Correspondência entre Descartes e Elisabeth: a interação entre a mente e o corpo
Arquipélago
Breno Franco é doutorando em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e bolsista da CAPES. Está escrevendo uma tese sobre a filosofia de Descartes e traduziu, para a editora Logos, o Discurso do método, a respeito do qual escreveu uma breve apresentação para um número anterior desta revista.
Correspondência entre Descartes e Elisabeth: a interação entre a mente e o corpo
Tradução, apresentação e notas por Breno Franco
Entre maio de 1643 e dezembro de 1649, poucos meses antes de sua morte, René Descartes (1596-1650) manteve uma intensa e profícua correspondência com Elisabeth Simmern van Pallandt (1618-1680), mais conhecida pelo seu título nobiliárquico de Princesa Elisabeth da Boêmia. As cartas cobrem as mais variadas áreas, desde metafísica, filosofia natural e geometria, até medicina, ética e filosofia política, e foram cruciais para os desenvolvimentos apresentados pelo filósofo francês na sua última obra, As paixões da alma, publicada em 1649 e dedicada à jovem princesa.
Especialmente relevantes são as cinco primeiras cartas, que se concentram em uma questão extremamente importante não só por seu papel na recepção da filosofia cartesiana como também por seu interesse filosófico intrínseco. Em 6 de maio de 1643, Elisabeth pergunta a Descartes “como a alma do homem (não sendo ela senão uma substância pensante) pode determinar os espíritos do corpo para produzir as ações voluntárias” (AT III 661[1]; cf. abaixo), ou, em outras palavras, como a alma pode mover o corpo. Essa questão expressa uma dificuldade importante para a filosofia da mente de Descartes. Nas Meditações de filosofia primeira, Descartes defendera que mente e corpo são substâncias realmente distintas. Parte do que essa tese significa é que a mente e o corpo não possuem qualquer propriedade em comum: a mente não possui nada de corpóreo nem o corpo nada de mental. Isso, no entanto, parece tornar ininteligível a possibilidade da interação causal entre a mente e o corpo. Como pode uma mente puramente imaterial, inextensa, fazer com que os membros do corpo se movam? E como podem os impactos dos corpos externos sobre os nossos órgãos sensórios resultar em sensações na mente? Essa questão pautou boa parte da discussão sobre a filosofia da mente no período moderno, sendo abordada por quase todos os grandes pensadores do período. Além disso, a questão permanece de suma importância para a avaliação da viabilidade filosófica do dualismo de substâncias ainda nos nossos dias.
Essas cartas são ainda de inquestionável importância para a interpretação do pensamento cartesiano. Em sua resposta à questão de Elisabeth, Descartes elabora sua teoria acerca das “noções primitivas” das quais todas as nossas outras noções seriam constituídas. Curiosamente, sua resposta à questão de Elisabeth parece ser que a interação causal entre a mente e o corpo, cuja noção depende da noção primitiva da união entre eles, é concebível, mas não pelo entendimento puro. Ou, mais precisamente, o entendimento puro, isto é, sem recurso à imaginação ou aos sentidos, só pode conhecer “obscuramente” essa interação, ao passo que os sentidos a conhecem “muito claramente” (AT III 691-692). A união entre a mente e o corpo, assim como a interação causal entre ambos, seria possível e cognoscível pelos sentidos, mas opaca ao entendimento sozinho e mesmo ao entendimento assistido pela imaginação. Outro aspecto curioso da resposta de Descartes e que desafia ainda hoje seus intérpretes é a afirmação de que conceber a alma como material “é propriamente conceber a sua união com o corpo” (AT III 691). As questões de saber em que consiste a noção primitiva da união entre a mente e o corpo e como o apelo a essa noção deveria responder à questão da inteligibilidade da interação entre ambos permanecem altamente controversas na literatura especializada sobre o filósofo.
São essas cinco primeiras cartas da correspondência entre Descartes e Elisabeth que o leitor encontra aqui traduzidas. O texto base é aquele da edição de referência das obras completas de Descartes, empreendida por Charles Adam e Paul Tannery entre 1897 e 1913[2]. Optou-se por respeitar as características estilísticas do texto, sobretudo a preferência de ambos os autores por períodos longos e sintaticamente intrincados, não obstante a dificuldade que isso possa trazer à compreensão de algumas passagens.
Carta 1 - Elisabeth a Descartes
Haia, 6 de maio de 1643
(AT III 660-662)
Senhor Descartes,
Soube, com muita alegria e lástima, da intenção que tivestes de me ver alguns dias atrás, tocada igualmente pela caridade de quererdes vos comunicar com uma pessoa ignorante e indócil e pela má sorte que me privou de uma conversação tão proveitosa. O Sr. Pallotti aumentou bastante esta última paixão ao me relatar as soluções que lhe comunicastes para as obscuridades contidas na física do Sr. Regius, [soluções] acerca das quais eu teria sido melhor instruída por vossas próprias palavras, como também [o teria sido] acerca de uma questão que propus ao dito professor quando esteve ele nesta cidade, em relação à qual me remeteu a vós para receber os esclarecimentos requeridos. A vergonha de vos mostrar um estilo tão desregrado me impediu até aqui de vos solicitar tal favor por carta.
Hoje, porém, o Sr. Pallotti me deu tanta segurança de vossa bondade para com qualquer um, e particularmente para comigo, que expulsei toda outra consideração do espírito exceto a de me prevalecer dela, pedindo-vos que me digais como a alma do homem (não sendo ela senão uma substância pensante[3]) pode determinar os espíritos do corpo[4] para produzir as ações voluntárias. Pois parece que toda determinação do movimento se faz pela pulsão da coisa movida, pela maneira como ela é empurrada por aquela que a move, ou bem pela qualificação e figura da superfície desta última. O toque é exigido pelas duas primeiras condições, e a extensão, pela terceira. Esta, vós a excluís inteiramente da noção que tendes da alma[5], e aquela me parece incompatível com uma coisa imaterial. Por isso vos peço uma definição mais particular da alma do que [aquela que destes] em vossa Metafísica[6], isto é, de sua substância separada de sua ação, do pensamento. Pois, ainda que as suponhamos inseparáveis (o que, no entanto, é difícil de provar [no caso de bebês] no ventre da mãe e nos desmaios profundos), como os atributos de Deus, podemos, considerando-as à parte [uma da outra], adquirir uma ideia mais perfeita a seu respeito.
Sabendo que sois o melhor médico para a minha [alma], deixo-vos ver tão livremente as fraquezas de suas especulações e espero que, observando o juramento de Hipócrates[7], vós lhes forneçais os remédios sem torná-las públicas; é isso que vos peço que façais, bem como que tolereis as importunações de
vossa afeiçoada amiga,
Elisabeth.
Carta 2 - Descartes a Elisabeth
Egmond aan den Hoef, 21 de maio de 1643
(AT III 663-668)
Senhora,
O favor com que Vossa Alteza me honrou, fazendo-me receber vossas ordens por escrito, é maior do que eu teria jamais ousado esperar, e alivia mais os meus defeitos do que aquele que eu desejara ardentemente, que era recebê-las de viva voz, se tivesse podido receber a honra de vos fazer reverência e de vos oferecer meus muito humildes serviços, quando estive pela última vez em Haia. Pois teria tido maravilhas demais para admirar ao mesmo tempo e, vendo um discurso mais que humano emanando de um corpo tão semelhante ao que os pintores dão aos anjos, me teria rejubilado da mesma maneira que aqueles que, vindos da terra, entram pela primeira vez [nouvellement] no céu. Isso me teria deixado menos capaz de responder à Vossa Alteza, que sem dúvida já observou em mim esse defeito quando tive anteriormente a honra de vos falar; e vossa clemência o quis aliviar, deixando-me os traços de vossos pensamentos sobre um papel, de modo que, relendo-os diversas vezes e acostumando-me a considerá-los, sou de fato menos deslumbrado por eles, mas não lhes tenho senão mais admiração, observando que não apenas parecem engenhosos à primeira vista, mas tanto mais judiciosos e sólidos quanto mais os examino.
E posso dizer, com verdade, que a questão que Vossa Alteza me propôs me parece ser a que se me pode fazer com mais razão, em decorrência dos escritos que publiquei.[8] Pois, havendo na alma humana duas coisas de que depende todo o conhecimento que podemos ter de sua natureza, uma das quais é que ela pensa e a outra, que, estando unida ao corpo, pode agir e padecer com ele, eu quase nada disse acerca desta última, e me esforcei somente em fazer com que se compreenda bem a primeira, porque o meu principal objetivo era provar a distinção que há entre a alma e o corpo, para o qual apenas esta pôde servir, ao passo que a outra lhe teria sido nociva. Mas, porque Vossa Alteza vê tão claramente que não se lhe pode dissimular nada, tentarei explicar aqui de que maneira concebo a união da mente com o corpo e como tem ela a capacidade [force] de movê-lo.
Primeiramente, considero que há em nós certas noções primitivas, que são como originais sobre cujo padrão formamos todos os nossos outros conhecimentos. E não há senão muito poucas de tais noções, pois, depois das mais gerais, do ser, do número, da duração etc., que convêm a tudo o que podemos conceber, nós não temos, para o corpo em particular, senão a noção da extensão, da qual se seguem as da figura e do movimento; e para a alma sozinha, não temos senão a do pensamento, na qual estão compreendidas as percepções do entendimento e as inclinações da vontade; enfim, para a alma e o corpo juntos, não temos senão a da sua união, da qual depende a da capacidade [force] que a alma tem de mover o corpo, e o corpo de agir na alma, causando seus sentimentos e suas paixões.
Considero também que toda a ciência dos homens não consiste senão em bem distinguir essas noções e em não atribuir cada uma delas senão às coisas a que pertencem. Pois, quando queremos explicar alguma dificuldade por meio de uma noção que não lhe pertence, é inevitável que nos enganemos, como também quando queremos explicar uma dessas noções por uma outra; pois, sendo primitivas, cada uma delas não pode ser entendida senão por si mesma. E, na medida em que o uso dos sentidos nos tornou as noções da extensão, das figuras e dos movimentos muito mais familiares que as outras, a principal causa de nossos erros está no fato de que queremos de ordinário nos servir dessas noções para explicar coisas a que não pertencem, como quando queremos nos servir da imaginação para conceber a natureza da alma, ou bem quando queremos conceber a maneira como a alma move o corpo pela maneira como um corpo é movido por um outro corpo.
É por essa razão que, tendo, nas Meditações que Vossa Alteza se dignou a ler, tentado fazer conceber as noções que pertencem à alma sozinha, distinguindo-as das que pertencem ao corpo sozinho, a primeira coisa que devo explicar na sequência é a maneira de conceber as que pertencem à união da alma com o corpo, sem as que pertencem ao corpo sozinho ou à alma sozinha. A isso me parece que pode servir o que escrevi no final da minha Resposta às Sextas Objeções[9], pois não podemos procurar essas noções simples em outro lugar senão em nossa alma, que as tem todas em si por sua natureza, mas que não as distingue sempre suficientemente umas das outras, ou bem não as atribui [sempre] aos objetos aos quais devemos atribuí-las.
Assim, creio que até agora confundimos a noção da capacidade [force] pela qual a alma age no corpo com aquela pela qual um corpo age em outro, e que atribuímos uma e outra não à alma, pois ainda não a conhecíamos, mas às diversas qualidades dos corpos, como ao peso, ao calor e às outras que imaginamos serem reais, isto é, terem uma existência distinta da do corpo e, por conseguinte, serem substâncias, ainda que as tenhamos chamado de qualidades. E, para concebê-las, nos servimos ora de noções que estão em nós para conhecer o corpo, e ora daquelas que estão [em nós] para conhecer a alma, conforme aquilo que lhes tenhamos atribuído fosse material ou imaterial. Por exemplo, supondo que o peso seja uma qualidade real, da qual não temos outro conhecimento senão que ela tem a capacidade [force] de mover o corpo onde se encontra em direção ao centro da Terra, não temos dificuldade em conceber como ela move esse corpo nem como está unida a ele; e não pensamos que isso se faça pelo toque real de uma superfície em outra, pois experimentamos em nós mesmos que temos uma noção particular para conceber isso; e creio que usamos mal essa noção quando a aplicamos ao peso, que não é nada de realmente distinto do corpo, como espero mostrar na Física[10], mas que ela nos foi dada para conceber a maneira como a alma move o corpo.
Eu testemunharia não conhecer suficientemente o incomparável espírito de Vossa Alteza, se empregasse mais palavras para me explicar, e seria demasiado presunçoso, se ousasse pensar que minha resposta deva satisfazê-la inteiramente; mas tentarei evitar uma coisa e outra, não acrescentando nada mais aqui senão que, se sou capaz de escrever ou de dizer alguma coisa que possa agradá-la, eu terei sempre como uma grande honra para mim pegar a pena ou ir a Haia para tanto, e que não há nada no mundo que me seja tão caro quanto poder obedecer às suas ordens. Mas não posso ver aqui o lugar para a observação do juramento de Hipócrates que me recomenda, pois nada me comunicou ela que não mereça ser visto e admirado por todos os homens. Somente posso dizer, a esse respeito, que, estimando infinitamente a vossa [carta] que recebi, usarei dela como os avaros das suas riquezas, os quais as escondem tanto melhor quanto mais as estimam e, invejando que sejam vistas pelo resto do mundo, colocam seu soberano contentamento em contemplá-las. Assim, ficarei contente em fruir sozinho do bem de vê-la, e minha ambição maior é poder dizer-me, e ser verdadeiramente, etc.
Carta 3 - Elisabeth a Descartes
Haia, 10/20 de junho de 1643
AT III 683-685
Senhor Descartes,
Vossa bondade não aparece apenas em mostrar e corrigir as faltas de meu raciocínio, como eu o tinha entendido, mas também no fato de que, para me tornar o conhecimento delas menos penoso, tentais me consolar, em detrimento de vosso juízo, por falsos louvores, os quais teriam sido necessários para me encorajar a trabalhar por remediá-las, se minha educação, em um lugar onde a maneira ordinária de conversar me acostumou a ouvi-los de pessoas incapazes de os fazer verdadeiros, não me tivesse feito presumir que não posso errar ao crer o contrário dos seus discursos, tornando assim a consideração de minhas imperfeições tão familiar que ela não me dá mais que tanta emoção quanto me é necessário para o desejo de me desfazer delas.
Isso me faz confessar, sem [nenhuma] vergonha, que encontrei em mim todas as causas de erro que observastes em vossa carta, e que não as posso ainda banir inteiramente, pois a vida que sou constrangida a levar não me permite dispor de tempo suficiente para adquirir um hábito de meditação segundo as vossas regras. Ora os interesses de minha casa, que não devo negligenciar, ora as conversações e amenidades, que não posso evitar, abatem-me tanto este [meu] débil espírito de desgosto ou de tédio, que ele permanece depois por um bom tempo inútil para qualquer outra coisa: o que servirá, espero, de escusas à minha estupidez, de não poder compreender a ideia pela qual devemos julgar como a alma (não extensa e imaterial) pode mover o corpo, por meio daquela que tivestes outrora do peso; nem por que esse poder [puissance] de levar os corpos em direção ao centro da Terra, que tínheis então, sob o nome de uma qualidade, falsamente lhe atribuído, nos deva antes persuadir de que um corpo pode ser empurrado por alguma coisa imaterial do que a demonstração de uma verdade contrária (que prometeis na vossa Física) confirmar para nós a opinião de sua impossibilidade: principalmente porque essa ideia (não podendo pretender à mesma perfeição e realidade objetiva que aquela de Deus) pode ser forjada pela ignorância daquilo que verdadeiramente move esses corpos em direção ao centro. E, como nenhuma causa material se apresenta aos sentidos, o atribuiríamos [on l’aurait attribué] ao seu contrário, ao imaterial, o que todavia nunca pude conceber senão como uma negação da matéria, que não pode ter qualquer comunicação com ela.
E confesso que me seria mais fácil conceder a matéria e a extensão à alma do que [conceder] a capacidade de mover um corpo e ser movido por um [corpo] a um ser imaterial. Pois, se a primeira [alternativa] se fizesse por informação, seria preciso que os espíritos, que fazem o movimento, fossem inteligentes, o que não atribuís a nada de corporal. E, ainda que em vossas Meditações Metafísicas mostreis a possibilidade da segunda [alternativa], é no entanto muito difícil compreender que uma alma, tal como a descrevestes, após ter tido a faculdade e o hábito de bem raciocinar, possa perder tudo isso por causa de certos vapores e que, podendo subsistir sem o corpo e não tendo nada em comum com ele, seja de tal modo regida por ele.
Mas, desde que empreendestes instruir-me, não entretenho esses sentimentos senão como amigos que não creio [poder] conservar, assegurando-me de que me haveis de explicar tão bem a natureza de uma substância imaterial e a maneira de suas ações e paixões no corpo, quanto todas as outras coisas que quisestes ensinar. Peço-vos também que creiais que não podeis fazer essa caridade a ninguém que seja mais sensível da gratidão que vos deve por isso do que a
vossa muito afeiçoada amiga,
Elisabeth.
Carta 4 - Descartes a Elisabeth
Egmond aan den Hoef, 28 de junho de 1643
(AT III 690-695)
Senhora,
Sou enormemente grato a Vossa Alteza pelo fato de que, após ter reconhecido que me expliquei mal em minha [carta] precedente no tocante à questão que lhe aprouve me propor, se digna ainda ela a ter a paciência de me ouvir [de novo] sobre o mesmo assunto e me dar ocasião de apontar as coisas que eu omitira. E as principais me parecem ser [as seguintes]: que, após ter distinguido três gêneros de ideias ou de noções primitivas que se conhecem cada uma de uma maneira particular e não por comparação uma com a outra, a saber, a noção que temos de nossa alma, a do corpo e a da união que há entre a alma e o corpo, devia explicar a diferença que há entre esses três tipos de noções, e entre as operações da alma pelas quais as possuímos, bem como dizer os meios de nos tornar cada uma delas mais familiar e mais fácil; na sequência, tendo dito por que me servi da comparação do peso, [devia] fazer ver que, ainda que se queira conceber a alma como material (o que é propriamente conceber a sua união com o corpo), não se deixa [por isso] de conhecer, em seguida, que ela é separável dele. Isso, creio, é tudo o que Vossa Alteza me prescreveu aqui.
Primeiramente, então, observo uma grande diferença entre esses três tipos de noções, no fato de que a alma não se concebe senão pelo entendimento puro; o corpo, isto é, a extensão, as figuras e os movimentos, podem também ser conhecidos pelo entendimento sozinho, mas muito melhor pelo entendimento ajudado pela imaginação; e, enfim, as coisas que pertencem à união da alma e do corpo não se conhecem senão obscuramente pelo entendimento sozinho, e mesmo pelo entendimento ajudado pela imaginação, mas são muito claramente conhecidas pelos sentidos. Daí provém que aqueles que jamais filosofam e não se servem senão de seus sentidos não duvidam que a alma mova o corpo nem que o corpo aja sobre a alma, mas consideram um e outro como uma só coisa, isto é, concebem a sua união; pois conceber a união que há entre duas coisas é concebê-las como uma só. E os pensamentos metafísicos, que exercitam o entendimento puro, servem para nos tornar familiar a noção da alma; e o estudo das matemáticas, que exercitam principalmente a imaginação na consideração das figuras e dos movimentos, nos acostuma a formar noções bem distintas do corpo; e, enfim, é usando apenas da vida e das conversações ordinárias e se abstendo de meditar e de estudar as coisas que exercitam a imaginação, que se aprende a conceber a união da alma e do corpo.
Quase receio que Vossa Alteza venha a pensar que não falo aqui seriamente. Isso, porém, seria contrário ao respeito que lhe devo e que não deixarei jamais de lhe devotar. E posso dizer, com verdade, que a principal regra que sempre observei em meus estudos, e a que creio mais ter me servido para adquirir algum conhecimento, foi que jamais empreguei senão muito poucas horas, por dia, nos pensamentos que ocupam a imaginação, e muito poucas horas, por ano, naqueles que ocupam o entendimento sozinho, e dediquei todo o resto de meu tempo ao relaxamento dos sentidos e ao repouso do espírito; e conto mesmo, entre os exercícios da imaginação, todas as conversações sérias e tudo aquilo que exige atenção. Foi o que me levou a retirar-me para os campos; pois ainda que, na cidade mais populosa do mundo, eu pudesse ter tantas horas para mim mesmo quantas emprego presentemente no estudo, não poderia, no entanto, empregá-las tão utilmente, uma vez que meu espírito estaria fatigado pela atenção que exige a azáfama da vida. Tomo aqui a liberdade de escrever isso a Vossa Alteza para lhe testemunhar que admiro verdadeiramente que, em meio aos afazeres e às preocupações que não faltam jamais às pessoas que são ao mesmo tempo de grande espírito e de grande nascimento, tenha ela podido se dedicar às meditações que são exigidas para bem conhecer a distinção que há entre a alma e o corpo.
Mas julguei que foram essas meditações, em vez dos pensamentos que exigem menos atenção, que a fizeram encontrar obscuridade na noção que temos de sua união; pois não me parece que o espírito humano seja capaz de conceber bem distintamente, e ao mesmo tempo, a distinção entre a alma e o corpo e a sua união; pois é preciso, para tanto, concebê-los como uma só coisa, e junto concebê-los como dois, o que se contraria. E por essa razão, (supondo que Vossa Alteza tivesse ainda muito presentes a seu espírito as razões que provam a distinção da alma e do corpo, e não querendo pedir-lhe que se desfizesse delas para se representar a noção da união que cada um experimenta sempre em si mesmo sem filosofar, a saber, que é uma só pessoa que possui ao mesmo tempo um corpo e um pensamento que são de tal natureza que esse pensamento pode mover o corpo e sentir os acidentes que lhe sobrevêm), servi-me anteriormente da comparação do peso e das outras qualidades que imaginamos comumente estarem unidas a certos corpos, tal como o pensamento está unido ao nosso; e não me preocupei que essa comparação deixasse a desejar pelo fato de que essas qualidades não são reais, tal como [normalmente] as imaginamos, porque acreditei que Vossa Alteza estava já inteiramente persuadida de que a alma é uma substância distinta do corpo.
Mas, como Vossa Alteza observa que é mais fácil atribuir a matéria e a extensão à alma do que lhe atribuir a capacidade [capacité] de mover um corpo e de ser movida por ele sem possuir matéria, peço que queira livremente atribuir essa matéria e essa extensão à alma; pois isso não é outra coisa que concebê-la unida ao corpo. E após ter bem concebido isso e tê-lo experimentado em si mesma, lhe será fácil considerar que a matéria que terá atribuído a esse pensamento não é o próprio pensamento, e que a extensão dessa matéria é de outra natureza que a extensão desse pensamento, pelo fato de que a primeira é determinada a um certo lugar do qual ela exclui toda outra extensão corporal, o que a segunda não faz. E assim Vossa Alteza não deixará de retornar facilmente ao conhecimento da distinção da alma e do corpo, não obstante ter concebido a sua união.
Enfim, assim como creio que é muito necessário ter bem compreendido, uma vez na vida, os princípios da metafísica, porque são eles que nos dão o conhecimento de Deus e de nossa alma, assim também creio que seria muito nocivo ocupar frequentemente seu entendimento em meditá-los, porque [assim] ele não poderia tão bem se dedicar às funções da imaginação e dos sentidos; mas que o melhor é contentar-se em reter em sua memória e em sua crença as conclusões que uma vez tiramos deles, depois empregar o resto do tempo que temos para o estudo nos pensamentos em que o entendimento age com a imaginação e os sentidos.
A extrema devoção que tenho ao serviço de Vossa Alteza me faz esperar que minha franqueza não lhe será desagradável, e teria me engajado aqui em um discurso mais longo, pelo qual teria tentado esclarecer dessa vez todas as dificuldades da questão proposta; mas uma penosa notícia que acabo de receber de Utrecht, onde o magistrado me cita para verificar o que escrevi de um de seus ministros, embora seja este um homem que me tenha caluniado de maneira muito indigna, e [embora] o que escrevi a seu respeito, para minha justa defesa, não seja senão muito notório a todo mundo, me constrange a encerrar aqui [esta carta], para ir consultar os meios de me desvencilhar, tão cedo quanto eu puder, dessas chicanas. Sou, etc.
Carta 5 - Elisabeth a Descartes
Haia, 1º de julho de 1643
(AT IV 1-3)
Senhor Descartes,
Receio que recebais tanto aborrecimento da minha estima por vossas instruções e [do meu] desejo de me prevalecer delas, quanto da ingratidão dos que delas se privam a si mesmos e desejariam privar o gênero humano; e não teria vos enviado um novo produto de minha ignorância antes de vos saber desvencilhado do dogmatismo destes, se o senhor Van Bergen não me tivesse obrigado a fazê-lo mais cedo, por sua civilidade de querer permanecer nesta cidade até que eu lhe desse uma resposta a vossa carta do dia 28 de junho, que me faz ver claramente os três tipos de noções que temos, seus objetos e como devemos nos servir delas.
Vejo também que os sentidos me mostram que a alma move o corpo, mas não ensinam (não mais que o entendimento e a imaginação) a maneira como o faz. E, por isso, penso que há propriedades da alma que nos são desconhecidas [e] que poderão talvez destruir aquilo de que vossas Meditações Metafísicas me persuadiram por tão boas razões, [a saber,] a inextensão da alma. E essa dúvida parece fundar-se na regra que aí dais, ao falardes do verdadeiro e do falso, e que todo o erro nos vem de formarmos juízos acerca do que não percebemos suficientemente. Ainda que a extensão não seja necessária para o pensamento, não lhe sendo [também] repugnante, ela poderá convir a alguma outra função da alma que não lhe é menos essencial. Ao menos, ela [nos] faz abandonar a contradição dos escolásticos, [que dizem] que ela está toda no corpo todo e toda em cada uma de suas partes. Não me escuso de confundir a noção da alma com a do corpo pela mesma razão que o comum dos homens; mas isso não me suprime a primeira dúvida, e perderei a esperança de encontrar certeza em qualquer coisa do mundo, se não ma derdes vós, que unicamente me haveis impedido de ser cética, ao que meu raciocínio inicial me portava.
Ainda que vos deva tal confissão, para vos agradecer por isso, eu a teria por muito imprudente, se não conhecesse vossa bondade e generosidade, iguai[s] ao resto de vossos méritos, tanto pela experiência que já tive delas quanto por [vossa] reputação. Não podeis dar testemunho delas de maneira que me deixaria mais grata do que pelos esclarecimentos e conselhos que me participais, os quais estimo acima dos maiores tesouros que poderia possuir
vossa afeiçoada amiga a vos servir,
Elisabeth.
Todas as referências serão dadas conforme a paginação da edição de referência das obras de Descartes, no formato ‘AT’ seguido do número do volume em algarismos romanos e do número das páginas em algarismos arábicos. Ver nota 2 abaixo. ↩︎
Oeuvres de Descartes, 11 vols. ADAM, C.; TANNERY, P. (eds.). Paris: Vrin/CNRS, 1996. ↩︎
Nas Meditações de filosofia primeira, Descartes defendera que a mente é uma substância pensante e não extensa, e o corpo, por sua vez, uma substância extensa e não pensante. Trata-se da tese da “distinção real” entre a mente e o corpo, anunciada no subtítulo da obra. ↩︎
Conhecidos como “espíritos animais” na fisiologia do século XVII, os “espíritos do corpo” a que Elisabeth se refere aqui eram entendidos como partículas minúsculas de matéria que, difundindo-se no interior dos nervos pelo corpo todo, eram responsáveis pela comunicação entre o cérebro e todas as demais partes do corpo. ↩︎
Ver a Segunda Meditação. ↩︎
Isto é, nas Meditações de filosofia primeira. ↩︎
O compromisso de manter segredo sobre a vida dos pacientes é parte do juramento de Hipócrates. ↩︎
Até então, Descartes havia publicado apenas duas obras: o Discurso do método & Ensaios, em 1637, e as Meditações de filosofia primeira, em 1641. ↩︎
Ver AT VII 439-447 / AT IX-A 238-244. ↩︎
Provável referência aos Princípios da filosofia, que Descartes estava então redigindo e que seria a exposição completa de sua física. ↩︎
Arquipélago Filosófico, Vol. 2, No. 9 (2026), e-009
ISSN 3086-1136
Informações do Artigo
Artigo: Correspondência entre Descartes e Elisabeth: a interação entre a mente e o corpo
Autor(es): Arquipélago
Data: 05 Abr 2026
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