o mesmo que ser curado. Com efeito, a cura certifica a verdade do diagnóstico. Para um agente que foi curado, a questão filosófica não possui mais fundamento. Mesmo com um tipo (ii) de diagnóstico doo primeiro exemplo do parágrafo anterior, a cura poderia ser a confirmação prática do diagnóstico. Livrando a dieta de todo mundo daquele aditivo, Q não mais pareceria ser um problema.
Com o segundo exemplo as coisas são diferentes, pois, deixando de lado um compromisso internacional super improvável para completar a purificação da atmosfera, ele nos diz que a maioria das pessoas continuarão a avaliar Q de modo sério. Mas, então, por que acreditar no diagnóstico sobre Q? Por que parar de tentar buscar respostas para Q?
Para cada um desses exemplos de tipo (ii), o diagnóstico e a cura são passos separados. Portanto, para cada um, quem primeiro propôs o diagnóstico deve ter tido alguma razão para acreditar nisso antes de ser curado. Presumivelmente, a razão poderia ser tornada disponível para todos. Porém, suponha agora que o segundo exemplo tenha uma cláusula extra especificando que, enquanto a atmosfera permanecer impura, uma teoria atribuindo o interesse de Q a uma reação química eliminável soará às pessoas como altamente implausível. Chamamos um diagnóstico de "autoenfraquecedor" se, para haver uma cura, ele exigir tanto mudanças consideráveis – que não sejam prováveis de acontecer no futuro próximo –, quanto, na ausência dessas mudanças, admitir a sua própria aparente implausibilidade. Então, se um diagnóstico autoenfraquecedor for verdadeiro, ele parecerá implausível. Ainda poderia haver razões para acreditar que um diagnóstico autoenfraquecedor seja verdadeiro – ciência e filosofia frequentemente tentam provar aquilo que parece implausível -- mas essas razões enfrentarão um árduo combate pela frente [...]
John Austin, "Outras mentes" (in: Ensaios. Col. Os Pensadores. Trad. Marcelo Guimarães da Silva Liva. São Paulo: Abril Cultural, 1975), p. 100. Para uma discussão da estratégia de Austin, ver Cavell, The claim of reason, pp. 49–64. ↩︎
William James oferece outro bom exemplo, em Pragmatismo, quando "resolve" uma questão aparentemente difícil ao introduzir uma distinção que transforma a questão difícil em duas questões fáceis. Para isso, ver William James, Pragmatism (Nova York: New American Library, 1974), pp. 41–42. ↩︎
Para uma explicação de várias formas em que os escritores alemães do século XIX apelaram à ciência como um meio de resolver problemas filosóficos, ver Herbert Schnädelbach, Philosophy in Germany, 1831–1933 (Cambridge: Cambridge University Press, 1984), p. 95–100. A maioria das abordagens que Schnädelbach cataloga não são deflacionárias, pois reinterpretar "questões epistemológicas em termos de fisiologia da percepção" (p. 97) é algo deflacionário apenas se aquilo que fazemos é apontar certas características concretas da percepção humana e não proclamar que agora resolvemos o problema do conhecimento. Mas, na explicação de Schnädelbach, esse último movimento argumentativo era o mais típico. ↩︎
Às vezes pode ser difícil de distinguir uma abordagem deflacionária de uma abordagem diagnóstica. Que tipo de abordagem é o ataque de Carnap à metafísica? O ataque de Carnap reduz enunciados profundos a enunciados sem sentido, o que certamente é deflacionário, mas isso é feito com base na explicação do problema subjacente como uma falha em fazer enunciados de acordo com aquilo que Carnap chama de "linguagem logicamente correta" (Rudolph Carnap, "The elimination of metaphysics through logical analysis of language" (in: A. J. Ayer (ed.), Logical positivism. p. 70. Nova York: Free Press, 1959). Isso soa como um diagnóstico. Já que explicações deflacionárias procedem por meio da mudança da estrutura de uma questão, elas com frequência também serão diagnósticas (de tipo (i)), pois frequentemente argumentam que a questão sempre aparentou ser importante apenas porque foi impropriamente formulada — ou seja, fornecem um diagnóstico do caráter ilusório da importância da questão. (O que Ryle denomina "erro categorial" é um exemplo de explicação deflacionária e diagnóstica). Uma abordagem deflacionária, no entanto, não repousa necessariamente sobre um diagnóstico. ↩︎
Arquipélago Filosófico, Vol. 2, No. 5 (2026), e-005
ISSN 3086-1136
Informações do Artigo
Artigo: Daniel Brudney, Quatro tipos de abordagem filosófica
Autor(es): Arquipélago
Data: 19 Fev 2026
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